Astúcia, valentia e força como elementos centrais do cordel

Capas de O Pavão Misterioso e A Chegada de Lampião no Inferno/Luzeiro

Toda cultura popular carrega elementos do fantástico, do exagero e dos absurdos. O processo de transformação de cada história contada de boca em boca – ou registrada por meios gráficos diversos – é infinito, criativo e recriador; se recicla, troca ambientes, situações, acrescenta, tira, introduz medo, tensão, troça e outras situações, inclusive inusitadas.

Como não escreverei um tratado sobre um tema esmiuçado por muita gente do meio acadêmico, a linha de exploração deste artigo se deterá em alguns elementos, em particular no que eu chamo de “absurdo” em suas manifestações mais comuns, como a mentira compulsiva, a valentia desmedida e a força descomunal dos personagens dos cordéis nordestinos. Falarei do ponto de vista de leitor voraz desses folhetos e admirador da inteligência dos seus principais criadores.

Na rica literatura de cordel de diversas regiões do Nordeste brasileiro, encontramos a astúcia – que é prima-irmã da mentira – como característica natural das figuras centrais dessas histórias. Todo mundo conhece criaturas do naipe de João Grilo, Pedro Malasartes e Cancão de Fogo, principalmente por meio das criações do paraibano Ariano Suassuna e demais escritores que incorporaram esses personagens em suas obras.

Força e violência compõem tramas dos cordelistas, como nas muitas aventuras e maldades de Lampião, o Rei do Cangaço, que teriam se popularizado a partir dos livretos batizados com o nome pelo qual os conhecemos por serem pendurados em barbantes nas feiras livres do nascente Brasil colônia.

Trapaceiros, geniais, mentirosos, ardilosos, inventivos e até cruéis ao extremo, eles são descritos nos cordéis como enganadores profissionais, e cujas manhas seriam uma forma de driblar as dificuldades naturais vividas pelos mais pobres no Brasil profundo do coronelismo, na República Velha. Seriam figuras cujo pendor pelo truque e pela troça sempre se realçava quando a coisa fica feia para elas. E, em certa medida, escondiam algum tipo de fragilidade que a esperteza ou a violência tentavam encobrir.

Só para exemplificar, existe um cordel em que o narrador coloca Cancão de Fogo – notório trambiqueiro – tentando passar a perna no também astuto Pedro Malasartes e, claro, a coisa não termina como imaginado, pois um enrola tanto o outro a ponto de ser necessária uma associação entre ambos para a sobrevivência mútua.

Antes de seguir com a prosa sobre algumas figuras clássicas do imaginário popular sertanejo, importante destacar que muitas dessas obras foram fruto da mente fértil de poetas que sequer sabiam ler ou escrever – vindo à tona pelo dom de manejar a palavra falada e pelo acúmulo de conhecimentos passados de geração em geração.

São muitos os nomes consagrados do cordel, mas é possível assegurar que Leandro Gomes de Barros, José Camelo de Melo Resende, Minelvino Francisco Silva, José Pacheco, Manoel D’Almeida Filho e João Ferreira de Lima ocupam lugar de destaque no panteão dos maiores produtores desse gênero literário no Brasil.

Pessoalmente, destaco três obras memoráveis do cordel: O Pavão Misterioso (do paraibano José Camelo de Melo Resende), A Chegada de Lampião no Inferno (do alagoano José Pacheco) e Vida e testamento de Cancão de Fogo (do também paraibano Leandro Gomes de Barros). O clássico desse universo é, sem dúvida, O Pavão Misterioso, que ganhou o mundo e outras formas de expressão artística pelo inusitado e pela capacidade engenhosa de seus personagens.

Detalhe: embora os criadores dos clássicos do cordel tenham origem no Nordeste, foi na cidade de São Paulo que se concentrou a edição e produção do gênero em escala. A Editora Luzeiro é até hoje o referencial para leitores de cordéis no Brasil.

Voltando ao mundo dos valentes, astuciosos e enganadores profissionais dessa modalidade literária, é possível encontrar variadas narrativas que se encaixam nos pontos aqui destacados. Em Tubiba, o Desordeiro, do sergipano Augusto Laurindo Alves, um sujeito é apresentado como “sangue ruim” desde o nascimento. Algo semelhante encontramos nos versos de Rufino, o Rei do Barulho – de Manoel D’Almeida Filho e tantos outros que abraçaram esse fio histórico dos “valentes” que não se rendiam a nada nem a ninguém.

Uma das prováveis inspirações do escritor Ariano Suassuna foi a obra do cordelista pernambucano João Ferreira de Lima, com destaque para o folheto Proezas de João Grilo, um ardiloso que levava todo mundo no bico e sempre se dava bem, mesmo que isso significasse ganhar meras migalhas para a sobrevivência.

Já José Pacheco descreveu a imaginária passagem de Lampião pelo inferno, lugar para onde o cangaceiro teria ido logo após a morte. Em A chegada de Lampião no inferno, Pacheco pinta o valentão dos sertões de modo tão destemido que faz “o inferno pegar fogo” – numa ironia dobrada ao que se imagina dominar a paisagem daquele lugar. A aventura dele por lá teria sido tão devastadora que, num trecho, o cordelista vaticina:

“Reclamava Lúcifer/Horror maior não precisa/Os anos ruins de safra/Agora mais esta pisa (surra)/Se não houver bom inverno/Tão cedo aqui no inferno/Ninguém compra uma camisa”.

O processo criativo dessas mentes poéticas sempre foi muito além do que se poderia pensar, com histórias dominadas por aspectos da bravura e destemor. Como em História de Juvenal e o Dragão, outra obra do profícuo Leandro Gomes de Barros: o jovem se aventura para salvar uma princesa das mãos de um dragão, entre traições, brigas e lutas encarniçadas. Figura do imaginário medieval, nascida da cabeça de um cidadão que nunca saiu do interior de Pombal, na Paraíba. O mesmo processo se aplica ao genial conto do Pavão Misterioso, cujo autor sequer era alfabetizado e jamais conheceu a Grécia, onde se passa a aventura do protagonista.

É importante frisar que essa emaranhado de características desses personagens carrega as tintas de um machismo arraigado na cultura patriarcal brasileira – e isso é tema de estudo de vários cientistas sociais e especialistas. Funcionava como mecanismo para justificar comportamentos brutos, tratamento servil da mulher, dominação dos ricos sobre os pobres e outros desvios.

A despeito do que já se estudou, se extraiu e se criticou nessas obras, sempre ficam fios soltos pelo caminho. As considerações aqui feitas são curtas pinceladas acerca de uma vasta e inesgotável modalidade de cultura popular que tem seu lugar no universo imaterial brasileiro e identifica uma região do país e parte dos seus moradores.

Quem tiver interesse em conhecer mais nuances desse estilo, indico um artigo do professor e pesquisador Márcio Alexandre Barbosa Lima, mestre em Sociologia pela Universidade de Campinas (Unicamp) e Doutorando pela UnB, no qual o autor explora a psicologia de vários personagens aqui citados de forma apurada e elegante. Clique no link a seguir e leia o texto A LITERATURA DE CORDEL E O USO DA MENTIRA.

Por se tratar de um acervo de décadas, penso em voltar ao tema em outro artigo para me deter mais em alguns dos cordéis que me fascinam até hoje – e me fazem reler essas histórias inúmeras vezes. E reencontrar esse universo intocado das figuras que arrancam risos a cada cacoete que os marca.

Sugiro outro link para quem gosta de cordel: a Universidade de São Paulo tem um repositório dessas obras que também pode interessar aos curiosos sobre o tema. Acesse aqui. Deixo também a página da Editora Luzeiro na internet para quem quiser adquirir os folhetos, alguns dos quais citados aqui.

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