“Tudo passa sobre a Terra”

Por Belmires Soles Ribeiro*

“Nos meus tempos de Ginásio Paroquial N. S. do Perpétuo Socorro…”; sim, eu sou dessa época, confesso, meio a contragosto. Estudava-se o Primário e, após, prestava-se o exame de Admissão para o Ginásio, perfazendo o que hoje seria o ensino fundamental.

Os professores de português exigiam a leitura dos grandes nomes da literatura brasileira. Entre as obras obrigatórias algumas deixaram marcas indeléveis na minha formação, e uma das primeiras foi o romance Iracema, do cearense José de Alencar.

O romance inicia assim: “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”.

Jandaia, pássaro típico do Ceará, é um parente do papagaio, gárrulo como este, também imita a fala humana.

Tudo passa sobre a terra” é a última frase do romance.

Apaixonei-me por Iracema, talvez tenha sido o meu primeiro amor platônico adolescente. Mas quem era Iracema?

Sua apresentação ao leitor é, para mim, uma das mais belas páginas da nossa literatura. Senão vejamos:

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.” 

Depois desse poema, ficar indiferente quem há de?

A linda silvícola tabajara vagava pelas matas do Ipu quando capturou o primeiro branco invasor, o português Martin, atingindo-o com uma flechada. Seria a flecha de Cupido? Conduziu-o à presença de seu pai Araquém, pajé da tribo, o qual deliberou que permanecesse retido até sua recuperação e posterior entrega à tribo inimiga potiguara, de quem Martin era aliado.

Nesse intermezzo aconteceu que Iracema e Martin, depois do estranhamento inicial de duas raças diferentes, foram ao extremo oposto: apaixonaram-se loucamente.

Ah, mas, esse amor era impossível.

Iracema, tal qual as antigas vestais de Roma Antiga, tinha um papel fundamental na tribo tabajara: era a virgem consagrada ao deus Tupã, e guardiã do segredo de Jurema, o licor sagrado, que levava os guerreiros ao êxtase.

Tinha plena consciência de que se acaso cedesse aos desejos do amor, morreria.

Era a apostasia suprema, imperdoável.

Um dia deu-se o inevitável: “Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras” . A guardiã de Jurema sacrificara sua familia, tribo, religião e a própria vida em nome do amor que sentia por Martim. Após esse acontecimento, Martim é ameaçado de morte pelo guerreiro Irapuã, também morrendo de paixão pela formosa tabajara, o que induz Iracema a procurar Poti, guerreiro pitiguara, e amigo de Martin, para planejar a fuga deste.

Iracema, então, serviu o licor de Jurema aos guerreiros e, enquanto estes mergulhavam no delírio alucinatório, promoveu a retirada de Martim. Fora das terras tabajaras, informou ao seu amado que ela agora era sua esposa e deveria acompanhá-lo.

Ao saberem da traição de Iracema, revoltados, os guerreiros tabajaras passaram a persegui-los, o que gerou um confronto com a tribo potiguara, que saiu vencedora, para grande tristeza da ex-vestal ao ver seus irmãos mortos no campo de batalha.

O casal, acompanhado do amigo Poti, foi viver numa idílica praia do litoral cearense. Ali viveram um tempo embalados apenas pelo amor que sentiam e pela felicidade da gravidez de Iracema.

Com o passar do tempo, sempre ele, o Tempo, Martim vai se entristecendo pela saudade de sua gente e por não poder dar vazão ao seu espírito guerreiro, o que contristava Iracema ao perceber o progressivo afastamento de seu amado.

Martim vai atrás de suas aventuras guerreiras, fica longos meses afastado e deixa Iracema, sozinha. Quando retorna sua amada está à beira da morte. Dá à luz o filho, batizado de Moacir, “o filho da dor”.

“O terno esposo, em quem o amor renascera com o júbilo paterno, a cercou de carícias que encheram sua alma de alegria, mas não a puderam tornar à vida: o estame de sua flor se rompera.”

Iracema definhou, literalmente, por amor.

Foi enterrada ao pé de um coqueiro, à borda de um rio.

Martim foi embora, levando o filho Moacir e o cão Japi. Era o primeiro cearense emigrante. “Havia aí a predestinação de uma raça?”, indaga Alencar.

Iracema foi esquecida. Até a jandaia, na sua garrulice, no perpassar dos anos, olvidou-se da bela indígena.

“A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro; mas não repetia já o mavioso nome de Iracema.”

Tudo passa sobre a Terra.

* Belmires Soles Ribeiro é Procurador de Justiça/MS e colaborador deste site.

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