Quando um ‘chefe’ faz uma visita

Existe uma dúvida sobre qual dessas duas é a ação mais antiga entre os humanos: o ato de se prostituir ou o de puxar o saco alheio. Talvez uma coisa guarde relação com a outra, mas o que se pretende aqui é entender o que se passa na cabeça das pessoas toda vez que alguém do ‘poder’ faz uma visita a uma cidade ou a um local de trabalho. Percebe-se que isso nunca muda!

O presidente vem aí? Pintam-se as guias das ruas por onde ele passará; os locais por onde circulará o carro dele são cuidados, buracos são tapados, semáforos funcionam, a segurança é reforçada, os pobres são mandados para longe e por aí vemos. É sempre um festival de maquiagens – tudo para tentar mostrar ao tal chefe que as coisas funcionam.

Os prepostos deste, sem distinção ideológica, sempre estão prontos para recebê-lo. Entram neste balaio presidentes, prefeitos, prefeitas, governadores, governadoras, deputados, deputadas, senadores e senadoras, ministros do STF, juízes, desembargadores, quando se fala de autoridades da área pública. Muda alguma coisa quando o ‘chefe’ é o dono, diretor de área, gerente ou CEO de alguma empresa ou corporação?

Não há mais abandono de projetos, de ideias e nem pessoas que habitualmente ficavam vindo àquela repartição, entidade governamental ou empresa cobrar melhorias ou o funcionamento dessa ou daquela atividade. Tudo está perfeitamente no lugar. Na firma as coisas ficam tinindo.

Bajulação? Medo de perder o emprego? Confissão de incompetência? O que leva os que ocupam cargos públicos a, invariavelmente, se portarem descaradamente como pessoas que não se constrangem em mostrar que fazem a coisa certa quando todos veem que está sempre faltando algo? A disputa interna ocorre do mesmo modo nas empresas.

O maior interessado em coibir esse tipo de bajulação deveria ser o visitante, que deveria baixar uma norma proibindo a arrumação temporária do local que vai visitar. Avisar que haverá punição caso encontre tudo arrumado demais.

Quem sabe, talvez, o batalhão de puxa-sacos pudesse se ocupar com atividades que seriam feitas no cotidiano do bairro, da cidade, do Estado, da empresa ou do país. Certamente haveria um temor natural de alimentar o vício de maquiar os ambientes durante as chamadas ‘visitas oficiais’. Quem está lendo até aqui já deve ter visto seu bairro, sua rua, sua cidade ou empresa onde trabalhou ou trabalha passando por isso.

Será que um dia chegaremos a esse salto de sinceridade? Se trabalharmos dentro das obrigações que temos a cumprir pela manutenção dos espaços públicos ou privados que administramos, certamente não sobrará espaço para esses arrumados de última hora.

Ou seria o puxa-saquismo um problema insolúvel e inerente à condição humana? Vamos pensar no que disse o dramaturgo William Shakespeare a respeito dos bajuladores de plantão: “Aquele que gosta de ser adulado é digno do adulador”.

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