Com pitadas de realismo fantástico, obra de Socorro Acioli remete ao mundo de Garcia Márquez, mostrando em um universo bem brasileiro personagens que parecem saídos da lendária cidade do clã Buendía

Por mais que você busque e tente identificar referências a outras obras brasileiras, o livro A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli (Companhia das Letras), trouxe ao meu imaginário, em quase toda a narrativa, a lendária cidade de Macondo. O sofrimento, as dores dos personagens, seus encontros e desencontros, o ir e vir e os inúmeros acontecimentos mirabolantes não poderiam acontecer fora do submundo do realismo fantástico. A cidade de Candeia, onde a trama se concentra, me parece outra Macondo. Socorro faz essa mágica diante dos nossos olhos. E funciona muito bem, a começar por características dos que vivem naquele universo, no interior do Ceará.

O personagem Samuel, por exemplo, lida com incontáveis pedidos de mulheres pelas bênçãos do santo casamenteiro – e estes passam a atormentá-lo dentro da cabeça oca de Santo Antônio. A autora faz questão de mostrar o protagonista como uma figura confusa depois que este descobre o estranho dom de “ouvir preces de mulheres” – justo na cabeça do santo. Em Macondo, José Arcadio tem uma mente pra lá de fértil, embora sua sagacidade seja a de um líder que sonha alto e vive muito além do seu tempo. Samuel, o despossuído, sequer tem sonhos, mas a descoberta dos seus “poderes” abre fronteiras que ele sequer imaginava existirem. É aí que parte da magia acontece: quando ambos viram seres além da imaginação, cada um a seu modo.

Outro aspecto curioso é que Socorro Acioli faz do garoto Francisco, primeiro amigo de Samuel dentro da cabeça do santo, uma criatura que lembra, ainda que bem de longe, o cigano Melquíades, que levava a Macondo as últimas novidades do mundo. Na caso da narrativa que se passa em Candeia, Francisco leva as boas-novas ditadas pelo homem que tinha o poder de ouvir as preces das mulheres cujo desejo era arrumar casamento e tinham no santo sua última instância. Melquíades fazia negócios com o ingênuo e inventivo líder da família Buendía. Francisco faz o mesmo com pessoas humildes, só que enganando meio mundo de miseráveis. Melquíades tem uma certa ética, ao perceber que José Arcadio ultrapassa todos os limites da loucura e da imaginação, e que isso pode levar a família Buendía à fome.

A busca das mulheres pelo matrimônio, no romance de Socorro Acioli, remete a um tempo e a uma realidade que não encontram paralelo em sociedades “avançadas” ou com direitos consolidados. São o eco de um tempo. A avó de Samuel, figura estranha e com poderes supostamente sobrenaturais, ensaia comportamento de bruxas milenares, que a literatura não precisa explicar o que levou a autora a lançar mão desse recurso. Ele existe para ampliar o poder mágico da narrativa. Não faria sentido explicar algo que não cabe numa trama. E que, de certo modo, a desvirtuaria.

Já o prefeito corrupto e desleixado com a realidade local – que vive em outra cidade “porque Candeia é amaldiçoada e sem futuro”, esse sim, sempre existiu no imaginário politico popular, e tem um quê de atual na história. Completa a lista de figuras soturnas e malandras um radialista que vê a oportunidade de ganhar dinheiro com os poderes mágicos de Samuel e as astúcias de Francisco. O vigário local também é parte desse microcosmo que assiste e participa de tudo, mesmo que o senso contrarie os mandamentos. Desde que entre dinheiro para a paróquia.

Candeia, por sua vez, tinha tudo para não servir para nada além de uma terra desgraçada, pobre e inútil. Com a chegada de Samuel e a descoberta dos seus poderes mágicos, tudo muda e ressurge como uma nova cidade, com tudo o que o consumismo pode ter. Com coisas boas e desvios. A referência, no caso, não cabe no universo de Gabo em Macondo, que permanece no atraso por todo o sempre, embora Candeia seja vítima da própria prosperidade, como era de se esperar de uma terra que havia morrido e volta do nada – e passa a atrair toda sorte de aventureiros e trapaceiros.

Influência direta de Gabo

Esse tipo de narrativa tem a influência direta do estilo do escritor colombiano, já que o romance, segundo a autora, foi bolado no formato inicial de um conto, durante um curso ministrado por Garcia Márquez (o Gabo), em Cuba, no longíquo ano de 2006, e que anos depois ganhou sua forma atual.

Candeia é um pouco disso tudo, de outros modos, com outras pessoas, outra realidade. Já Macondo, o mundo que dá base ao romance Cem Anos de Solidão, de Garcia Márquez, é um território fantástico onde se desenrola uma longa trama familiar. O local foi fundado num numa mata praticamente inacessível à dita civilização, no meio do nada, por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán.

Personagens aparentemente laterais da história de Socorro Acioli trazem lendas africanas, vozes de outros mundos distantes de Candeia e conecta isso tudo a um pequeno pedaço de terra no interior do estado do Ceará. De certa maneira, é uma demonstração da autora de competência narrativa colhida na fonte de um dos maiores romancistas do século XX.

Como conheci o livro

Desde que me falaram a primeira vez desse livro de Socorro Acioli, adiei sua leitura por estar com uma fileira de livros bem atrasada, e a obra àquela altura sequer fazia parte das que pegaram a senha. Por obra do acaso, acabei topando com ele numa livraria em que fui participar do lançamento de outro livro. Comprei, comecei a folhear ainda numa cafeteria ali perto e veio a loucura: terminei em menos de uma semana. Isso porque segurei a leitura para sorver melhor a história.

Foi um livro que me prendeu do começo ao fim. Não precisei ir e voltar, como foi o caso da leitura complexa e demorada de Cem Anos de Solidão, do Gabo, que quase todo leitor ou leitora já confessou ter sido obrigado a ler e reler diversos trechos para não perder o fio e entender a longa trama da família Buendía nas terras de Macondo.

Por que recomendo a leitura

É uma leitura que recomendo por essas e outras referências. No mais, Socorro Acioli provou que domina o poder narrativo de forma a envolver leitores e leitoras, fazendo rir, emocionando e cutucando velhos preceitos e preconceitos acerca dos pequenos universos Brasil afora. É uma delícia de leitura para todos os que gostam de algo realmente bem brasileiro, mas com pitadas de outros grandes romances.

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