Um privilégio conversar com um cidadão que tira lições de sobrevivência em SP e faz da leitura seu porto para superar as agruras de não ter onde morar na ‘capital da riqueza’. Horas de aprendizado real
“Sou filho de um trabalhador da indústria gráfica e isso me trouxe o amor pelos livros”.

Antônio Barbosa, pernambucano, morador em situação de rua de SP
Uma figura misteriosa
Eu o avistei de longe algumas vezes sob a luz forte que clareia a área de acesso ao elevador do Terminal Bandeira, gigante de concreto e ferro localizado na região central da capital paulista – de onde partem dezenas de linhas de coletivos para os mais variados bairros paulistanos. Desta vez, trocamos um olhar e decidi abordar o sujeito barbudo, com ares místicos para o imaginário de quem passa e logo o associa a personagens de sagas do cinema e da literatura.
Não foi surpresa sua generosidade para iniciarmos uma conversa amistosa, que logo se perdeu ente memórias de migrantes, livros, leituras, literatura, o mundo das redes e celulares e outras pequenas coisas de grande valor para quem vive como ele.
Estou falando do cidadão da foto acima, o pernambucano Antônio Barbosa, olhos fundos, pele clara e firme, ressecada pelo frio e pelo calor, do alto dos seus 64 anos, desde algum tempo vivendo em situação de rua na selva paulistana. Barbosa é desses sujeitos que perderam praticamente tudo na vida material, e atualmente sobrevive entre passagens noturnas pelos abrigos da Prefeitura de São Paulo e as pequenas doações de pessoas que conhece. E isso não é o que chama a atenção nesse senhor, mas seu hábito de leitura, que virou minha atração para puxar a conversa casual.
Sede de aprender e de viver
Após a apresentação inicial, Barbosa disse que gostava de ler naquele local por conta da iluminação. “Não tem lugar melhor para ler do que aqui”, disse, sem querer mostrar de imediato qual era a obra que prendia sua atenção naquele momento. E a primeira pergunta veio de imediato: como nasceu sua atração pelos livros? “Do meu pai, de casa. Ele trabalhava em gráfica e eu também sou gráfico de profissão. Não tem como não gostar de livros”, respondeu.
Sua sede de aprender contrasta com a condição em que vive na maior metrópole da América do Sul. Com uma pequena sacola onde carrega roupas, outros pertences e alguns livros, ele se desloca entre equipamentos de assistência social da Prefeitura de São Paulo – onde pernoita e toma banho e café – e as ruas da cidade. Vive a angústia de não ter onde morar. “Tenho sede de ler e de aprender”, reforça.
Leitor de Malcom X e Fanon
Enquanto trocamos impressões sobre a dureza das ruas de SP, Antônio mostra sua leitura do momento: o livro “Os condenados da Terra”, do filósofo decolonial Frantz Fanon, ativista conhecido por suas teses sobre psicopatologia da colonização. “Quando li a biografia do Macolm X, vi que ele leu Frantz Fanon. Então resolvi ver como era a literatura desse cara. Estou gostando muito”, resumiu.
Aprender com quem tem pouco
A lição mais preciosa desse encontro foi perceber o quanto podemos aprender quando nos despimos de preconceitos em relação a pessoas que resistimos a manter alguma proximidade, em particular aqueles que perambulam pelas ruas e avenidas das grandes cidades brasileiras. Nunca aprenderia tantas coisas novas e interessantes se não tivesse tido o privilégio de cruzar o caminho de alguém como Barbosa. Suas impressões sobre a vida, a simplicidade no olhar, nos gestos e a bondade no seu coração estão ali expostas. Ele vivendo no limite da indignidade humana.
O que a simplicidade nos ensina
Ao final da conversa, eu e Antônio nos abraçamos, nos cumprimentamos e dei de presente a ele uma pequena lembrança de escritor para leitor: um exemplar de um dos meus três livros de literatura infantil – que ele naturalmente reconheceu da versão dos Irmãos Grimm. Fizemos uma foto juntos. Combinei de trazer outros livros para ele quando tiver uma nova oportunidade de encontrá-lo em algum lugar da cidade.
Esse é o tipo de acontecimento casual que nos aquece o coração e nos faz pensar que a simplicidade e a bondade podem estar em qualquer lugar, principalmente quando menos esperamos. Registro aqui o meu agradecimento a essa criatura tão simples quanto verdadeira nos seus gestos de leitor, de ser humano e de pessoa digna.





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