A alma das bibliotecas de Manguel

Livro do argentino Alberto Manguel/Companhia das Letras

O escritor argentino Jorge Luís Borges cunhou uma frase reproduzida em vários lugares do mundo sobre seu amor incondicional aos livros, às livrarias e – por extensão – às bibliotecas. Disse Borges: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”.

Quem refez esse caminho, na condição de admirador do conterrâneo celebrado no mundo inteiro, foi o escritor Alberto Manguel em seu livro Encaixotando minha biblioteca. A maneira como ele trata os livros e os lugares sagrados em que ‘vivem’ força a crença na existência de uma verdadeira ‘alma’ nesses espaços dedicados à guarda do que se publica. Manguel não é só um apaixonado por livros, como viveu, cresceu e se criou entre eles.

Também nascido na Argentina de Borges, mas criado no mundo, tal qual seu ilustre mestre portenho, Manguel narra nesse pequeno livro a sua relação com as bibliotecas a partir de um fato pessoal: em 2015, quando foi obrigado a deixar a França e se mudar para Nova York, experimentou o desespero de encaixotar seus cerca de 35 mil livros. O ato de desespero e tristeza lhe rendeu a inspiração para contar o que sentia ao fazer aquilo.

Publicado no Brasil em 2018 pela Companhia da Letras, Encaixotando minha biblioteca mistura passagens cortantes da experiência pessoal dele de ver livros e mais livros deixando suas estantes, seu mundo organizado e indo parar em caixas de papelão. E a leitura e releitura de muito do conteúdo deles.

É, de fato, um carrossel de memórias e experiências afetivas do leitor viciado e dependente dos livros que conduz a trama, não de um romance, mas de costuras sobre as moradias dos livros, seus nomes, lugares, fantasias, loucuras, despertares e o espanto de se ver sempre pequeno em relação ao que eles ensinam. Mas não é só de autores que Manguel fala: repassa histórias, divaga e remonta passagens de inúmeras leituras, enquanto fala da sua biblioteca e das grandes de todo o mundo – dos pergaminhos e manuscritos, das tragédias e destruição de templos literários, chegando aos livros impressos civilização após outra.

Somente lendo a “elegia e as digressões” que o autor faz para entender o pirlimpimpim dos livros quando jogado sobre as cabeças e mentes de leitores apaixonados. É como falar da alma humana, da existência, dos grandes pensadores, das fantasias, loucuras, do que só existiu no mundo imaginário dos escritores e foi parar nas memórias mais antigas, nas páginas, paredes, folhas, papiros ou pedaços de couro.

A cada digressão, o autor cita trechos e observações feitas por grandes nomes da literatura universal. Faz isso como se promovesse um desfile pessoal de escritores e escritoras que o mundo inteiro venera. E lá estão James Joyce, Borges, Zola, Walter Benjamin, Lewis Carrol, Cortázar, Cervantes, Dante, Kafka, Nabokov, Cocteau, Scott Fitzgerald, Kerouac, André Malraux, Nora Roberts, Marguerite Yourcenar, T.S. Eliot, Jonathan Swift e tanta gente que perdemos de vista. Também os lugares mais esplendorosos onde os livros vivem.

Manguel trata livros como divindades e bibliotecas como templos. E como poderia ser diferente? A cada caixa que fecha, uma história, uma lembrança, uma tristeza, uma alegria, uma novidade, algo recontado, um autor marcante, uma mulher que fez história, um povo que surgiu, sumiu, outro que chegou, uma aventura, um romance, um ponto, uma vírgula…

A loucura que ele deixa fluir no livro, página a página, contagia. Você lê e já se sente amigo íntimo dos livros lidos por ele, enquanto se envergonha de ter lido pouco. Ou se alegra de saber daquela passagem resgatada pelo autor argentino em poucas linhas.

E os resgates de contos, histórias e clássicos, de um modo geral, sofrem uma deliciosa intervenção do jeito Manguel de falar e escrever: nada linear, nada maçante e nenhuma dificuldade para entender como ele narra. É um contador de histórias nato.

Vale a pena se emocionar com ele pelos livros que foram parar nas caixas. E, mais ainda, se embrenhar nas selvas de letras e encantos que Manguel conduz para falar da alma que habita toda biblioteca – pública ou privada. Como era a sua antes de virar estrangeira, como tantas outras vezes já havia ocorrido.

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