Um filme que mexe com memórias afetivas dos anos 1980, mas que deixa a desejar pela forma como o personagem principal foi apresentado, com lacunas em transições de épocas e outras coisas bem estranhas
A versão 2026 de Mestres do Universo, que conta a saga do personagem He-Man, sugere que os produtores, direção e roteiristas parecem ter aprendido pouco com o live-action lançado em 1987 – um fracasso retumbante de público e de crítica. Pelo menos duas coisas no roteiro deixam o filme atual meio insosso e aparentemente sem rumo: o He-Man é excessivamente trapalhão e a história se perde focando muito na vida dele na Terra, quando os espectadores esperavam mais aventuras do herói no reino de Etérnia. Ficaram muito vagas as transições entre a vida do garotinho (príncipe Adam) e o jovem nerd (Adam), funcionário do RH de uma empresa qualquer nos Estados Unidos de 2026.

He-Man e sua turma do desenho animado/Reprodução
ESTRANHEZAS – A primeira das várias esquisitices do filme, bancado pelos estúdios associados Mattel/Escape Artists, é tentar um infrutífero “diálogo” com o público da chamada Geração Z, ao apresentar o jovem Adam (futuro He-Man) como um cara sem noção de nada. O único objetivo dele é encontrar uma espada que perdeu quando veio de outro mundo, ao mesmo tempo em que ele sequer sabe para que serve tal objeto, concretamente.
Resumidamente, a estranheza toma conta dos espectadores quando, ao final dos primeiros minutos do filme, Adam – então um garoto de 10 anos – é lançado num túnel do tempo pela Feiticeira e reaparece como um cara de 25 anos, perdido num emprego meio fracassado, dividindo um apartamento com um amigo. Detalhe: ninguém desconfia que Adam é órfão ou não e sequer se sabe da história dele, que sempre levam na piada, quando diz ter vindo de outro mundo e caiu numa cidade norte-americana qualquer.
Ficam muitas lacunas na transição entre o garotinho que veio de Etérnia e a maneira como ele vive na Terra. Seu comportamento também é estranho, inclusive quando jogam o rapaz de volta para o Reino onde nasceu e ele aparece lá vestido como um cara de escritório de 2026. Nada que convença o espectador de que aquilo vai dar certo. E ninguém por lá, obviamente, acredita que ele seja príncipe de coisa alguma. E nem se questiona como veio parar ali e o que veio fazer.
Ainda teve outro problema na configuração do personagem: Adam é tão bobo e sem ideia de quem foi ou de quem é que sua memória é péssima. Quando está diante das figuras do seu passado em Etérnia, o futuro herói praticamente não se lembra direito de ninguém, mistura nomes, confunde tudo e mal tem forças para segurar a Espada do Poder – seu grande trunfo que o tornará He-Man outra vez (lá na frente).
Na prática, o filme mostra um personagem meio “humilhado” – pelo menos se o parâmetro for o He-Man dos desenhos animados que fizeram sucesso no Brasil entre os anos de 1984 e 2021, quando foram exibidos centenas de episódios da franquia em desenho animado, fizeram filme (o de 1987), bonecos, games, lançaram revista em quadrinhos e exploraram ao máximo seu potencial comercial.
LADO BOM – Por outro lado, o filme consegue desativar memórias afetivas do público – que assistiu à série desde os anos 1980 no Brasil -, arranca aplausos da plateia e mostra excelentes atuações de alguns dos vilões mais conhecidos da história, principalmente o Esqueleto.
Outra coisa coisa foi a dublagem brasileira, que teve a excelente performance de Luis Carlos Percy na voz do Esqueleto, cuja tarefa foi substituir a clássica voz do saudoso Isaac Bardavi. Percy deu conta do recado e mexeu com o público ao reproduzir um tom de voz muito próximo daquele que caracterizou o principal vilão do filme. Suas gargalhadas, sua maneira sem escrúpulos de tratar os capangas e suas gags mais tradicionais estão todas na voz de Persy.
A película melhora um pouco quando, finalmente, Adam recobra a memória e descobre que ele tem o poder da espada mágica que tanto procurou desde a infância, ao voltar para Etérnia, libertar seu mundo, seus amigos e seus pais.
É um filme que vale a pena a ver por conta de memórias afetivas. Todavia, poderia ser melhor se os produtores tivessem se concentrado na vida em Etérnia. He-Man e a Terra parecem não combinar muito, apesar do esforço que fizeram para fisgar a Geração Z neste remake.
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