De quem é o lixo do mundo?

As questões ambientais estão na ordem do dia internacional, pois envolvem um conjunto de interesses, problemas e buscas por soluções que ultrapassam fronteiras – e algumas parecem longe de serem sequer amenizadas. O centro dessas polêmicas é a destinação do lixo, somada a tratamento dos mares, rios, florestas e áreas de conservação ambiental. Com tantos fios, a intenção aqui é restringir a discussão ao problema do lixo.

De fato, se fôssemos adentrar a questões nas quais o Brasil é protagonista – no mau sentido – teríamos espaço para falar de desmatamento, maiores perdas mundiais de cobertura vegetal em florestas tropicais, queimadas de biomas como o Pantanal e a Amazônia, diminuição do que nos resta de Mata Atlântica, a febre dos garimpos até em terras indígenas e o tráfico internacional de madeira ilegal, dentre tantos. A questão ambiental brasileira ainda será contada a partir destes últimos anos, quando houve um afrouxamento das regras de conservação ambiental no país., mas isso não será explorado aqui, desta vez. Voltemos ao lixo.

O primeiro ponto: para onde vai o lixo produzido pelos países ricos? O Japão, país altamente industrializado e segundo maior produto mundial de plástico do mundo – atrás apenas dos EUA -, está no meio de uma discussão mundial pela forma como trata a destinação do lixo plástico fora das suas fronteiras. Sim, o governo japonês “exporta” pelo menos 10% dessa categoria do lixo para países pobres. O tema está em alta por conta da tumultuada Olimpíada deste ano, sediada naquele país. O portal UOL trouxe uma extensa reportagem sobre o tema (veja aqui).

O problema do lixo enviado a regiões carentes não é exclusividade do Japão. Basta lembrar que o Canadá e os EUA estiveram por trás de uma polêmica, em 2019, por conta do envio de lixo plástico a pelos menos dois países do sudeste asiático – Filipinas e Camboja. O enrosco foi tema de diversas reportagens na imprensa e em publicações especializadas (confira aqui e aqui). A lista de países flagrados com essa prática é bem maior.

Em geral, o destino de diversos tipos de lixo são regiões mais pobres do mundo, notadamente países africanos e do sudeste asiático. O Jornal Nacional, da Rede Globo, trouxe uma extensa reportagem que mostrou, já em 2015, que empresas sediadas nos EUA “exportavam” parte do seu lixo eletrônico até para o Brasil, inclusive com componentes analisados como produtos tóxicos. A reportagem pode ser vista clicando aqui.

O tratamento dado pelos países ricos aos detritos, principalmente o lixo plástico, foi abordado pela BBC Brasil, que mostrou a revolta de diversos países do sudeste asiático que estariam sendo tratados como “depósito” de lixo de países como Japão, Espanha, EUA, Canadá, Inglaterra, Austrália, Arábia Saudita e até Bangladesh. A reportagem mostrada pelo canal inglês (acesse aqui) expôs um problema de ordem internacional.

PLÁSTICO E OUTROS LIXOS NOS OCEANOS – Não fosse esse um problema grave, surgiram e seguem surgindo novas denúncias e trabalhos de acompanhamento desse comportamento feitos por ambientalistas e organizações que atuam na defesa dos biomas ao redor do mundo. O documentário Seaspiracy – Mar Vermelho, do cineasta Ali Tabrizi (Netflix, 2021), vai além do lixo, do plástico e de outros problemas, envolvendo principalmente o Japão.

Ele investigava o plástico jogado nos oceanos e se deparou com uma rede de corrupção e interferências de agentes do governo japonês na matança de baleias e de outras espécies de peixes, ao lado de descarte de produtos inservíveis nos oceanos. Como no ditado “a cada enxadada, uma minhoca”, Tabrizi flagrou um complexo sistema de trapaças envolvendo o problema da poluição marinha em diversos lugares do mundo. Vale a pena conferir.

Em suma, se formos mexer com todas as teias envolvendo somente a destinação final do lixo, teremos uma cadeia de interesses que não deixa quase nenhum governo e diversas corporações mundo afora enroladas. Afinal, ninguém quer assumir que esse ponto é um pedaço dos problemas ambientais, enquanto todo mundo está focado na discussão sobre carbono lançado na atmosfera e outros temas no bojo da discussão das mudanças climáticas. Haja fôlego para tanta discussão e problema – e aqui se reforça a importância dessa temática como a mais atual de todas.

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