Ojuara e outras fachadas do machão retratadas pelo cinema brasileiro

Cena do filme O Homem Que Desafiou o Diabo/ Divulgação

A ciência afirma por meio de bases sólidas e todo mundo está careca de saber, na prática, que o protótipo do valentão que não tem medo de nada e nem de ninguém – o clássico ‘machão’ – é uma fachada para a masculinidade frágil. O homem rude, claro, existe em todo lugar do mundo, mas a tradição brasileira, transposta para o cinema ou folhetins televisivos, aponta que o locus tradicional desse tipo de figura se divide entre as regiões Norte e Nordeste do país,

Embora na maioria das vezes envoltos em auras caricatas, a partir de pessoas reais ou fruto das tradições orais populares, a construção dessas criaturas regionais não encontra explicação meramente na reprodução do comportamento paterno ou familiar dessa ou daquela porção geográfica nacional. Tem a ver diretamente com o medo permanente do homem de se assumir como um ser com seus medos, defeitos e fragilidades. Grosso modo, esse é o mesmo mecanismo dos heróis fabricados e popularizados, principalmente pela lente do cinema norte-americano.

No cinema brasileiro, o valentão já foi tantas vezes retratado que é fácil identificar alguns dos tipos que marcaram historicamente nossa produção na telona. E esse tipo de figura, naturalmente, vem associado a comportamentos que misturam a força, a brutalidade, a valentia desmedida e a capacidade ilimitada de conquistador e malandro com as mulheres. Raramente o machão do cinema ambientado nos cenários nordestinos não é mulherengo – mesmo os matadores e os aventureiros sem lugar.

Tomemos como exemplo dois filmes nacionais produzidos entre 2003 e 2007: Lisbela e o Prisioneiro e O Homem Que Desafiou o Diabo. No primeiro, um trapaceiro profissional, Leléu, anda de cidade em cidade, no interior do Nordeste, vendendo sonhos, milagres impossíveis e se envolvendo com mulheres a cada viagem. Vivido pelo ator Selton Mello, o personagem do filme dirigido por Guel Arraes, tem como antípoda o matador profissional Frederico Evandro, interpretado de maneira magistral por Marco Nanini. Ambos estão em campos opostos do amor e do ‘trabalho’, mas se cruzam quando se trata do modo de lidar com mulheres: enganar, conquistar e tentar mantê-las por perto, cada um do seu jeito frágil e caricato.

Já em O Homem Que Desafiou o Diabo, o machão Ojuara aflora após a criatura eternizada pela atuação de Marcos Palmeira ser obrigado a se casar com uma donzela interiorano, do qual vira escravo, além de ser tratado como serviçal pelo sogro. Antes Zé Araújo, ele se revolta após ser ridicularizado na cidadezinha e, após demonstrar uma valentia até então desconhecida, inverte as letras do sobrenome e passa a se chamar “Ojuara”. Passa a ter como lema “não ter medo de nada e nem de ninguém”. A película foi feita com base no saboroso livro do potiguar Nei Leandro de Castro, adaptada para o cinema pelo diretor Moacyr Góes.

Em Lisbela e Ojuara, o cinema mostra lances engraçados pelo tom de caricatura regional, ao mesmo tempo em que critica sua persistente reprodução por meio do discurso dos que insistem em manter a fachada do machão. A preocupação do mundo real, naturalmente, não é com um tipo como Ojuara ou um trambiqueiro meio doce e meio ingênuo como Leléu, mas com a realidade do machismo que sustenta o feminicídio e demais crimes cometidos por homens, seja onde for. O retrato desses tipos de figuras se ancora não pelo que é mostrado nas obras de ficção, mas no discurso e nas práticas criminosas dos ditos machões.

E, sabemos, esse discurso de comportamento agressivo masculino não se restringe ao cinema, mas está encrustado na música, nas relações familiares e de poder, sendo levados à prática nociva e criminosa que faz do Brasil um dos países com elevados índices de assassinatos de mulheres por seu companheiros ou ex-companheiros. Os caras não aceitam o término dos relacionamentos e cometem crimes bárbaros, em nome da odiosa ‘honra’ – que embute sua fragilidade e se transforma em crime.

Temos, sem dúvida, inúmeros filmes que retratam essas situações e esses tipos, mas é a mudança de comportamento não acontece se eles forem tirados de cena. A mudança de consciência pode vir, também, do ridículo a que se busca expor esses tipos. E, obviamente, pela aplicação rigorosa das leis que combatam esse tipo de crime. Por fim, com formação para que homens entendam a necessidade de serem homens, e não meros reprodutores de comportamentos criminosos ou vergonhosos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s