Um poeta, um manual de nordestinidades

O poeta paraibano Jessier Quirino durante apresentação – Foto: divulgação

A maneira como o poeta-arquiteto paraibano Jessier Quirino se apresenta há décadas demonstra que ele “não é besta”. Trata a si próprio como um “matuto por convicção”. Verso atrás de verso, sua poesia, seu estilo elegante de declamar e o carrossel de ‘nordestinidades’ que desenrola impressiona os que gostam da chamada ‘poesia matuta’ e conquista os que são apresentados a ela de imediato.

Jessier é produto de um caldo cultural forjado com saberes, sabores e as provas de quem viveu, cheirou e sentiu o aroma das coisas da terra brasileira – dos sertões, dos partidos de cana, dos interiores perdidos em poeiras, em carros quebrados, casas, taperas, sítios abandonados, gado morto na estrada e paisagens que ganham nomes e cores a cada pedaço de mundos perdidos e achados na memória do povo.

Ele retira esse sumo de conhecimentos e os transforma em loas divertidas e inteligentes. Ora são “causos” e histórias populares contadas, recontadas e que ganham nova roupagem. Noutros momentos, pura galhofa, em criações muito personalizadas pelas suas vivências. E com genuína preocupação com o linguajar caboclo, despido de temores quanto aos estereótipos que possam tentar impingir às formas de expressão locais.

Mas não pense que ele perde tempo com lances dignos de um Euclides da Cunha. Seus ‘sertões poéticos’ falam da safadeza política, do respeito, do passado, do presente, da religiosidade e das coisas que a tevê varreu para debaixo de um suposto tapete multicultural – no afã de ocultar facetas do homem simples brasileiro.

Jessier deve rir muito da formação acadêmica envernizada que insistem em mostrar muitos dos que torcem o nariz quando o assunto é cultura popular. Esses supostos intelectuais, encastelados em redações de jornais, em emissoras de tevês e revistas de cultura – bem como em órgãos públicos voltados para o fomento cultural – entendem tanto do assunto quanto os brasileiros em geral entendem de física quântica e de fissão nuclear.

Em matéria de ironia política, o autor se esbaldou numa criação fantasiosa que marcou sua carreira, ainda no começo dos anos 1990, ao investir o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, no cargo de deputado. Em Virgulino Lampião deputado federá, Jessier imagina como poderia ter sido um discurso feito pelo Rei do Cangaço em pleno Congresso Nacional à época.

Foi um desafio enquanto fala poética regional, mas que carregou nas tintas aquilo que marcou figuras tradicionais de outrora. O que mudou? As pistas estão no texto declamado de forma primorosa por ele. O poema integrou o livro Paisagem de Interior, de 1996. Veja abaixo.

Pode-se dizer que o poeta carrega consigo uma espécie de baú de falares regionais, cujo entendimento, em algumas produções, necessitaria de um “tradutor de nordestinês” para sua perfeita compreensão. Isso acontece quando o ambiente de referência daquele produto cultural é de outra região, mas pela boca de Jessier é raro o ouvinte não sacar o principal daquilo que é dito e declamado.

Para quem quer conhecer melhor alguns dos seus poemas, recomendo os seguintes: Vou-me Embora pro Passado, Zé Qualquer e Chica Boa e Comício de Beco Estreito. Sua vasta produção está disponível no canal dele na plataforma Youtube (acessar aqui).

Arquiteto por profissão, poeta por vocação, matuto por convicção. Paraibano de Campina Grande, o poeta é filho adotivo de Itabaiana (PB) onde reside até hoje. Autor dos livros: Paisagem de Interior (poesia), Agruras da Lata D’água (poesia), O Chapéu Mau e o Lobinho Vermelho (infantil), Prosa Morena – acompanhado de CD com declamações de alguns poemas, musicas e causos, Política de Pé de Muro, A Folha de Boldo Notícias de Cachaceiros – em parceria com Joselito Nunes, além de causos, músicas, cordéis e outros escritos. Todos publicados pelas Edições Bagaço – Recife/PE.

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