Orwell redivivo no século 21

George Orwell: um crítico mordaz dos totalitarismos

Por que ler, reler e entender George Orwell em pleno século 21?

Bem, são três perguntas numa só, criando um complicador a mais nos labirintos da escrita desse indiano de família inglesa que deixou sua marca no Olimpo literário. Olhando as encruzilhadas históricas nas quais nos metemos, talvez faça sentido questionar o que ele teria a ver com nosso tempo.

A importância histórica e crítica das obras de Orwell (1903-1950) remete, naturalmente, a dois clássicos criados por ele poucos anos antes de morrer, em decorrência da tuberculose: A Revolução dos Bichos (em agosto de 1945) e 1984 (de 1949), este último o mais angustiante e genial da sua produção.

Qualquer leitor familiarizado com suas obras sabe que as alegorias da fazenda carregam críticas ferozes ao totalitarismo soviético do período stalinista. E que em 1984, Orwell produziu uma das mais severas parábolas da Guerra Fria por meio da figura central da história – que algum ingênuo poderia imaginar tratar-se de personagem do programa produzido no Brasil pela TV Globo – o Big Brother, o famoso Grande Irmão.

Como a Terra não é plana e o mundo dá voltas, podemos fazer a ligação entre várias situações descritas por Orwell em A Revolução dos Bichos e as diferentes maneiras que vemos em nações onde se multiplicam as tentativas de forçar a implantação de governos com faces totalitárias, de caráter teocrático ou autocrático, inclusive no Brasil varonil.

Tal observação também abarca experiências extremistas em curso há alguns anos no Egito, na Indonésia, nas Filipinas, em Mianmar, na Índia, no Afeganistão (com o Talibã de volta), na Polônia, na Hungria, na Ucrânia e na Bielorrússia. Detalhe: aqui não estão listadas ditaduras ou teocracias clássicas ou antigas, cuja existência remonta a períodos anteriores ao começo, meio ou fim da chamada Guerra Fria.

Voltando ao universo de Orwell, cabe lembrar os alvos do rosário de críticas feito por ele aos diversos modos de totalitarismo, distribuídos entre o capitalismo e o então comunismo soviético. É certo que não se dirigiam exclusivamente ao estamento político e militar dominante do Partido Comunista da URSS: cabiam – e ainda cabem – também a qualquer modelo de pensamento único, seja na imprensa, nos meios intelectuais, culturais ou no comércio mundial, incluindo nesse balaio atual aspectos do que chamamos genericamente de globalização.

A figura do porco Garganta, posta na obra como simbolismo da “comunicação” e da manipulação, poderia ser vista hoje como uma espécie de dublê de político brasileiro do Centrão (de outrora e de sempre), a postos e de cargos nas mãos pronto para convencer os demais de que tudo o que é feito “pelo bem comum”; ou dos economistas e analistas que até hoje repetem ladainhas em louvor permanente às ações do mercado financeiro ou das corporações privadas.

Não por acaso, caminhamos cada vez mais por esse fio de navalha que tem à frente poderosos grupos de comunicação, ora atrelados ao governante de plantão e sempre aliados às instituições financeiras, ora escondendo seus ramais entre correntes políticas tradicionais. No Brasil e no mundo inteiro, é fato.

No processo magistral da criação literária empreendido por Orwell não poderia faltar a caricata figura do porco Bola de Neve, que representaria o ideal no início da Revolução dos Bichos, propagandista do lema segundo o qual todos seriam “iguais aos demais”. Isso até serem decretados os 7 mandamentos pelo ‘governo animal’, quando surge a ‘remodelação ideológica’ do pensamento anterior para o clássico “todos são iguais, porém alguns são mais iguais que os outros”.

Capas de dois clássicos da produção de George Orwell/Reprodução

Afora a polêmica se o livro 1984 seria não um trocadilho para 1948, como forma de driblar o olho totalitário à sua obra, o escritor mirou no avanço do controle que a sociedade de outrora experimentava a partir da experiência stalinista, não deixando de espelhar os acordos entre as potências – do capitalismo e do comunismo – no pós-guerra como mecanismo de dominação.

O escritor não é celebrado somente pela natureza do que conseguiu imprimir à sua criação, mas pelas inovações no pensamento dominante nas sociedades destroçadas pela Segunda Guerra Mundial e sob seus escombros, incluindo expressões como “Novilíngua” e “Duplipensar”, por exemplo. Isso, tudo junto e misturado, gerou um conjunto de ligações entre seu sobrenome e quaisquer críticas contra tentações ou ações totalitárias desde então, o que ficou conhecido como universo ‘Orweliano’.

Chegando aos tempos atuais, pode-se enxergar o quão visionário foi Orwell ao compor a história de 1984: estamos ou não diante do mesmo dilema com as corporações de mídia eletrônica do Vale do Silício e demais grupos econômicos domando nossos dados, imagens, movimentos e desejos diuturnamente? Estamos entregues às baratas das novas tecnologias e suas ramificações na dita “sociedade em redes”. Enredados, melhor dizendo.

O curioso, ainda em relação a essa importante obra de George Orwell é que ele, um intelectual de esquerda, foi rotulado por parte da intelectualidade de esquerda como defensor do capitalismo, enquanto era um crítico mordaz do comunismo soviético e, por isso, também apanhava do regime vermelho.

Ler, reler e entender sua obra pode ajudar a compreender alguns fios do que se passa no Brasil atual, nos EUA das recentes eras Trump e Biden ou nos movimentos políticos em vários países da Europa e da América Latina de um modo geral.

Quem é quem nesses modelos de hoje? Orwell nos deu pistas valiosas em textos primorosos e pujantes nos idos da década de 1940.

EM TEMPO: Meu segundo livro infantil (Quando os bichos perderam o sono) tem o título inspirado no título de um clássico do autor, é óbvio, embora seja uma fábula dos nossos dias de angústia com as mudanças climáticas.

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