Quatro documentários para refletir sobre dinheiro e meio ambiente

Documentário de André D’Elia com financiamento pelo público/Divulgação

As duas plataformas de streaming mais populares no Brasil não costumam disponibilizar em seus catálogos um bom rol de documentários capazes de prender a atenção dos que buscam um conteúdo mais qualificado para refletir – e até estudar – sobre temas como dinheiro, poder e meio ambiente. Isso acontece, em geral, porque nem sempre esses conglomerados de mídia digital levam a sério as produções independentes ou as travam para evitar potenciais conflitos com governos e outras corporações.

Mas é possível encontrar exemplos de produções que estão no ar direcionadas ao público engajado na discussão de temas como os acima mencionados. Faço a seguir uma pequena lista pessoal, a título de sugestão, com quatro documentários nessa linha que assisti e que trazem bom conteúdo para debate. Não publicarei a sinopse, mas comentários da minha visão pessoal.

DINHEIRO

1. Inside Job (Trabalho interno, Netflix, 2010) – A âncora na voz de um ator de peso como Matt Damon deu ao trabalho do diretor Charles Ferguson um motivo a mais para atrair a atenção do público sobre uma questão até hoje não resolvida no universo da globalização financeira: a crise econômica de 2008. De fato, desde o começo do filme, com duração de 1h 48m, o espectador tem diante de si os passos da tragédia anunciada com a manipulação das finanças pelos grandes bancos e corporações que levaram a economia dos EUA à lona, com reflexos permanentes em todo o mundo. É possível ver aqui tudo o que se suspeitava quando envolve o mundo do dinheiro, alvo de filmes de ficção clássicos de Hollywood, mas que no caso são totalmente reais: balanços manipulados, domínio do Tesouro pelos bancos, ocupação dos cargos das finanças nos governos pelas corporações e golpes financeiros de toda ordem e, claro, muita corrupção. O pior é saber que pouco mudou e que muito piorou em relação ao que foi mostrado no documentário, premiado com o Oscar em 2011. Você assiste e tem a certeza de que a coisa é muito pior do que já sabia antes. Ou não sabia.

Documentário Inside Job, que retrata a crise de 2008/Reprodução

2. Educação Americana: Fraude e Privilégio (Netflix, 2021) – Embora traga em seu bojo elementos do poder e da trapaça, o filme do diretor Chris Smith é uma denúncia da manipulação promovida pelos donos do dinheiro para garantir a entrada de seus herdeiros nas melhores universidades dos EUA. Refaz o clássico caminho que, em geral, deságua no binômio “dinheiro-corrupção”, desvendado a partir de investigações conduzidas pelo Ministério Público Norte-Americano. Uma espécie de ‘pirâmide’ de privilégios, regada a muito dinheiro, foi criada pelo empresário Rick Singer, com o intuito de falsear requisitos exigidos pelas instituições de ensino daquele país para o ingresso em seus quadros, atingindo em cheio a reputação da Universidade de Stanford, na Califórnia. Embora use elementos de dramatização para contar a história, o documentário mostra com convicção como gente rica e famosa dos EUA usou dinheiro, privilégios, prestígio e fama para garantir um lugar para seus filhotes nos bancos escolares mais caros do mundo – por meio de fraudes e atos de corrupção deslavados. Bom para quem pensa que os EUA não convivem com casos de corrupção clássicos como em qualquer nação do planeta.

Cena de Educação Americana: Fraude e Privilégio/Divulgação Netflix

MEIO AMBIENTE

1. Belo Monte, Anúncio de uma guerra (Prime Vídeo, 2019) – O documentário de André D’Elia vai direto ao ponto ao narrar as dramáticas alterações promovidas pela construção da Usina de Belo Monte, no Rio Xingu, região de Altamira, no Pará. Traz um conjunto de imagens, depoimentos e passagens da luta dos povos originários, ribeirinhos, populações pobres que vivem naquela região, em contraposição à insistência dos grupos empresariais e do governo Dilma Rousseff de tocar uma obra polêmica e que até hoje provoca reflexos danosos à vida, ao meio ambiente e à cultura na região. A intensa mobilização de lideranças indígenas e de importantes setores ambientalistas contra a condução do projeto é retratada de forma linear a maior parte do tempo, embora traga à narrativa a contextualização histórica do antes e do depois da obra, com seus impactos: o desvio do curso do Rio Xingu, a mudança forçada de populações de seus locais de origem, a desfaçatez de deputados, senadores e ruralistas interessados nas terras indígenas e as perdas ambientais graves que não pararam após a construção da gigantesca usina no Norte do país.

Aspecto da cidade ucraniana de Pripyat, palco do histórico acidente nuclear/Reprodução

2. Café Chernobyl (Prime Vídeo, 2016) – Com duração de apenas 51 minutos, este documentário explora a fascinação que uma tragédia como a da explosão do reator nuclear da Usina de Chernobyl, ocorrida 30 antes das filmagens mostradas, provoca nas gerações do presente. Em 2021, o maior acidente nuclear da história, registrado na Ucrânia, completa 35 anos, mas o documentário feito em 2016 mostra a curiosa transformação da região do epicentro do rumoroso caso em ‘ponto de atração turística’. Isso em meio a estudos que mostram a área como potencialmente perigosa, passados tantos anos, visto que os níveis de radiação ainda são elevados. A cidade ucraniana de Pripyat, construída para os trabalhadores da usina nuclear, teve seus 50 mil habitantes evacuados 36 horas após o acidente. Desde a ocorrência, no entanto, existe um ritual de visitas a locais nem tão distantes do acidente, o que o documentário explora a partir da volta do turismo e das atividades industriais nas franjas da região. Quem teria coragem de passear e tomar um café numa área assim? Acredite, muita gente!

DICAS ADICIONAIS – Quem chegou até aqui no texto deve ter perguntado: mas apenas quatro documentários, dentre tanta coisa que fala desses temas? De fato, aproveito para citar mais alguns bons filmes, incluindo produções hollywoodianas conhecidas, baseadas em fatos reais. A mistura é proposital, mas vale a pena conferir: Seaspiracy: Mar Vermelho, de Ali Tabrizi (documentário, Neflix), A Grande Aposta (filme, Neflix), O Lobo de Wall Street (filme, Prime Video), David Attenborough e Nosso Planeta (documentário, Netflix) e Solo Fértil (documentário, Netflix).

Após essas dicas adicionais, uma pergunta: qual desses você já viu e de qual mais gostou? Comente e compartilhe!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s