O jazz e outras vertentes da música negra em confronto com o poder autoritário

É consenso entre estudiosos da música negra – e a história está recheada de exemplos – que os embates entre o poder autoritário, o jazz e diversas vertentes musicais de matriz africana forjaram uma potência musical que não caberia no que os donos do dinheiro projetaram como sendo o “bom gosto” ou o “palatável”.

São biografias, estudos, reportagens, documentos e produções de cinema que desnudam a luta encarniçada do ‘sistema’ para varrer do mapa – ou manter no submundo – o que chegou a considerar ‘degeneração’.

Sim, a parada dessas contendas é tão antiga quanto os sons marcantes, o rebolado e a estética que cruzaram o caminho do jazz, do blues, do samba e de tantos outros estilos, ritmos musicais e/ou danças de povos oriundos do circuito não branco.

A rigor, se dependêssemos dos escravocratas e dos seus sucessores no poder, ninguém dançaria como se aprendeu a dançar ou cantar entre nós, nos extremos do Norte e do Sul da América e se esparramou pelo mundo. E nem teríamos conhecido Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Nina Simone, Miles Davis, Billie Holiday, Nelson Sargento, Pixinguinha, Donga, Cartola, Jovelina Pérola Negra, Bezerra da Silva, Dona Ivone Lara e uma infinidade de personagens da história musical de DNA negro.

As citações a nomes, no caso, tornam a análise por demais difusa, visto que são tantos os atores que o risco de cometer injustiças é muito grande, a despeito de esses representarem o espectro de um tema quase infinito em matéria de estudo e história.

Tomemos como exemplo acabado o jazz e alguns dos seus nomes mais conhecidos mundialmente: Louis Armstrong teria sido morto muito cedo e jamais teria presenteado o mundo com seu trompete e sua voz. A regra mandava que ele acabasse como um menino desconhecido, cuja vida se encerraria “numa briga no reformatório” (aos 11 anos).

Billie Holiday teria visto sua carreira morrer cedo, nas mãos do FBI e do sistema persecutório norte-americano. O mesmo destino teria tido Nina Simone, alvo de devassas e perseguições judiciais e da Receita dos EUA, principalmente por suas posições ideológicas e críticas ao sistema racista.

As biografias e histórias dessas e de outras figuras centrais do jazz e do blues mostram detalhes do tratamento dispensado pelo poder àqueles que desafiaram as regras e romperam com o que lhes seria reservado, caso ficassem ‘quietinhos’ no seu lugar.

As sambistas e os sambistas brasileiros que o digam onde teriam ido parar, caso tivessem se curvado aos arroubos das ditaduras que marcaram nossa história – em parceria com o nosso passado e o pendor escravagista que até hoje nos consome.

Só para ilustrar o quanto a arte musical sempre assombrou o poder e as ditaduras desde sempre, o portal de mídia alemão Deutsche Welle Brasil publicou reportagem em que narra a perseguição nazista ao jazz – considerado pelo regime de extrema-direita de Hitler como um dos “estilos musicais degenerados”. Entravam no balaio de perseguições os compositores “negros e judeus”. Veja a matéria clicando aqui.

Quem se interessa por mais detalhes sobre o que muitos desses ícones enfrentaram no campo pessoal e nas suas carreiras, existem filmes, biografias e cinebiografias fartas. E milhões de documentos disponíveis em diversas plataformas na internet que podem ajudar os mais curiosos.

Sobre Armstrong, por exemplo, indico a leitura de Pops: A Vida de Louis Armstrong, do jornalista norte-americano Terry Teachout. E, mais recente, tratando das tretas da diva Billie Holiday com o sistema do seu país, a plataforma Amazon Prime disponibilizou Estados Unidos x Billie Holiday. Dentre outros “motivos” da perseguição sofrida por ela, destaque para a música antirracista Strange Fruit.

De Nina Simone, por meio do documentário What Happened, Miss Simone? (2015), lançado pela primeira vez na Netflix, soubemos na tela o inferno que a cantora e compositora sofreu por seu ativismo contra o racismo. A canção Mississipi Goddam (Maldito Mississipi) virou hino do movimento pelos direitos civis na década de 1960 nos EUA. Daí já se deduz como foi a vida dela, afora os perrengues pessoais e sofrimento por ser quem foi.

Quem não poderia ficar de fora desse carrossel de nomes e vidas atormentadas pelo poder persecutório do Estado e dos seus burocratas, dentre tantos brasileiros, foi o cantor e compositor dos morros cariocas Bezerra da Silva, pernambucano de nascimento e carioca por adoção.

Ele fez uma música de contestação dos crimes, do que se conhece como racismo estrutural, envolvendo o Judiciário, a Polícia e as “autoridades” em geral, sendo figura carimbada nas delegacias.

Sua música vinha de pessoas simples ou era feita em parceria com figuras que ninguém conhecia ou queria por perto. E refletia sobre a visão dos pobres das favelas do Rio, o que incomodava o poder, mas tinha público e apoio popular de sobra.

A fama e a simplicidade do “malandro que nunca fumou um bagulho” lhe renderam grossa perseguição. Em entrevista à revista Caros Amigos, Bezerra disse, certa vez, que chegava a entrar em viaturas da PM e era repreendido por isso. No que alegava: “Vão me prender mesmo”.

Aqui também cabem o RAP brasileiro, o que se firmou como funk e tantos e tantos outros balanços da contracultura e do universo não branco e não rico das nossas cidades e de várias partes do mundo.

Encerrando: a intenção era falar do jazz e do samba, mas uma coisa leva à outra e parece não ter fim o novelo dessas novelas todas.

Findo por aqui com a certeza de que o poder nunca controlará a Cultura porque é da sua natureza contestar. Pode até amordaçar, mas ela vencerá. Mais dia, menos dia. Com o sangue e a história de muitos e muitas.

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