A oitava vida do ‘Pérola Negra’ da MPB

Algumas pessoas existem somente uma vez na vida. Outras, vão e voltam sem parar. Tem gente que nunca saiu daqui, mesmo tendo ultrapassado o limite imaginário da sua oitava vida. O último caso resume a existência de Luiz Melodia, o Pérola Negra da MPB.

Também apelidado de Negro Gato, nascido e criado no morro de São Carlos, no bairro carioca do Estácio, ele deu seu último suspiro, antes de pular para a eternidade, há exatos quatro anos. Foi como se tivesse usado a sua última vida felina e virado um pôster desses que estampam camisetas e se espalham entre os fãs como forma de perenização. Tinha uma magia inegável.

Muito antes desse seu salto magistral, tive a chance de ver Melodia soltar o corpo e a voz em 2009, em um parque público, na cidade de Guarulhos, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Heliópolis – integrada em sua maioria por crianças da comunidade de mesmo nome, na periferia paulistana.

Difícil organizar mentalmente sua discografia ou o que marcou sua carreira, mas o ano de 1973 foi realmente um começo que nunca teve fim na vida dele. Foi quando gravou o LP que lhe tascaria o apelido de Pérola Negra, carregado até as cinzas. O fraseado da canção-símbolo da sua vida continha simplicidade e magia, ao mesmo tempo: “Tente passar pelo que estou passando”. Ou, noutro ponto, “Tente esquecer em que ano estamos”. Por fim, seu jogo de palavras que deixava a entender a dubiedade do amor: “Baby, te amo, e nem sei se te amo“.

Melodia tinha seu nome grudado ao som, que conheceu desde pequeno com pai – que era músico-, e de quem herdou o sobrenome artístico. Suas passagens poéticas, como essa que era obrigado a repetir indefinidamente em todos os shows, cobria de enigmas sua pele de “Ébano”, outro grande sucesso da sua carreira. Uma profícua fase de criação, que coincidiu com sua facilidade de gerar sons, frases melódicas que pegavam e garantiram seu nome em dezenas de novelas de sucesso na TV Globo e nos principais momentos da canção negra brasileira.

Seu balanço era único, como se fosse coisa de quem nasceu gingando entre o samba, o jazz, o blues, o soul, o rock e tudo o mais que cabe no rótulo MPB. Era ator, fazia de conta que se esforçava para cantar onde quer que fosse chamado. O corpo dele sempre parecia emitir sons, a tal ponto de dançar como na sua música – Magrelinha, refletindo seu estilo de negro magro e elegante no andar.

Luiz Melodia lançou 16 álbuns, entre 1973 e 2014, e participou de 17 trilhas sonoras que embalaram novelas e filmes. Fez shows internacionais, como em 1987, quando se apresentou em Chateauvallon, na França e em Berna, Suíça. Depois, em 1992, esteve no “III festival de Música de Folcalquier” na França. Em 2004, subiu ao palco do Festival de Jazz de Montreux (Suíça).

Não importava o lugar, lá estava ele com sua Juventude Transviada – canção da geração MPB de 1975 – e tantas criações. Musicou e se travestiu de Manoel de Barros, o poeta das coisas simples, ao dar vida à composição poética manoelina Retrato do artista quando coisa, em 2001.

Partiu do palco para a oitava vida para nunca mais ser incomodado por ninguém. Para não ser esquecido. Para deixar seus arranhões na pele do tamborim. E para ser eternamente uma criatura que não deixou substituto no universo que acolheu como seu. Seu som virou mármore em agosto de 2017. Sua voz quebrou as barreiras do racismo que ronda a pele negra nacional por onde circula. O documentário Todas as melodias, dirigido por Marco Abujamra, recuperou a potência musical da sua voz que nunca se calou (reportagem destaca o filme aqui).

O músico Pedro Luís recriou universo dele, em agosto de 2021, acompanhado pela Orquestra de Câmara do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Veja abaixo a homenagem que fez Melodia cantar de novo.

. E Melodia foi lá porque sabe que não precisa voltar, pois nunca saiu daqui.

O clássico Pérola Negra, por ele mesmo, pode ser revisto clicando abaixo.

8 comentários sobre “A oitava vida do ‘Pérola Negra’ da MPB

  1. A cultura musical nos faz crescer sobremaneira , nos transforma nos faz viajar
    Imaginar e dar um sentido diferente e intenso as nossas vidas .
    Valorizar aqueles que contribuíram e contribuem para que nossas vidas tenham cor é algo sublime .
    Parabéns Djair .

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