Leminski e Manoel de Barros nas bordas da Via-Láctea

Soube outro dia, por um interlocutor imaginário, que Paulo Leminski e Manoel de Barros foram vistos recentemente sentados num ponto qualquer nas bordas da Via-Láctea. Riram muito do tempo que perderam divertindo gente pelas terras perdidas da galáxia, enquanto dividiam um bule de café com leite quentinho.

Ambos sempre souberam que nunca existiu tempo, espaço, curvatura, desvio, buraco negro, estrela ou sistema planetário que os abrigasse. Não eram de uma era, de uma cidade ou de um país. Nem sabiam o que seria isso, pois não levavam lugares a sério, quanto menos poesia.

Nasceram irmãos-siameses, grudados por cordas vocais, suspiros de pássaros, cores chumbo-violeta. Sempre moraram na mesma casa, com os mesmos pais e irmãos que iam e vinham. Tomavam chá, cheiravam ar fresco, sumiam quando queriam e voltavam quando ninguém esperava.

Leminski colhia pétalas caídas no quintal, que eram pintadas por Manoel. O moleque pantaneiro enfeitava gafanhotos, pulgas, formigas, aranhas e fazia questão de aparar asas de morcegos. O bigodudo, curitibano de ocasião, não se fazia de rogado: cuspia no prato cheio de gosmas juntadas por Manoel e ambos espalhavam o colorido pelas paredes do infinito.

Sim, aquele encontro deles, mantido em segredo até pouco tempo, sempre aconteceu, ao cair das tardes, ao início dos dias, ao esfriar das madrugadas, com nuvens de poeira vindas dos desertos do que um dia foi a Terra.

As estrelas, incontáveis bilhões delas, eram pescadas com a vara de condão trazida por Manoel no bolso da calça, e de cujo desaparecimento os pais dele deram conta muito cedo, mas deixaram passar por saberem que o menino não seria grande coisa na vida além de contador de insetos. Leminski não sabia o que fazer para conter o impulso por palavras contidas em megatons de cores. Quase todas apareciam diante das lentes largas do óculos-sol que ele ostentava em ambientes como aquele fim de espaço.

Quem imaginaria que os dois poetas haveriam de escolher as bordas da Via-Láctea para tecer poemas, ruminar comentários, desdizer palavras, comer frutos colhidos ali no quintal sideral ou simplesmente ficar balançando as pernas num cantinho. O lugar era tão alto para quem olhasse daqui de baixo que assustaria os mais medrosos.

O café com leite desfrutado por eles todos os dias, todas as noites, era hábito antigo entre os poetas. As pessoas ingênuas ou sem informação é que não sabiam da existência do único “espaço” que reconheciam – e que era ponto de encontro de várias gerações de poetas.

Leminski só queria saber de entortar palavras. Manoel adorava mudar o som dos grilos e a cor das borboletas. Sempre riam a cada peraltice que um mostrava ao outro. Sabiam que tinham todo o tempo do mundo imaginário para fazer isso, não o tempo da Terra, pois nunca perderam tempo de viver por aqui. No máximo, mandaram emissários disfarçados.

De sorte que os livros, letras, poemas, brincadeiras, troças, montagens, diagramas, haicais, proposições, suposições, engenhocas sem pernas, mosquitos, casas assombradas e mentes insanas que contiveram seus nomes, por essas bandas, nunca foram obras deles. Nunca assumiriam tamanha grosseria e falta de criatividade.

Eles sempre fizeram o que faziam naquele dia em que foram vistos nas bordas da Via-Láctea: tomar café com leite e rir dos insensatos.

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