Anotações das experiências de leitor

O cordel foi um elemento básico da minha formação de leitor

Ainda que houvesse a possibilidade real de abrirmos as caixinhas da memória em busca daquele que seria o momento em que nos tornamos leitores, talvez fosse difícil precisar como e quando isso aconteceu. Sempre é algo muito particular, quase uma explosão interna de uma minúscula bomba de prazer mental. A intenção aqui é divagar sobre minhas experiências de leitor, possivelmente diversas das de tantos que lerão as anotações a seguir.

Devemos nos lembrar que uma coisa é a alegria pessoal – e familiar – das primeiras palavras balbuciadas e faladas; outra é o domínio do código alfabético, a magia da primeira leitura de modo autônomo: uma frase, um cartaz, um aviso, uma placa. É ali que se abre esse universo sem fronteiras do conhecimento.

Escrevo puxando pelas lembranças mais antigas do que me fez um leitor. Ou melhor, de quando posso me considerar que virei um leitor. Não foi numa sala de aula de escola pública, quando declamei um poema sobre dois vizinhos que se estranharam após o sumiço de madeira no quintal da casa de um deles. Nem quando me arrisquei a cantar uma canção para um público adulto, levado pelo meu pai a tal aventura.

Tinha razão o pesquisador e educador Paulo Freire ao dizer que a leitura de mundo precede a leitura da palavra. Acho que esse foi o fogo que iluminou esses passos iniciais que dei no mundo mágico das letras e suas combinações. Aprendi a ler primeiro as coisas que via, com medo, curiosidade, sustos, tropeçando nos erros, frases e palavras. Sendo motivo de riso e galhofa. Era a tentativa e erro. Eram as coisas colocadas no mundo que eu conhecia que me levariam a entender aquilo que seria a leitura da qual falo agora: placas de carros, das ruas, do comércio, dos falares e dos espaços públicos. O mundo real, aquilo que vivia em casa e por onde passei a circular.

Ligar o rádio, ouvir duplas de violeiros fazendo versos, contando aventuras, mentiras e exageros; ir a uma feira onde eram expostos os livretos de cordel e um autor ler aquilo que escrevera, a maioria apenas na base da ‘decoreba’; assistir ao espetáculo simples do tocador de pandeiro, da dupla de emboladores de coco trocando insultos; ir ao circo que aparecia de tempos em tempos na cidade; ver a minha mãe anotar compras de clientes numa caderneta daquelas no tempo em que se vendia na base do fio do bigode (o famoso fiado); ver o meu pai sentado diante da máquina de escrever digitando relatórios da PM onde servia ou escrevendo coisas de próprio punho em folhas de almaço.

O incentivo de outras pessoas é fundamental, acho, na vida e na formação de um leitor ou leitora. A imitação, o ator de olhar como o outro faz. Querer ser como aquela pessoa. Ter inveja, no sentido natural, do irmão ou irmã que dominava essa coisa. E receber isso deles em dado momento, como foi o meu caso, de ganhar presente todos os anos, numa determinada fase, as revistas em quadrinhos ou alguns livros que estes  haviam lido no passado.

Entre imitação, curiosidades, desejos, fantasias, viagens mentais e o mundo real que ia se tornando cada vez mais complexo, o que me movia nesse universo para me firmar na leitura tinha o tempero do meu pai – especialmente ele, com poucos estudos – que não economizava na compra de enciclopédias, no tempo em que as casas tinham grandes estantes de jacarandá com livros. Era o território das gigantes Barsa e congêneres.

A propósito destes ‘investimentos’ feitos por ele, nunca me esqueço de uma engenhoca que nos chegou à mão, trazida por um vendedor qualquer que bateu à nossa porta lá pelo começo dos anos 1970: um “livro” que, na verdade, era totalmente mágico. Apenas lembro-me claramente de que se tratava de uma caixa com botões com luzes (verde e vermelha), cuja função era dizer se acertávamos ou errávamos perguntas, numeradas, que integravam o “livro” de perguntas – e acompanhava a caixa mágica. Uma campainha tocava a cada erro, com a luz vermelha; e a luz verde soava a cada acerto. Horas e dias mexendo naquilo até que era necessário trocar as pilhas.

As idas e vindas mentais que faço nestas breves anotações não seguem uma linha do tempo. São fruto da memória. Mas é fácil recordar dos elementos concretos desse processo de formação de leitor ao qual me refiro desde o começo: os livros escolares; os gibis que ganhava ou comprava; as enciclopédias de casa e das primeiras bibliotecas que frequentei; os folhetos de cordel nas feiras; as gravuras, fotografias e as primeiras idas ao cinema, em matinês de filmes do Tarzan e de outros heróis; os programas de rádio as conversas com amigos e parentes.

O rádio, seguramente, foi o instrumento responsável por várias mudanças na minha vida, inclusive de abraçar o jornalismo como uma das atividades profissionais muito cedo. Por causa dele, fiz um jornal “mimeografado” ainda no começo dos anos 1980, na tentativa de me fazer conhecido por algum público.

Ainda no mundo do rádio, um confissão necessária: sim, fui ouvinte de carteirinha da “Voz do Brasil”, bem como de rádios de vários lugares do mundo, por meio das ondas curtas. Ficava horas sintonizando a Voz da América, Rádio França Internacional e a Deutsche Welle, a famosa emissora alemã. Como disse, cada um teve seus caminhos. Os meus foram essa salada mista.

Também teve a experiência nos grupos de jovens católicos na igreja do bairro, onde se discutia tanta coisa nova que até sentia vergonha de saber que era um ET nesse mundo dos leitores compulsivos.

A televisão entrou tardiamente na minha vida, mesmo que tenha visto aquele aparelho mágico ainda muito pequeno, no final dos anos 1960, quando a cidadezinha onde morávamos tinha a energia desligada antes das 22h, quando todo mundo dormia. A tevê me atraiu para gostar dos desenhos animados. E das novelas, do futebol e dos noticiários numa outra fase.

Claro, não tem como negar que se atinge uma fase de “leitor maduro”, que se assenta nas experiências da vida de cada indivíduo, mas alguns elementos são específicos nesse patamar: o cinema (como arte, além de divertimento), o teatro, a música, as artes plásticas, os saberes escolares, a universidade, os ofícios profissionais (e aprendizados anteriores), viagens, as interpretações acadêmicas, chegando ao final a essa balbúrdia bem pensada e desengonçada que se chama internet (e suas subdivisões).

Para mim, virar leitor começou como uma necessidade de afirmação, de superação das imensas dificuldades que sentia na maneira de me relacionar com as pessoas e de me colocar no mundo que se abria. Eu precisava daquilo para sobreviver. Era meu passaporte para um lugar que eu não sabia qual seria, mas queria estar lá um dia. Havia o desejo de romper a magia do código das letras, mas teve esse impulso da precisão (de precisar mesmo, internamente). E isso ocorreu num mundo pessoal fechado que criei na adolescência para cultivar minhas plantinhas de leitura, meus cadernos secretos e meus modos estranhos de lidar com as coisas que passava a dominar e compreender.

Olhar para tudo isso hoje, me ver como um leitor que ama as letras não mais por compulsão ou necessidade imediata, mas pelo prazer de ver palavras escorrendo pelos olhos, muda tudo o que pensei sobre o ator de ler e ser leitor. Tem a ver com cidadania, com prática incessante de conhecer, fugir das armadilhas das redes e do excesso de “conhecimento raso”.

O ato de ler virou uma postura natural. Uma forma de me sentir como ser humano e aprender a me relacionar com a natureza ao meu redor. E partilhar isso por meio do que escrevo, inclusive livros, textos, artigos e outras coisas que vão parar nos universos de futuros e novos leitores de algum tempo. De outros tempos.

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