“Sempre teremos Paris”

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman: Casablanca/Reprodução

Por Belmires Soles Ribeiro *

Literatura ou cinema?  Para mim, o que importa é aquilo que emociona, que sedimenta lembranças, para  revivê-las quando se está imerso na própria companhia, ensimesmado.

Lembranças de fatos passados coisas que nos alimentam no presente, para o bem ou para o mal, consciente ou inconscientemente, freudianamente.

As recordações de filmes ou de obras literárias, conforme a sua profundidade, e a empatia de quem lê ou assiste, são como memórias de vida a nos acompanhar perpetuamente. Na obra cinematográfica, a imagem; na literatura, as palavras.

Mas há filmes que marcaram também, a par da emoção das imagens, a emoção transmitida pelos atores por suas frases que, bem encaixadas,  seguem-nos vida afora.

Na minha experiência pessoal um dos que mais me marcou foi Casablanca.

As frases marcantes pululam no decorrer do filme.

Entre todos os bares do mundo, ela tinha que entrar justamente no meu?” A perplexidade  de Rick Blaine, o dono do bar,  protagonizado por Humphrey Bogart, se justifica.

Ricky e Ilza vivenciaram um romance ardente em Paris, o amor perfeito, que parecia ser para toda a vida.

Mas, como diria a juventude de hoje, “Só que não!”

O idílio semelhava o paraíso na Terra, embalado ao som da música As Times Goes By“, executada e cantada pelo pianista amigo Sam, quando irromperam as tropas de Hitler, ocupando Paris, com reação tíbia do despreparado exército francês.

Ilza, representada pela belíssima sueca Ingrid Bergman, atônita, ao ouvir o ribombar da artilharia alemã, indaga: “São tiros de canhão ou é meu coração batendo?”

Ao dar-se conta da real situação desabafa, desconsolada: “O mundo desmoronando e a gente se apaixona…”

Prepararam  a fuga, combinando se encontrar na Gare de Paris. Ilza não compareceu e não deu nenhuma explicação, deixando Rick inconsolável, sem nada entender.

Rick vai embora para o Marrocos, na África, à época protetorado francês, do regime fantoche denominado República de Vichy“, onde monta, na cidade de Casablanca,  o Rick”s Café, para o qual afluíam refugiados, escroques e aventureiros de toda sorte. Levou o inseparável amigo pianista Sam, terminantemente proibido de executar a fatídica As times Goes By“, que tantas mágoas evocavam a Rick, este com  a firme determinação de   apagar da lembrança o inglório final de romance com Ilza.

Anos depois, no auge da  2ª Guerra Mundial, de súbito, ao ouvir Sam  executando a música proibida, Rick se dirige ao salão do bar pronto para pespegar-lhe uma reprimenda,  quando então se depara com seu grande amor do passado, Ilza Lundt, sentada à mesa de seu bar, induzindo-o à reflexão  sobre a inusitada coincidência.

Ao se encontrar primeiramente com Sam, Ilza insistiu para que este tocasse As Times goes By. Ante a negativa inicial, Ilza reiterava:

” Play it again, Sam. Play.” (Toque outra vez, Sam. Toque).

Ricky tornou-se amargo e cínico, ao menos era o que exteriorizava. Um vigarista, Ugarte,  antes de ser preso, travou o seguinte diálogo com o aparentemente insensível dono de bar:

Ugarte: “Você me despreza, não é?

Rick: “Se alguma vez eu pensasse em você, provavelmente o desprezaria.”

Casablanca foi, sem dúvida alguma, um dos filmes de maior sucesso na história do cinema, laureado com três prêmios Oscar, nada obstante alguns detratores apontarem-lhe algumas imperfeições técnicas.

Partiu de um projeto desambicioso, para acabar sensibilizando os corações do público do mundo inteiro.

Qual a explicação?

O script com um quê de improviso, finalizado no próprio set de filmagens,  conseguiu abarcar vários ingredientes de um bom romance: um grande amor com  mal-entendidos e obstáculos à sua concretização,  corrupção, protagonista com cara de durão a disfarçar um coração sentimental, espírito de renúncia e, claro, política.

Poderia continuar aqui contando o instigante enredo da película mas, pensando bem, que tal vocês assistirem?

O certo é que todo aquele que viveu um grande amor, tal como Rick e Ilza, no fundo tem o mesmo consolo; variando, claro, a localidade: “Sempre teremos Paris”.

* Belmires Soles Ribeiro é Procurador de Justiça/MS e colaborador deste site.

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