Belchior sempre soube que os poetas são mais felizes

Música celebra 75 anos do nascimento de Belchior/Divulgação

Podemos imaginar os poetas como seres que carregam em seus ombros as tristezas do mundo. Cada um com seu fardo, transforma a vida bruta das pessoas em coisas palatáveis, em fantasias e devaneios. Enchem de esperanças os abandonados pelo amor e até aqueles tomados de sentimentos ruins. Os duendes da poesia diluem tudo em poções mágicas, batem, mexem, remexem e espalham seu aroma por onde quer que as pessoas andem.

A poesia, como se sabe, serve apenas para isso: traduzir sentimentos. O mais é transformação, criação, engenharia, fabricação, indústria leve ou pesada, subir e derrubar paredes, erguer edifícios e construir sonhos materiais. Os poetas não estão preocupados em construir nada. Querem apenas seu tempo para que alguém preste atenção naquilo que inventaram com a boca e com os olhos.

Nascido há exatos 75 anos, o cearense Antônio Carlos Belchior foi esse tipo de poeta predestinado a construir apenas versos, mesmo tendo sido obrigado por um desígnio anterior a algum “trabalho concreto”. Fez o caminho de muita gente que precisou estudar coisas materiais para o que chamam de “garantir o sustento”, por meio de uma profissão. Talvez ele soubesse desde cedo que não havia profissão mais dura e cruel do que aquela que abraçaria – a criação poética.

Na senda dos demais pensadores desse ramo do trabalho mental, Belchior fugiu do mundo que lhe reservaram lá atrás. Correu perdido entre galos, noites e quintais; nadou de braçada no Mucuripe e foi rabiscar nas paredes do tempo; absorveu crises de ansiedade de muita gente para fazer delas suas amigas e suas dores; não quis saber se isso era bom ou ruim, pois sabia que não poderia construir edifícios ou casas, mas poderia destruir sonhos.

Pelos caminhos tortos de suas letras, as facas poderiam ser afiadas, mas não eram obrigadas a dilacerar além de corações. Nem serviam para moldar as gerações. Repetir o passado. Se esconder dos medos. Criar mundos e recriar lugares secretos, escondidos. Ninguém saberia os recantos onde os tesouros estariam enterrados. Para tanto, uns versos e tudo sumia, como num passe mágica.

Partindo do princípio da felicidade dos poetas, Belchior correu mundos, abraçou Elis Regina, distribuiu beijos por meio de letras, fez de Raimundo Fagner um outro ser ao sorrir ao seu lado e mandou tudo às favas para recomeçar. E desapareceu no mundo como quem não queria mais perder tempo com quem desdenha das velhas roupas coloridas dos hippies de outrora. Nunca se imaginou mandando flores para o inimigo, pois seu desafio não era vencer, mas continuar vivo, falando, cantando, escrevendo e descrevendo como era o paraíso dos poetas loucos.

Um rapaz que não tinha dinheiro, nem continente para si, nem terras. Desejava sempre ter o beijo marcado de batom na camisa. Para apaziguar seu coração selvagem, refletia isso nos demais corações que encontrava pelo caminho. Por isso Belchior veio ao mundo, 75 anos atrás: para ser aquilo que ninguém sabe ser: poeta e ser gente ao mesmo tempo.

Tente viver de poesia e tente viver apenas sendo uma pessoa comum. Depois disso, quem sabe, conseguirá entender o que faz os poetas felizes. E não terá dificuldades para incorporar o espírito multidimensional de Belchior, que vive.

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