A Educação no quebra-cabeças da pandemia

O Brasil atravessa a pandemia como se estivesse preso – numa versão piorada – à falha temporal explorada no clássico filme Feitiço do Tempo (1993), estrelado por Bill Murray e Andie MacDowell: as coisas parecem se repetir indefinidamente. Ninguém arrisca uma previsão de como e quando haverá alguma ‘normalidade’ no cotidiano por aqui, embora todo o mundo sofra, em menor ou em grau semelhante, as consequências das diferentes maneiras de enfrentamento desleixado da maior tragédia sanitária de todos os tempos.

No intrincado quebra-cabeças pandêmico nacional, a ser montado não se sabe ainda quando, as peças se misturam: cenas de desemprego, crescimento da fome e da miséria, aumento dos casos de orfandade, desestruturação familiar, quebra de empresas, empobrecimento das camadas mais vulneráveis, luto em larga escala, questões de ordem psicossocial e reflexos diretos nos sistemas educacional e de saúde – só para ficarmos nos mais dramáticos e prementes.

Seguramente, um dos mais complexos novelos destes tempos envolve o processo educacional brasileiro, perdido entre o esvaziamento de políticas para o setor, discussões aleatórias, perdas acadêmicas com morte de grande número de docentes e sua interação com problemas citados anteriormente, em particular no seio das famílias. Nesse bojo, surgiram correntes discutindo o que se chama vulgarmente de “ensino domiciliar” (homeschooling, em inglês).

De fato, uma das emergências que a pandemia forçou foi o transplante das salas de aula para as casas de todo mundo, num primeiro momento, mesclando o caótico ambiente de trabalho caseiro (home office) dos pais e mães a telas de computadores e tablets e tudo o que ocorre dentro de cada lar. Ou seja, um caos obrigatório e inesperado. Detalhe: num país com 47 milhões de estudantes na Educação Básica, dos quais 4,3 milhões sequer possuem acesso à internet.

Foi nesse ambiente que grupos diversos começaram a propor – e a realizar gestões junto ao governo federal – pela implantação, em definitivo, da modalidade de ensino em casa. A questão é que esse e outros projetos similares brigam com os dados e a realidade.

A proposta “mágica” dos defensores desse modelo educacional seria ampliar o número de crianças sendo “educadas em casa”. Calcula-se que hoje o país tenha cerca de 15 mil estudantes na dita “educação caseira”. E de que forma? Simplesmente regulamentando o ensino a cargo de pais e mães (as mães, em sua maioria, diga-se de passagem), abrindo canais e plataformas digitais ou investindo nas já existentes e que propagam esse ensino.

Como acontece com toda ideia que surge prometendo resolver questões complexas – num ambiente ainda mais turvo como esse da pandemia sem fim brasileira -, o pomposo homeschooling à moda local parece desconsiderar questões centrais e até passar por cima de possíveis ‘dogmas’ religiosos que podem advir de sua ampliação. Podemos citar: o currículo, o compromisso, a disponibilidade dos pais, a adequação do ambiente familiar, os métodos de ensino e o risco de interferência excessiva dos “pais-professores” no que os filhos devem ou não aprender – já que estão em casa “e nós mandamos”.

Tirando o chiste e os riscos potenciais, não é uma questão a ser resolvida via canetadas e nem pela mera aprovação de projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional. Trata-se, de forma objetiva, do modelo de Educação que se pretende para o país, que patina entre índices baixos de aprendizagem nos testes internacionais, infraestrutura das escolas públicas em estado crítico na maioria das regiões, baixos salários dos docentes, falta de incentivos à carreira e uma infinidade de questões até agravadas com a pandemia.

No limite, a ampliação do processo de aprendizagem nas residências pode acrescentar problemas na formação laica e mais ligada às teses científicas, visto que muitos pais podem decidir promover ‘intervenções curriculares’, privando os filhos de autores, conteúdos ou estudos que venham a considerar “inadequados”, seja por questões religiosas ou mesmo ideológicas – e aí entra o componente danoso da excessiva politização e/ou partidarização de uma questão que é política, mas que perpassa os ambientes partidários. Ou pelo menos deveria.

Se vier a se estabelecer como uma forma adicional de apoio e de formação, certamente será um mecanismo de incentivo, mas dificilmente substituirá os modelos – mesmo no auge dos acontecimentos durante a pandemia – que combinaram o sistema híbrido, com momentos de presença de poucos alunos nas escolas e a maioria em casa, nas aulas via plataformas digitais.

Não estamos certos ainda do fim da pandemia e como sairemos dessa, que dirá já pensar em mudar tudo e tentar fazer testes e suposições com o futuro das crianças e da Educação. E ainda temos todos os problemas gerais da pandemia por resolver. Veremos!

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