Carta à mãe

O texto abaixo foi escrito na tarde do dia 13 de setembro de 2019, horas antes do falecimento da minha mãe, ocorrido no interior do Rio Grande do Norte. Para mim, foi uma forma desafiadora de expressão pessoal, num momento de dor familiar e muitas lembranças, mas que ficou como uma marca do que ela representou para a nossa geração. Aos que o lerem, talvez possa servir como um olhar sobre os sentimentos que temos da nossa relação com os pais quando estes nos deixam. Publico como memória.
Crináuria Galvão Fernandes Freire, a Dona Nininha. Minha mãe

Oi, mãe!

Não me lembro, em 54 anos, de ter escrito uma carta para a senhora. Justo eu que me orgulhava, desde cedo, de ter aprendido a manejar as palavras e a escrever coisas que muita gente leu, além de coisas que somente minha soberba entendia como importantes para outro tanto de pessoas.

Me peguei esses dias pensando de que são feitos os filhos. Sim, esses seus 14 filhos, os filhos dos outros pais e mães, dos que já passaram e dos demais que estão aqui, além de todos que virão em novas e sucessivas gerações. Me refiro ao que os preenche, além da pele e osso, das fibras, do viço e da velhice no corpo, dos olhos multicoloridos, das meninas e meninos que um dia vieram de algum lugar para um universo particular das suas e das nossas famílias.

Nunca tive dúvidas de que filhos são feitos de ingratidão, de soberba, de ilusões e de vazios que não sabem como preencher. Sofrem calados com seus brinquedos, suas conquistas, seu tempo, sua mania de achar que estão construindo um mundo para si e para os outros, como se melhorassem esse mundo.

Sempre tive comigo que filhos pensam que são sementes de pais e mães, quando não passam de maltrapilhos em suas consciências, pois carregam dentro de si uma angústia que seus pais já superaram quando assumiram esse universo de carregar essas criaturas debaixo de suas saias, para cima e para baixo em todos os lugares dos seus mundos.

É verdade que a senhora e o Subtenente Freire montaram uma família nada convencional e fizeram da vida cigana pelo Estado do Rio Grande do Norte o modo de criar, educar e explicar como seria o mundo para esse magote de gente que foi se esparramando entre os anos 1950 e 1970 do século XX. Fora das convenções, longe das cidades grandes, distantes das suas famílias originais – sim ambos deixaram seus pais e mães para se dedicar a essa patota de afortunados que sobreviveu dos 14 iniciais.

Dona Nininha e o senhor Freire, anos 1960. Álbum familiar/reprodução

Eu nunca aprendi direito essas coisas, como se decidia isso, para onde se iria, para qual cidade os Galvão Freire iriam. Apenas era levado para lá e para cá, como um soldadinho de chumbo, um boneco, um moleque esquelético que achava tudo muito bom e muito bonito. Claro, eu nem tive a sorte de outros, que mudaram mais de cidade que eu nem saberia contar aqui quantas foram.

Mas não é disso que estou querendo falar. Foi só um desvio do assunto principal, que é a incapacidade dos filhos de entender o que se passa com seus pais ao longo da sua existência.

É certo que todo mundo aprende desde cedo a cultuar os pais como figuras fortes e que carregam em si alguns potes de magias que curam doenças, dores, fazem crianças sem sono irem para a cama, obrigam esses seres a serem “gente”, como se pais não sofressem, não precisassem dessa magia simples que os filhos herdaram – a capacidade de amar.

Cheguei exatamente no ponto em que a angústia me domina desde sempre: nunca tive a capacidade de amar os pais como me foi ensinado e como eu deveria. Talvez até tivesse e carregasse isso dentro de mim, pois a herança que me foi dada não foi e não será material, mas essa semente de uma coisa que não sabemos explicar. Simplesmente está lá para quem quiser plantar, regar e colher.

Não sei os demais, mas eu sempre fugi da vida em família, da demonstração explícita de carinho, compaixão, amor, proximidade, congraçamento, mesmo tendo convivido anos a fio perto de todos. Queria “ganhar o mundo” e criar o meu universo, e fiz isso. É dessa fuga “necessária” que falo quando me refiro ao “sair do convívio” para projetar aquilo que queria e que imagino ter conquistado.

Todo mundo fez e faz a mesma coisa, por caminhos diferentes. Seguimos uma lenda que diz que “os filhos foram feitos para o mundo” – mesmo que ninguém saiba que mundo seria esse. Pode ser um mero vazio, pode ser ter mais conforto do que os pais tiveram, mais letras, mais leituras e capacidade de interpretação de coisas, complexas ou não.

Engraçada essa soberba dos filhos em relação aos pais: sempre procuramos superar o que eles foram e como viveram, a despeito do Belchior ter avisado que viveríamos “Como nossos pais”. Como letra de protesto, a canção é perfeita, mas não cabe na realidade, pois não vivemos como eles e não temos condições de viver simplesmente porque não passamos de pequenas criaturas que aprendem a imitar alguns dos seus gestos e ações.

Falo por mim, retomando o fio da minha “fuga para o meu futuro”, que me considero um simples leitor de coisas e escrevinhador de palavras que me alimentam o ego e me garantem o pão. Não tenho um coração que bate no peito de uma Dona Nininha e nem tive a capacidade de fazer o que ela e o “Sub” fizeram ao longo de tantos anos.

Fugi, assumo, pela incapacidade de entender como essas duas pessoas construíram tudo isso, em meio aos dissabores da vida, aos recursos escassos para tantas bocas, ao conjunto de obrigações, regras e dificuldades que foram transpostas para que ninguém tivesse a coragem de, um dia, dizer que recebeu “menos” da senhora e dele. Mesmo do alto da nossa ingratidão, sabemos, seria covardia e cinismo alguém dizer esse tipo de heresia.

Sabemos como foram marcantes aquelas mesas fartas, grandes, retangulares, com muita gente, comidas diversas, tutano, banana, rapadura, carne de sol, café, bolos, cocadas, sucos, além dos dias em que nem tudo isso era tão farto assim como eu digo agora. Porque nem sempre estive presente e nem sempre sabia o que ocorria naquele nosso mundo.

Vivemos em casas como se fossem fazendas, de tão grandes, de tantos quartos.

Quem preparava tudo aquilo, mantinha limpo, com comida, roupas, camas, redes, escola, cadernos, livros etc? A criança sempre imagina que tudo cai de algum lugar, e não estou falando somente do que nos faz suprir as necessidades materiais.

A Dona Nininha – que hoje experimenta suas dores físicas das mudanças que o tempo impôs – é essa senhora que sabemos muito bem de onde veio, o que fez, o que faz e como construiu esse pequeno império familiar no braço, na raça e na intuição, dando de 10 a 0 nos seus filhos sabichões que foram à universidade, que estudaram isso e aquilo e até construíram seus negócios e vivem dos seus empregos, do seu trabalho e do seu jeito, como cada um pode e se ajeita.

Ela carregou esse povo para todo canto. Deu os nomes, inventou mais de uma dezena deles, teceu letras e combinações para me chamar Djair, tascou um Dorivan para outro, sonhou com uma Dinéusa, fez Neto virar Galvão, Danúbia ser quem é sem nunca ter sabido do Rio Danúbio, mandou uma Dorineide nascer, Dárcio se chamar assim e não “Dácio”, previu um velhinho do tipo Dilson, jogou fora a fórmula de um Djaelson, tentou nos manter perto do Delson (falecido ainda bebê), viu que era bom um tal de Denilson (falecido em abril de 2021), lá na frente imaginou que alguém chamado Dilza seria interessante, gerou Denise “Coquinha” e fechou a fábrica com Daíse, a galega do Itans do fim de rama.

Dona Nininha sempre soube que precisava ter muita fé para manter essa cabroeira toda perto, viva e de bucho cheio. Não foi de graça que temos tantas Franciscos e Franciscas na ninhada. Foi aquela sacada que ela teve, pois sabia que nem só pirão, feijão verde e carne assada iriam deixar todo mundo vivo – sim esse foi outro ensinamento que nos fez um povo que acredita, cada um do seu jeito, mas sempre tem fé.

Pois é, meus amados irmãos e irmãs, trago aqui uma inveja de algo que sempre admirei nela, desde sempre: aquela caligrafia perfeita, a capacidade incrível de fazer contas de cabeça nas infindáveis mercearias dos tempos em que cuidava de filhos e vendia coisas para alimentar os filhos alheios.

A ilusão das letras me fez imaginar que sabia muito mais do que ela e do que ele, quando era apenas um fedelho, um moleque que mijava na rede e sempre alguém vinha consertar minhas cagadas. Toda vez que alguém precisava de mim, lá estava eu inventando uma reunião, uma missa, um encontro não sei do que para não estar em casa.

O tempo me mostra como eu perdi tanto tempo com coisas inúteis, que poderiam ser convertidas em momentos perto, em trocas de carinho e gratidão, em permanências que hoje me fazem falta, em afagos que não tive – talvez porque queria mais do que tinha, e insistia que o caminho era o do abandono ao que de melhor eu tinha naqueles tempos.

Claro, não estou aqui a tecer hipocrisias acerca da necessidade de virar gente e construir algo na vida que os orgulhasse, e espero ter feito o mínimo para que isso acontecesse, como todos os que formam esse clã de índios potiguares do interior e da capital. Era preciso ir a algum lugar, preencher algumas lacunas, aprender algumas coisas, saber dizer algo, trabalhar, viver, virar pai, mãe, qualquer coisa que nos desse extensão à vida.

Hoje vejo que não era preciso me fechar por tanto tempo na minha redoma de particularidades para ter o que tenho, porque não tenho muito daquilo que me foi dado todo o tempo enquanto estive no convívio familiar: a capacidade sem limites de demonstrar o amor pelas pessoas, em particular pelos nossos pais. Não por obrigação ou somente por gratidão, mas para demonstrar que aprendi algo que toda família precisaria ter – que é a humildade para reconhecer de onde viemos, quem nos fez o que somos e onde estamos hoje.

O sarcasmo herdado do lado Freire e o olhar terno e justo dado pela ramagem Galvão talvez tenha produzido uma família ímpar, das que conhecemos: um povo que ri dos próprios infortúnios, chora por muito pouco, se angustia além da conta, se ajuda e se estranha, se compadece da dor alheia, se abraça, se distancia, se olha de perto, se cheira, se desconhece, se perde em pequenas coisas e, eis a questão, há muito tempo não olha para sua identidade. Sim, eu sou o primeiro a dizer que havia tempos que não pensava nessa identidade GalvãoFreireana, não no sentido de não saber de onde vim, mas no velho esquema de deixar que o tempo me mostrasse as coisas. E tem coisas que o tempo apenas piora.

A nossa identidade familiar tem dois elos que nem sempre olhamos com carinho e atenção – um que nos deixou há tempos e outra que nos olha fixamente nas suas dores do tempo.

A propósito, Dona Nininha: o seu olhar no hospital, fixo em meu choro e na minha angústia, foi a lição mais direta, dura e terna que já recebi em tanto tempo! Como a senhora tem toda essa força e eu fiquei tanto tempo sem prestar atenção? Como eu pude fazer de conta que estava longe por tanto tempo, sem lhe dar um pouco do meu tempo?

Justo a senhora que, todos sabemos, dedicou tempos e tempos às orações “por todos os filhos”, como nos foi dito a cada encontro ou cada vez que nos falamos. A sua lembrança desses momentos em que ficou no seu quarto, naquele pequeno santuário montado ao longo dos anos, me corta o coração porque eu fui um ingrato de não pensar nisso como um presente a mais, um tesouro que poucos têm para dar, um cuidado que sempre me serviu para me livrar – e a todos, tenho certeza! – dos males do mundo, das incertezas e das angústias.

Essas orações que nos foram dedicadas, eu sei, não saem da sua cabeça, e seu olhar fixo para mim naquela quinta-feira no hospital jamais sairá da minha cabeça, pois eu sei que ali estava mais um lote de pedidos para que Deus nos faça compreender o que é a vontade dele, seja quando for, seja em que tempo for. E temos sido agraciados com sua permanência entre nós, como fomos por todo o tempo do Subtenente Freire, na velha família de outrora que hoje nos enche de saudade.

O olhar da Dona Nininha me diz que ela reza, pede, suplica e sente conforto por dentro, pois sabe que carrega em si um conjunto de coisas que nós, seus filhos, talvez nem saibamos o tamanho. Eu nem me atrevo a falar disso porque sei da minha covardia com o tempo e o universo familiar.

Filhos são uma parte da história dos pais, mas não podem achar que são sua continuação, pois são cópias, reproduções daquilo que eles são e foram. E bem que poderíamos ser bem melhores, bem que poderíamos estar mais perto, provar mais desse tempo, aprender mais, entender melhor como se faz uma escola apenas com a vivência, com o olhar, com a maneira própria de lidar, de criar mundos, filhos, filhas, pessoas e gentes.

Por fim, confesso que tudo o que transformo em lágrimas hoje, neste texto, tem a ver com minha admiração por essa história que está dentro do coração dos nossos pais, em especial do olhar severo e duro do Subtenente e desse jeito todo próprio de fazer as coisas que caracteriza Dona Nininha.

Sim, mãe, não a tratamos como “guerreira” que apenas criou filhos, mas como alguém que sabe o que veio fazer aqui. Nós é que talvez nem saibamos. Quem sabe não aprendemos um pouco disso tudo que está aí dentro, pulsando, nas veias ora abertas, ora simplesmente recebendo medicamentos?

Peço que me faça entender melhor isso tudo o que me faz chorar agora. E que eu possa ter comigo um pequeno dicionário amoroso de pais e filhos para quando me perguntarem para que servem os pais.

Servem para convencer os filhos sobre a mágica da vida, que não tem fórmula pronta e não precisa de tanta coisa, como imaginamos em nossos projetos mirabolantes de futuro.

O seu olhar fixo no meu olhar me diz: “O seu futuro eu tracei lá atrás. Basta pensar no que eu lhe dizia todos os dias”.

Obrigado, mãe! Prometo aprender!

São Paulo, 13 de setembro de 2019.

4 comentários sobre “Carta à mãe

  1. Nossa!!! Que palavras fortes as suas meu amigo, me fez chorar, tantas palavras que me fazem refletir, obrigada por compartilhar. Um grande abraço.

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