Somos todos de nenhum lugar

Dez anos antes de o escritor britânico Neil Gaiman lançar Lugar Nenhum, seu consagrado romance, os roqueiros brasileiros da banda Titãs tascaram uma música que fez bastante sucesso no álbum Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987). Entre música e literatura, dentre outros elementos culturais, talvez seja fácil descobrir o que nos conecta ou faz com que nos sintamos de vários lugares ao mesmo tempo. Ou nos faça rejeitar os “estrangeiros”.

Coincidentemente chamada de Lugar Nenhum, a canção do Titãs carregava uma certa raiva dessa mania universal de se vincular a um espaço, a uma cidade ou a uma pátria – ao dizer em trechos dos versos – Não sou brasileiro/Não sou estrangeiro e, em seguida Não sou de Brasília/Não sou do Brasil/Nenhuma pátria me pariu.

Nem Gaiman nem os Titãs talvez se conhecessem quando ambos estouraram em diferentes décadas e espaços de cultura, mas é certo que os músicos brasileiros sabiam muito bem o que havia feito a carreira do escritor britânico pegar no breu: a sua capacidade de explorar o universo fantástico, o que fez a partir dos quadrinhos e levou, em seguida, ao mundo dos livros. Só para situar o leitor, o romance do britânico referenciado neste texto veio ao mundo em 1997, após o autor não gostar de adaptação da história original pela TV britânica, e foi lançado no Brasil somente em 2010.

UMA PARADINHA – Aqui já fica o alerta que este artigo não se concentrará nas belíssimas obras de ambos, mas naquilo que nos vincula ou não a determinados lugares, embora seja impossível não atribuir essa característica às duas produções – daí o fio do texto.

Bom lembrar que o álbum dos Titãs que trouxe Lugar Nenhum também presenteou o rock brasileiro de então com clássicos como Comida e Diversão, dentre outros. E Gaiman, com seu romance tormentoso, fez o leitor viajar entre dois mundos paralelos – com o protagonista londrino do seu Lugar Nenhum (Richard Mayhew) descobrindo-se “invisível” em sua cidade a partir de um episódio prosaico, que o leva a conhecer a “Londres de Baixo”, em contraposição à “Londres de Cima” em que vivia antes.

De fato, pensar que não é de hoje que o mundo conhece e pratica a xenofobia – o medo, antipatia ou aversão aos estrangeiros. Essa postura ideológica, com traços de racismo e elementos que sempre alimentaram o submundo de regimes autoritários, revela o caráter minúsculo dos seus defensores.

Até em lugares de forte miscigenação e estruturação histórica “de fora para dentro”, como o Brasil, é comum conhecer pessoas identificadas com esse ideário, imaginando-se descendentes diretos de europeus ou de outras regiões por elas consideradas “nobres”, em contraposição a um comportamento notadamente oposto quando olham para imigrantes procedentes de países ou áreas “pobres” – especialmente do mundo africano, centro-americano.

Grandes movimentos migratórios – no ir e vir de milhões de pessoas nos incessantes “êxodos” registrados em diversos momentos da história – tiveram ligação com essas ideias. Seus ‘motores’, em geral, usaram como elementos de combustão guerras e outros conflitos armados, disputas territoriais, por riquezas minerais ou questões com fundo “religioso”, além das clássicas alegações de ordem étnico-racial.

Sob diferentes bandeiras, ora alegando pertencimento, ligação histórica, raízes culturais ou motivos outros, povos foram e continuam sendo massacrados, estrangeiros sofrem abusos, governos ao redor do mundo impõem políticas severas contra imigrantes – notadamente os EUA e regimes do antigo Leste Europeu. Partidos e “ligas” florescem e crescem em regiões outrora vítimas desse tipo de política claramente racista. Basta citar aqui países como Itália e Alemanha e todo mundo saberá identificar tais fenômenos.

O não ser de “nenhum lugar” não quer dizer que ninguém tem ou deixe de ter ligações, afeto, deixe de se sentir nascido ou enraizado no espaço que escolheu ou foi escolhido pelos familiares quando nasceu. A discussão passa por questões mais complexas e de maior amplitude: tem a ver com o que nos faz seres humanos perambulando sobre a Terra.

Nesse sentido, o que nos faria não “pertencer” a uma terra qualquer seria nossa condição humana, que pátria, cidade ou cultura alguma nos apartaria. Ou seja, todos somos cidadãos e cidadãs “de um mundo só”. Podemos nascer, crescer, viver, morar, construir história, ligações, criar filhos, fazer riqueza, produzir e criar raízes onde escolhermos, mas sempre seremos – no dizer dos índios norte-americanos – “filhos da Terra”. Não à toa existe a expressão “Mãe-Terra”, consagrada no universo ambientalista e conservacionista.

Voltando ao fio dos Titãs e do Neil Gaiman, pode ser que despertemos para essa consciência mais universalista quando, de fato, compreendermos a transitoriedade de cada vida humana. Ou, ainda, quando entendermos que o processo de pertencimento é, como tudo o que existe na natureza (os demais seres vivos), o que nos faz viventes em diferentes espaços que se interconectam.

É bem provável que muita gente tome um susto no dia em que descobrir que não existe um lugar de onde é ou para onde vai ou veio, mas um único lugar chamado Planeta Terra. Com todas as pequenas diferenças que nos caracterizam como figuras humanas, mas não nos fazem “de um único lugar” ou dos nossos “lugares imaginários”.

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