Dramas reais de sobrevivência e solidão

Foto por Pixabay em Pexels.com

O principal mérito do filme Contra o Gelo (Netflix, 2022) não é contar a história real da expedição de 1909 que garantiu à Dinamarca a supremacia sobre o território da Groelândia – o que é feito de modo angustiante e com locações de tirar o fôlego – e sim mostrar ao espectador que algumas explorações ao redor do globo ocorreram sem heroísmo, mas com muita persistência. Fortes doses de loucura e desprendimento, indo além dos limites da condição humana em ambientes hostis, o que resultou em episódios pujantes da luta pela sobrevivência. A película da Netflix vai na mesma linha do que conhecemos no cinema por meio de dramas como Os Sobreviventes dos Andes (1976) e o Regresso (de 2015), um clássico ganhador do Oscar com Leonardo DiCaprio.

Cada um a seu modo, os sobreviventes de expedições – ou vítimas de desastre aéreo, como no caso do time de rugbi do Uruguai que caiu na Cordilheira gelada – vivem o drama da solidão em lugares onde as chances de voltar com vida são mínimas. Essa condição se agrava conforme o local, a disponibilidade de comida e o clima local. O instinto de sobrevivência é, quase sempre, o que conta para garantir a volta – ou não – de muitas dessas vítimas ou aventureiros.

O ‘animal’ que habita em nós é chamado em situações como as retratadas nos filmes em questão. Os relatos nos quais se basearam as produções cinematográficas, de uma maneira ou de outra, mostram que o medo, o nojo e as restrições que temos em nossas casas ou no conforto do nosso cotidiano simplesmente somem quando o que está em jogo é continuarmos vivos. No fundo, as histórias parecem se repetir como se fossem meros relatos de sobrevivência, explorados ora como dramas humanos, ora pelo que ficou conhecido como “cinema-catástrofe”. Na prática, nos mostra do que somos capazes quando o perigo nos ronda.

Ainda acerca da solidão, o filme inspirado na expedição do dinamarquês Ejnar Mikkelsen e do mecânico de navios Iver Iversen ao Ártico nos coloca diante de situações nas quais não contamos com ninguém – ou quase ninguém. E nos faz refletir sobre até onde vamos a cada dia que se passa e as chances de sobrevivência se reduzem. Agora coloquem isso no caso real vivido pela dupla no continente gelado por quase 900 dias e teremos a dimensão da perda de determinados sentimentos tidos como ‘humanos’. O mesmo ocorreu com vários dos que sobreviveram à tragédia dos Andes, bem como pelo caçador vivido por DiCaprio.

Naquele universo sem ter a quem recorrer, todos os prazeres banais do cotidiano somem e dão lugar a uma busca diária por comida, água, proteção contra o frio e até animais de grande porte, sem esquecer do fantasma da morte a cada passo dado. O ser humano, talvez, tenha a mesma sensação de outros animais em condições normais, sob ataque dos seus predadores naturais ou de outros homens. É o que, genericamente, chamamos de ‘lei da selva’. A diferença brutal é que temos uma chance pequena de sobreviver no mundo que consideramos inóspito, enquanto diversas espécies sobrevivem naturalmente nessa condições.

Daí tiramos a lição básica do nosso tamanho e importância diante da imponência do mundo natural: quase nenhuma. Vale a pena ver para refletir sobre o que essas experiências nos ensinam, do alto dos nossos pequenos universos de arrogância e falta de noção.

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