O universo humano na crítica mordaz de Jonathan Swift

O escritor irlandês Jonathan Swift deixou o mundo no dia 19 de outubro de 1745, mas a visão crítica sobre o universo humano nunca foi a mesma desde que seu livro mais famoso – As viagens de Gulliver – espalhou um pensamento pessimista sobre o comportamento social – notadamente entre os ingleses do seu tempo. Seu estilo narrativo com Gulliver chegou a enganar muitos incautos por se aproximar do que seria uma história infantil, mas ele tinha grande aversão a contatos com alguns tipos humanos, principalmente crianças. O seu alvo literário, todavia, nada tinha a ver com meninos ou meninas, mas a forma como a mesquinhez e a postura dos adultos transformava a convivência humana numa sucessão de exemplos de atraso.

Poeta, religioso, ambicioso, confuso e claramente antissocial, Swift usou seus personagens para garantir a sobrevivência nos momentos mais difíceis da vida pessoal, para esconder seus problemas de convivência e chocar seus conterrâneos – ingleses ou irlandeses – com um pensamento desolador em relação ao futuro. Fazia questão de demonstrar o seu descontentamento com quase tudo o que via, e por isso pagou um alto preço nas pretensões religiosas, sendo até privado de condições pessoais para viver dignamente durante um longo período.

Mas o sucesso de As Viagens de Gulliver – até hoje adaptado para o cinema, o teatro e traduzido em todo o mundo – fez dele, ao mesmo tempo, uma persona non grata nos círculos políticos londrinos e um celebrado crítico social do seu tempo. A figura do médico Lemuel Gulliver, cuja adaptação às tarefas profissionais em terra era difícil e praticamente incontornável, foi a maneira como o escritor teceu seus principais roteiros carregados de mordacidade à vida social. A grosseria, a pequenez, a maneira rude de se portar e as atrocidades humanas estavam em todos os passos do personagem. As disputas de poder irritaram quem controlava a política de então, pois Gulliver visitou lugares onde os poderosos eram simplesmente ridículos e infames.

O livro, dividido em quatro partes, tem dois especialmente interessantes do ponto de vista da análise política: a viagem de Gulliver a Lilipute, por exemplo, é o retrato de pequenas disputas de poder ocasionadas por inutilidades, ao retratar o personagem como um gigante num país de criaturas de 16 cm de altura; já a passagem dele por Brobdingnag é o inverso, quando os moradores do lugar são gigantes várias vezes superiores a ele em tamanho, mas imersos em disputas bobas e inúteis, carregados de soberba; e no terceiro livro, na viagem à ilha flutuante de Laputa, Gulliver conhece um povo que pouco realiza e pensa em excesso.

A viagem ao país dos Houyhnhnms é, sem dúvida, um dos melhores momentos do livro de Swift, pois é seu estado de perfeição na crítica mordaz ao comportamento humano: os homens são a pior espécie do mundo, avalia o viajante Gulliver, ao se encantar com os cavalos inteligentes e sentir nojo dos (humanos) Yahoos. Ali, o autor devota seu amor a uma raça de animais que não engana ninguém, não conhece maldades e não entende o comportamento nocivo dos seres “humanos”. Embute, claro, o sentimento que Swift carregou em sua obra e sua visão particular do mundo.

Noves fora a personalidade rabugenta dele, é inegável sua contribuição para as narrativas brilhantes, carregadas de fantasia, detalhes ricos e que prendem o leitor o tempo inteiro pelo inusitado – um estilo muito popular na época em que viveu. Todo mundo queria saber se aquilo que Gulliver via e vivia era real, o que o narrador (ele próprio, na pele do médico viajante) garantia o tempo inteiro ser a mais pura verdade. Sua prosa transporta quem lê para lugares imaginários, magníficos, com povos diferentes e modos de vida que chocariam os humanos em seu mundo pequeno em todos os sentidos.

É dessa perspectiva que a obra de Jonathan Swift certamente nunca perderá a atualidade e o vigor: fazer com que a imaginação não se deixe suplantar pela mesmice, que a sociedade necessita pensar (e repensar) seu funcionamento e que o dito “conservadorismo” – tão criticado por ele na prática, em outros textos e livros – era uma forma de hipocrisia dentre as tantas que se mantém até hoje.

Portanto, ler Gulliver é um exercício poderoso de busca de novos mundos. Seria de bom grado que todas as famílias um dia lessem as aventuras imaginadas por Swift como um coisa e aprendessem lições que a obra embute. Cada um saberá descobrir quais a cada vez que ler, reler ou observar o texto nas suas entrelinhas e na parte subliminar das narrativas.

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