Por que Tex Willer tem um lugar na minha estante

Capas de edições do gibi Tex, da Mythos Editora/Reprodução

Cada pessoa tem seu processo próprio de identificação com um livro, uma revista, um jornal, um portal de notícias, um canal de TV, um time de futebol, alguém do mundo da fama ou um personagem de série, cinema ou quadrinhos, dentre as tantas possibilidades que podemos explorar em matéria de afinidade. Mesmo as mudanças de tempo e de idade não conseguem apagar por completo essas referências, embora algumas mudem, sumam ou troquem de lugar com outras.

Vou usar como exemplo do tempo de infância um gibi que me caiu nas mãos nos anos em que passei a me tornar leitor voraz, ainda no começo dos anos 1970: as aventuras de Tex Willer, o mais longevo personagem do faroeste, nascido originalmente na Itália, mas que fez grande sucesso no Brasil entre a citada década e os anos 1980, pelo menos. Ele meio que se ‘infiltrou’ nas preferências populares daquela fase dos leitores de várias regiões brasileiras por conta do sucesso dos filmes de bang-bang no cinema. Era raro alguém, em cidades com muitos cinemas então existentes, não ter ido ver uma película desse estilo.

A propósito dos filmes de faroeste, uma consideração: era natural todo espectador se comportar como ídolo cego das histórias dos personagens ali retratados. Todo mundo, em peso, torcia pelos mocinhos, vibrava com os tiroteios, mortes, ações sangrentas e violentas, que em geral culminavam com centenas de índios mortos e tribos inteiras dizimadas. Era o universo acrítico alimentado pela forma como se contava a história – e que bom que a consciência geral mudou essa percepção, que era minha e de todos os apaixonados pelos caubóis do dito Velho Oeste norte-americano.

Tex Willer era um desses cavalheiros – e exímio cavaleiro também – que impunha a lei nas terras ainda em processo de ‘desbravamento’ (ocupação pura e simples) daquela parte dos Estados Unidos. Ele era a lei, pois foi convertido em agente federal, uma espécie de PF Rural, chamado de Ranger. Teve filho com índia, tinha o índio Jack Tigre como escudeiro, amigo e protetor, além da companhia quase inseparável do rabugento Kit Carson. O filho Kit Willer se preparava para um dia substituir o pai na dinastia que incluía uma perna dos Willer entre os índios Navajo.

Recordações e tais, o fato é que Tex, o personagem dos quadrinhos, faz parte desse meu modo de amar a leitura, os quadrinhos e esse estilo literário. Com as histórias e aventuras dele, aprendi a observar o texto, o enredo e os diálogos inteligentes produzidos durante décadas pelos clássicos desenhistas e produtores italianos Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini. Os italianos, aliás, foram e continuam sendo os melhores criadores do estilo faroeste, inclusive no cinema, embora Hollywood tenha tomado para si o tema.

Mantenho o personagem e parte dos quadrinhos que comprei anos atrás na estante pelo respeito à qualidade das produções, aos roteiros bem elaborados, além da coerência das histórias e os traços marcantes desses gênios dos quadrinhos. Tex, aliás, mudou diversas vezes de editora e quem era fã dava um jeito de comprar os lançamentos e relançamentos dos gibis, fato ocorrido diversas vezes.

Não se trata de fazer um simples revisionismo histórico e negar a importância que aquele estilo literário e suas produções tiveram na formação de gerações de leitores. Do mesmo modo que crescemos amando as criações geniais de Maurício de Sousa, os clássicos da Disney e da Marvel, por exemplo. Podemos até ter deixado de comprar, de apreciar ou de ter em casa, mas é inegável sua presença em nossas vidas.

Por essas e outras, mantenho um cantinho para Tex Willer até hoje na estante de casa. E faço questão de dizer que isso não influi em nada a defesa que faço das questões relativas aos direitos e garantias dos povos originários – de todas as partes do mundo – que eram vítimas preferenciais de Tex e seus amigos, inclusive usavam de sua boa-fé para ludibriar e manipular seus interesses. Era uma forma de contar a história e reproduzir uma ideologia, a da dominação branca.

Não tem mais lugar na história, obviamente, mas fica como registro num espaço literário de quem gosta de ler, apreciar as criações em seu tempo histórico e pode diferenciar o que é realidade de ficção.

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