Olhares sobre a decrepitude

Cena do filme O Retrato de Dorian Gray (2016) Reprodução

Não tenho a menor ideia de quando uma mulher perde a ilusão com o físico, mas sei que perdi a minha aos exatos 50 anos. Na verdade, dispensando a cretinice franqueada aos que vão passando dessa quadra da vida, comecei a construir essa noção ainda pequeno, acho que por volta dos 13 ou 14 anos. O problema não é o tempo em que isso apareceu, mas como e em que condições esse universo ganhou forma. Sei que ganhou outros contornos com o passar do tempo.

O meu despertar real para o mundo físico e suas agruras, naquele tempo, deu-se pelo contato com a morte e com a vida. Mais com a vida, precisamente. Já olhava com estranheza a decrepitude humana, com desconfiança, sem entender direito o que era aquilo. Era algo que ia e voltava, mas que o tempo sedimentou mentalmente para mostrar ao que realmente se referia.

O tema aqui tratado acerca do corpo não é propriamente o do viço físico. Nem o domínio do próprio corpo, da cabeça ou o que este provoca sobre as demais cabeças que a rodeiam e a querem, especialmente no que diz respeito ao que acontece com a mulher ao longo da sua existência até a descoberta do fim do ciclo natural.

No universo feminino, as formas, contornos, maravilhas, composições, comportadas, grandes, pequenas, divinas, concisas, das peles, negras, rosas, cores e conjuntos desassossegam o mundo masculino e deixam o feminino em pânico. São elas que garantem – ou não – o trânsito neste mundo de apelos visuais crescentes, das imagens, da instantaneidade, do descarte e da velocidade. Somos consumidores, produtos, produtores, consumimos e somos consumidos. Esta é a lei do olho por olho, flash por flash.

Como o amor eterno, a beleza por si é uma fraude que sobrevive ao tempo e a tudo o que a arte já produziu tentando provar o contrário.

Afinal, quem quer sair da zona de conforto que a representação da beleza proporciona?

A toda hora nossos olhos são chamados a ver uma, outra e mais outra coisa bela que desfila, aparece, é mostrada, mostra-se, cruza caminhos, contorna a rua e faz muita gente perder o fôlego. E colocar para fora seus instintos primitivos, sua cafajestice, falta de senso e de sensibilidade, como se o mundo fosse uma grande casa de prostituição a céu aberto, com todo mundo disponível numa interminável feira livre.

No fundo, sabemos que a nossa maior inveja é do personagem criado pela mente genial do Oscar Wilde. Todo mundo gostaria de ser um Dorian Gray, talvez não na essência, mas na coragem de querer o impossível e fazer com que isso acontecesse. E aguentar as consequências do que viria depois de um pacto que nos garantiria aparência com aspecto de eternidade. E morrer por isso. Quem toparia, senão uma criatura forjada na loucura criativa de um Wilde? Que pagou caro por isso, aliás.

Não queremos ser humanos e, muito menos, animais. Queremos ter de humano apenas aquilo que nos interessa. Fugimos do animal que somos. Por isso inventamos a consciência, a arte, o prazer, os nomes para as coisas e as diferenças entre nós e a natureza. E ser humano, na essência, é ser animal, mas isso seria demais para alguém perdido entre suas maravilhas físicas aceitar e compreender – mais aceitar do que entender.

Quem quer ser arrancado do seu mundo de excrescências, odores, dores, pequenez ou de vícios? Queremos todos ser fortes, viris, atraentes, donos do mundo e dos outros, das coisas e do tempo. Não temos nada disso, mas muitos de nós dispomos de tudo isso por algum tempo. E isso nos felicita. E é a chave da nossa infelicidade que escondemos em make-ups perfeitos.

As pessoas que nos aparecem e fazem parte da nossa vida nos falam muita coisa que sabemos, muito do que deveríamos saber e, ao invés de retrucar, poderíamos simplesmente baixar a cabeça da certeza e aceitar.

Vivemos o mundo entre o belo e o feio, entre o que existe hoje assim e amanhã será varrido para debaixo do tapete da realidade. Mas não é isso que angustia as massas. A realidade é mais forte do que toda a beleza até hoje dada, mantida e cultivada.

Por isso mesmo, disserto sobre essas coisas com assombroso, desassombro e ligeireza, pois desconfio que exista uma vela que acende dentro do fundo da alma. Toda vez que o tempo nos manda recados, claro, disfarçamos, mas o tempo não nos diz tanto quanto a realidade e, por isso, seguimos firmes, timidamente firmes. Sabemos disfarçar o que o tempo nos toma.

Somos criaturas colocadas no universo quase que pictórico da natureza morta humana. Buscamos a certeza de que o mundo – o nosso mundo, o universo, o terreno, o território por onde circulamos – tem cores, vibra e se alegra. Porque sabemos da fugacidade das coisas.

Sabemos da ingenuidade barata vendida a troco de banana. E vemos o pulsar de felicidade por sabermos disso e podermos compartilhar pensamentos que morrerão na próxima esquina da ilusão.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s