A linguagem universal da arte mineira de Fernando Lucchesi

Gravura de Fernando Lucchesi/Coleção Pessoal/Reprodução

O artista plástico mineiro Fernando Lucchesi tem seu nome e seus trabalhos espalhados por galerias do Brasil e do mundo, além de ser figura com participação em diversas bienais de arte daqui e de fora, mas seus olhos estão presos a Minas – especialmente às cidades históricas como a sua querida Ouro Preto. E seu afeto pelo cheiro, pelas cores e pelo passado regional – enquanto saracoteia por salões fora do país – não tem nada de contraditório, pois na carreira deste autoditada, iniciada 44 anos atrás, sobram pistas da versatilidade e do seu gênio inconformado com o estático.

Figura que parece não fixar o olhar em muita coisa enquanto conversa com você, na verdade revela um estilo tímido e leve, como quem está pensando no próximo quadro que pintará, na gravura ainda não terminada, no painel, numa instalação ou simplesmente em deixar Minas por uns tempos e viajar o mundo. Ou passar temporadas entre Belo Horizonte ou Nova Lima – onde mantém ateliê – e Ouro Preto. Tudo depende do clima e da vontade de criar que empurra Lucchesi para mais uma aventura visual.

Relato o prazer e o modo curioso como o conheci pessoalmente, durante uma viagem a Ouro Preto, em 2018: numa daquelas temporadas geladas de julho, a cidade infestada de turistas e, por acaso, entram duas figuras no restaurante onde eu almoçava com minha companheira. Um cara com aspecto jovial encostou na nossa mesa, acompanhado de outra amiga que havíamos conhecido recentemente na cidade. E foi entre vinhos e risadas que Lucchesi disse quem era, sem dizer exatamente o que fazia. Até riu da nossa cara, mostrando quadros que pintara, expostos ali: “Posso pagar a conta com esses quadros”, gargalhou, ao se referir a algumas de suas obras.

A simplicidade, misturada ao eruditismo negado com veemência por ele, encarnavam traços de uma personalidade que pensa em arte o tempo todo. Na época, ele estava passando mais uma temporada em Ouro Preto, cidade onde morou por diversas vezes e que escolheu como temas de muitas de suas criações. E, surpresa ainda mais agradável: ele nos convidou para conhecer seu ateliê de então, quando nos presentou com a gravura que ilustra a abertura deste texto. Igrejas, casarios, flores, muitas flores.

Nessa linha, o jornal mineiro O Tempo destacou uma exposição dele intitulada Flores para Guignard, que ficou em cartaz até setembro deste ano na Galeria de Arte Errol Flynn. Trata-se de uma coletânea de 41 telas, produzidas pelo artista em homenagem ao seu inspirador e mestre modernista fluminense, com coração também mineiro, Alberto da Veiga Guignard (veja a matéria aqui).

Fernando Lucchesi em exposição montada em Belo Horizonte neste ano/OTempo/Reprodução

Seu lado humanista, sua sensibilidade para lidar com o passado das cidades históricas ao retratar seus espaços, sua potência criativa de imaginar e colocar de pé instalações de porte de tempos em tempos, faz com que seu nome seja uma garantia de permanência da arte mineira, mas com sotaques variados. Lucchesi sabe a linguagem regional e do mundo porque captou o que arte tem de melhor: a universalidade. E isso caracteriza seu trabalho de grande expressão e diversidade.

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