Por que ler Zola hoje?

Capa de O Abatedouro/Reprodução

Por Dilson Ferreira da Cruz *

A pergunta pressupõe, obviamente, uma dúvida; no caso, relativa à validade, à pertinência da obra de Émile Zola nos dias atuais e, enfim, ao prazer que sua leitura pode proporcionar. A mesma pergunta soaria descabida se tivesse por objeto Dostoiévski, Shakespeare ou Machado de Assis, mas não se tem o mesmo sentimento quando aplicada a Zola. Por que isso ocorre? Por que há dúvidas quanto à qualidade e relevância desse autor? Da resposta dada a essa segunda pergunta depende a resposta à primeira.

A grande escola literária criada por Émile Zola, o naturalismo, não deu bons frutos em terras brasileiras, ao contrário do que ocorreu em Portugal, que teve em Eça de Queiroz um dos maiores escritores de nosso idioma. Sucesso de público e crítica, Eça era assumida e reconhecidamente um discípulo de Zola, o que, aliás, era atestado por Machado de Assis, que demonstrou em uma crítica o quanto O crime do padre Amaro imitava La faute de l’abbe´Mouret, de autoria do pai do naturalismo.[i]

Os frutos minguados do naturalismo em solo nacional não decorrem da falta de adeptos: os imitadores-epígonos do francês – e do português – foram em número razoável e não desprovidos de entusiasmo. Muitos conhecem o mais famoso deles, Aluísio Azevedo, mas com frequência esquecem ou mesmo desconhecem Inglês de Souza, Adolfo Caminha, Domingos de Oliveira, Manuel de Oliveira Paiva, Domingos Olímpio ou Júlio Ribeiro que possuem vários títulos publicados com tiragens significativas nos dias de seu lançamento. Aluísio, por exemplo, vendia muito mais que Machado, de quem foi contemporâneo.

Compreende-se o esquecimento e desconhecimento desses autores tão profícuos, pois dos nomes citados, apenas Aluísio Azevedo logrou compor uma obra de maior vulto, mas ainda de alguns altos e muitos baixos e que teve em O cortiço seu ponto um pouco mais elevado. Em geral, os demais escritores produziram um romance mediano, se tanto, cercado por obras claramente medíocres, que do naturalismo absorveram apenas seus traços mais aparentes e periféricos sem penetrar-lhe a essência. Um exemplo é Júlio Ribeiro, de A carne,e seu gosto pelo escabroso, pelo escândalo, pelas paixões do baixo-ventre. Já a exceção do grupo é Manuel de Oliveira Paiva, que produziu uma obra notável, Dona Guidinha do Poço, de 1891, mas que ficou inédita até 1952 em razão da morte prematura de seu autor. Enfim, o naturalismo não nos legou um grande escritor como o fez o romantismo com José de Alencar e Alvares de Azevedo; o pré-modernismo, com Lima Barreto e Euclides da Cunha; o modernismo, que nos deu Mario de Andrade, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, dentre tantos outros. Isso sem esquecer que o realismo gerou o maior romancista da língua portuguesa, e um dos grandes da literatura universal: Machado de Assis, que, aliás, tinha lá suas reservas em relação ao naturalismo, embora admirasse Zola a ponto de reproduzir em Esaú e Jacó uma passagem inteira de O abatedouro.[ii]

Antes de avançar, convém reparar uma injustiça: na verdade, o naturalismo nos deu, sim, um grande escritor, e dos maiores: Euclides de Cunha. Ocorre que Euclides não é considerado naturalista, mas, como ficou dito, pré-modernista. Contudo, seu magistral Os sertões, no qual tanto beberam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, além de Mario Vargas Llosa, segue bem de perto os ensinamentos de Zola, como demonstra a divisão do livroem três partes, denominadas A terra, O homem e A Luta, que equivalem ao meio, à raça e ao momento, as três variáveis que para Zola explicavam a ação humana, como se verá a seguir.[iii]

Feito o reparo, voltemos à pergunta que abre este texto.

A pequena estatura das obras classificadas como naturalistas e a intima ligação dessa escola com Émile Zola parecem, portanto, explicar a desconfiança e o desdém com que as editoras em geral têm tratado o autor de Germinal – o que não acontece na França e na Europa, onde Zola continua a ser reeditado com grandes tiragens. Mas não se pode culpar exclusivamente os autores nacionais pelo fracasso do naturalismo; é preciso ver que os pressupostos dessa escola, todos oriundos do positivismo mais arraigado, também envelheceram. O projeto de Auguste Comte, de fazer das artes e das ciências humanas um simulacro das ciências naturais, deu em pouco, assim como a ideia de fazer da arte um laboratório de experimentação mostrou-se, na prática, uma quimera.

Então, ao que tudo indica, caminhamos para responder negativamente à questão acima: não valeria a pena ler Zola hoje. Mas isso não é verdade, o que ficou dito responde apenas à nossa segunda pergunta, relativa às desconfianças em relação ao autor. A resposta certa à primeira pergunta é: sim, continua importante e, acima de tudo, prazeroso ler Émile Zola hoje, pois sua obra tem muito a oferecer.

Zola: consagrado intelectual francês em retrato clássico/Reprodução

Autor de romances, contos, peças de teatro e artigos diversos, Zola tem, de fato, uma extensa produção que se notabilizou sobretudo por Os Rougon-Macquart, série de vinte romances que, como diz o subtítulo, narra a História natural e social de uma família sob o Segundo Império (francês).Nessa obra colossal em todos os sentidos, o autor, fiel a seus princípios, procura mostrar, tal como Euclides da Cunha fazia na mesma época, a influência da raça, do momento e do meio na ação humana. Para tanto, ele mantém a raça e o momento quase inalterados, dado que todas as vinte tramas envolvem membros da família Rougon-Macquart e se passam em um curto período da história francesa: de 1850 a 1870, quando perdurou o Segundo Império francês, que, na verdade, era uma ditadura governada por Napoleão III. Por outro lado, a terceira variável da equação, o meio, altera-se sensivelmente em cada romance, pois cada um deles aborda um segmento diferente da sociedade francesa, o que faz com que seus protagonistas sejam padres, latifundiários, banqueiros, lavadeiras, prostitutas, maquinistas, lojistas, comerciantes, militares, mineiros, pintores etc… Ou seja, praticamente não há segmento ou grupo social que Zola não tenha abordado em seus romances, sempre com profundo conhecimento de causa. Por exemplo, para escrever Germinal, ele desceu às minas de carvão; para compor A Besta Humana, passou dias a bordo de trens e estações ferroviárias; instalou-se no mercado central de Paris para escrever Le ventre de Paris; estudou a fundo o dia a dia das lavadeiras para tecer a trama de O Abatedouro;valeu-se de sua amizade com pintores impressionistas e de seu conhecimento dessa escola para compor L’oeuvre, e assim sucessivamente.

Se fosse apenas isso, Zola poderia ser considerado um sociólogo avant la lettre[iv], mas talvez de menor expressão literária. Ocorre que ele foi também profundo conhecedor das paixões e da mente humanas, de seus desejos, temores, vícios, frustrações e, eventualmente, virtudes. Seus romances vão além da análise da sociedade e fazem um profundo mergulho na natureza do homem, provocando em seus leitores, como afirma Aristóteles em sua Poética, terror e piedade ao verem-se refletidos em suas personagens e seus dramas. Assim, embora os pressupostos em que Zola se baseia tenham se mostrado equivocados, isso em nada abala a atualidade de seu texto: pouco importa que a política, os costumes, organização do trabalho e a tecnologia tenham transformado a sociedade ao longo dos cerca de 150 anos que nos separam de suas tramas: o homem continua o mesmo, sujeito às mesmas paixões, às mesmas fraquezas.

Certamente, a análise do homem e da sociedade bastariam para justificar a leitura desse autor em nossos dias. Mas um terceiro e fundamental aspecto merece ser destacado: a qualidade estética de sua obra. Uma rápida consulta aos dicionários franceses basta para comprovar a frequência com que sua escrita é utilizada para abonar o bom uso e a boa gramática do idioma francês. É que embora Zola desejasse imprimir em sua obra um caráter intrinsicamente científico, o leitor depara em quase todas as páginas com um texto de grande lirismo, intenso, que nos emociona, fazendo-nos chorar com suas personagens ou alegrarmo-nos com elas nos raros momentos em que encontram a felicidade. Trata-se de um texto que pulsa a cada parágrafo, que ora nos oferece descrições belas e aprazíveis, ora nos confronta com a miséria humana e ora reproduz diálogos duros, cômicos ou de grande doçura. Nesse momento, é impossível não citar O abatedouro, em que a linguagem dos operários e dos excluídos combina-se com o notável estilo do narrador e seu magistral domínio do discurso indireto livre para fazer da linguagem a protagonista desta obra prima que tanto emocionou Stéphane Mallarmé. Por tudo isso a leitura de Émile Zola faz-se não apenas prazerosa, mas extremamente necessária e recompensadora. [v]


[i] Ver a crítica de Machado intitulada “Eça de Queirós: O primo Basílio”, dedicada a esse romance e publicada na revista O cruzeiro, nas edições de 16 e 30 de abril de 1878.

[ii] Trata-se do capítulo IV, A missa do coupé.

[iii] Recorde-se ainda que Euclides cita Hippolyte Taine, o grande mestre de Zola, nas notas preliminares de Os Sertões.

[iv] Conhecem-se os elos de Zola com Auguste Comte, mas deve-se recordar que o escritor também tinha laços com outro pai da Sociologia, Émile Durkheim, com quem partilhou, além do nome, da nacionalidade e do tempo, a defesa do capitão Alfred Dreyfus, injustamente acusado de ser espião alemão..

[v] Os interessados pela obra de Zola encontrarão, em português, O abatedouro (EDUEL), A besta humana (DISAL),ambas traduções de minha autoria, Germinal, Nana, O dinheiro e A felicidade das damas.

* Dilson Ferreira da Cruz formou-se em Ciências Econômicas pela USP, em Letras pela mesma instituição, pela qual é doutor em Semiótica e Linguística Geral. É autor de O enunciador dos romances de Machado de Assis (EDUSP, 2008) e Trinta crônicas irreverentes (DISAL, 2007). Organizou as coletâneas, Trois contes (Éditions Chandeigne, 2010), sobre Machado de Assis, e L’homme qui parlait javanais, (Éditions Chandeigne, 2010), sobre Lima Barreto. Traduziu dentre outros, A Besta Humana (DISAL, 2014) e O abatedouro (Eduel, 2019), ambos de Émile Zola, e Sobre o sentido 2, ensaios semióticos (EDUSP, 2015) e História da virgindade (Contexto, 2016).

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