Fernando Pessoa, o filósofo

O poeta português Fernando Pessoa em imagem clássica/Reprodução

Escrever sobre Fernando Pessoa é tão difícil quanto compreender a sua vasta obra poética, embora os heterônimos criados por ele como faces no espelho sejam uma boa pista para acender alguma luz no túnel dos desassossegos.

Fui buscar no livro Fernando Pessoa, citações e pensamentos um apoio nesse sentido e acabei descobrindo outra faceta curiosa daquele que foi um dos maiores nomes da língua portuguesa, ao lado de Luís de Camões: o Pessoa filósofo. Esse foi o veio aberto pelas pesquisas lideradas pelo português Paulo Neves da Silva, organizador da obra citada acima, publicada no Brasil pela Editora Leya em 2011.

Na garimpagem de citações, reflexões e pensamentos do poeta, Paulo Neves acabou presenteando os leitores com textos inéditos, incluindo trechos de seus manuscritos. Diz Neves: “Fernando Pessoa é até hoje alvo de números estudos. No entanto, tão popular como poeta, poucos são os que o reconhecem como pensador”.

Dentre os trechos citados de obras com perfil filosófico e menos poético de Pessoa, o autor destaca uma passagem de Heróstrato e a busca da imortalidade intitulado Da duração das obras, com clara postura analítica do bardo:

Algumas obras morrem porque nada valem; estas, por morrerem logo, são natimortas. Outras têm o dia breve que lhes confere a sua expressão de um estado de espírito passageiro ou de uma moda da sociedade; morrem na infância. Outras, de maior escopo, coexistem com uma época inteira do país em cuja língua foram escritas, e, passada essa época, elas também passam; morrem na puberdade da fama e não alcançam mais do que a adolescência na vida perene da glória. Outra, ainda, como exprimem coisas fundamentais da mentalidade do seu país, ou da civilização a que ele pertence, duram tanto quanto dura aquela civilização; essas alcançam a idade adulta da glória universal. Mas outras duram além da civilização cujos sentimentos expressam. Essas atingem aquela maturidade de vida que é tão mortal como os deuses, que começam mas não acabam, como acontece com o tempo; e estão sujeitas apenas ao mistério final que o destino encobre por todo o sempre (…)

Não poderiam ficar de fora pequenas reflexões dos Textos filosóficos de Pessoa, com variadas temáticas, dentre as quais o pessimismo (“O pessimismo é bom quando é fonte de energia”, os portugueses (“O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”, registrado em Portugal entre passado e futuro), a religião (“Para muitos, a religião ainda é um culto do falo, desprimitivado já pela perversidade da consciência”) e, claro, um clássico do Livro do desassossego sobre a sensibilidade (“O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade”).

Quando expõe um dos pontos das correspondências do poeta, Neves frisa um destaque dado por ele à beleza: “A beleza começou por ser uma explicação que a sexualidade deu a si própria de preferências provavelmente de origem magnética” (de Correspondência).

Ao todo, o livro que busca apresentar essas facetas do poeta português reuniu 100 excertos, 350 citações e 65 poemas, com abrangência superior a 200 temas. A intenção do pesquisador e da equipe que colaborou na obra foi mostrar que a lucidez de Pessoa “poderia rivalizar com os maiores pensadores”.

Eis, portanto, um caminho que a leitura deste livro aponta: Fernando Pessoa nunca foi um só não somente porque inventou personagens que lhe serviam de guarida emocional e criativa, mas por ter sido uma criatura pensante e revolucionária para o seu tempo. Tempo que, por sinal, ele fez referência brilhante em Quão breve tempo é mais longa vida, em Odes/Ricardo Reis.

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