Nossos acertos são filhos de vários erros

Físico Albert Einstein/Reprodução de Pensador/UOL

Algumas coisas surgem na nossa cabeça mais pela obviedade do que por meio de grandes elaborações. Cito como exemplo uma situação prosaica, quando eu e minha companheira de jornada estávamos tentando acertar o compasso de uma música para gravar, em casa, e enviar a amigos e pessoas conhecidas por pura diversão num sábado de pandemia. Erramos 300 mil vezes – e o exagero é parte de qualquer pequena história – até que veio a brincadeira sobre acertar errando, errando e errando.

De fato, podemos dizer que os nossos acertos são filhos de vários erros. Na música, na vida, no trabalho, no aprendizado, nas nossas relações, no olhar, no choro que nos emociona quando recordamos erros cometidos que nos deram a certeza de que nos passos seguintes conseguiríamos acertar. De tão óbvio, aprendemos a andar caindo. A falar, errando, trocando as construções iniciais de frases, misturando vogais, consoantes, comendo sílabas, plurais, inventando palavras que não existem. E a intenção, no geral, é aprender. É acertar.

Sim, quando não aprendemos nada com o que nos ocorre, ou mesmo com o que ocorre historicamente com a humanidade de um modo geral, podemos dizer que não houve propriamente erros, mas crimes, tragédias, catástrofes e desvios de diversas ordens.

Não podemos classificar como “erros” fatos históricos e crimes contra a humanidade, tais como o Holocausto perpetrado pelos nazistas, cujo saldo foi a matança de milhões de judeus, ou a nefasta política do fascismo italiano, primo-irmão do nazismo. Nem quaisquer ações de governos, organizações terroristas ou bandeiras de naturezas diversas que pregam a eliminação de adversários, fabricam inimigos, queimam livros, difamam ou matam em nome de ideologias ou religiões.

Mas voltando aos erros e acertos, acertos e erros, somos de fato constantemente perseguidos no nosso cotidiano por essa dupla. Até gostaríamos, em dado momento, de não ter cometido determinados erros, alguns bobos, ingênuos, que teriam nos livrado de pequenos dissabores. O erro de não termos notado que aquela peça em cima da mesa iria cair se não fosse removida para um lugar seguro. Ou que a panela estava quente, mas não cuidamos antes de ter a prevenção para evitar o contato com a superfície que nos queimaria a mão ou os dedos.

Entre ambos, de fato, caminham o descuido, a falta de atenção, a distração, os pequenos deslizes, um som que está muito alto e nos tira a capacidade de ouvir o que poderia ocasionar um problema ou uma estrada que pegamos sem conhecer nada antes e sem os devidos cuidados que as placas nos mandam tomar o tempo todo. Nem sempre, claro, cabe a desculpa da falta de atenção ou descuido. Foi erro grosseiro, burrice natural e ponto.

Talvez o que nos preocupe seja quando nossos erros provocam dor e prejuízo à vida de quem amamos ou mesmo de desconhecidos. Isso quando temos três coisas chamadas amor, compaixão e empatia. Quando não levamos isso em consideração, na maioria das vezes, a tendência é colocar a culpa nos outros pelos nossos erros.

Quando acertamos, com certeza, nossos sorrisos se tornam mais francos, diretos, a endorfina se espalha pelo nosso cérebro e ficamos melhores. Mas sempre devemos dar aquele crédito a tudo o que nos trouxe até ali. Seguramente encontraremos os erros no balaio de acertos que acabamos de comemorar. Um livro, uma história, uma música, um quadro, uma pintura, um filme, uma aproximação com alguém legal ou uma sacada genial podem ter muitos erros no seu DNA. É só examinar direitinho que eles estarão lá.

A propósito ainda de erros, recordo-me de uma frase dita pelo escritor Monteiro Lobato, considerado um dos pais da literatura infantil, acerca dos erros ortográficos e do desejo de todo autor de se ver livre deles. Genericamente, ele disse certa vez que os erros se travestiam de acertos no meio da palavras para nos pegar. Como se fossem folhas numa densa floresta, que nos impedem de ver algum risco, algum perigo que está ali roçando nossa cabeça. Quem escreve e quem lê com frequência sabe muito bem disso.

Será que estamos preparados para tolerar mais os erros alheios ou cultivamos a mania de prestar mais atenção nos acertos e sempre cobrar pelos erros – dos outros. E dos nossos? É cômodo passar a mão sobre nossa própria cabeça. E sentimos, no fundo, quem sabe, alguma satisfação de esconder nossos próprios erros. Ou alimentar nosso autoengano.

O meu primeiro livro – O Saci de Duas Pernas – tem um fundo na história que é incentivar as crianças a buscar nas outras as coisas boas, seus gestos, seu lado bom e desprezar ao máximo o que seriam os “erros” ou coisas que não consideramos “certas” nos outros.

As boas amizades são construídas, também, de erros e acertos. E isso é uma lição que se aprende todos os dias. Errando e acertando. Acertando e errando.

Por fim, ninguém menos do que o físico Albert Einstein já disse o seguinte: “O único homem que está isento de erros é aquele que não arrisca acertar.” Quem sou eu para duvidar dele? Nem errando eu acertaria essa.

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