As reflexões de mundo entremeadas de humildade no universo de Gilberto Gil

O cantor e compositor Gilberto Gil garante ter-se tornado uma pessoa redundante e repetitiva, que passou a circular por um universo restrito de pensamentos, elaborações musicais e intelectuais. É por esse caminho que ele inicia a entrevista concedida ao ator e diretor de cinema Lázaro Ramos, postada na plataforma Amazon Music – com duração de pouco mais de uma hora (clique acima para assistir).

A despeito do seu gênio criativo histórico, ímpar na música brasileira, Gil destila humildade e uma rara compreensão do mundo – e do seu mundo em particular – ao se colocar como um sujeito que reconhece suas limitações nesta quadra da existência, ao completar 80 anos. Entre idas e vindas, provocações e surpresas do entrevistador, ele demonstra uma sensibilidade que ajuda a compreender como isso se fez presente no seu vasto repertório artístico.

Quem transitou com ele e seus parceiros de criação (da Bahia, do Brasil e do mundo) certamente entenderia esse seu jeito melhor do que o espectador da entrevista, posto diante de um ícone cultural dotado de grandeza humana impressionante. Que fala de fragilidades, alegrias simples, sem rebuscamento linguístico, entremeando percepções de um brasileiro típico, que ama o país, a cultura, nossas origens, o sincretismo e a pluralidade característica dos trópicos. Trata-se, no fundo, de uma conversa poética, serena, compassada, com delicadezas, pitadas de ingenuidade e muita generosidade.

Os sabores musicais se misturam a saberes que ele diz pouco servirem para seu presente – como se quisesse enfatizar que nem tudo o que fez, disse ou produziu foi tão importante a ponto de mudar o mundo. Gil aposta na diversidade e nos ramos familiares, culturais e na concepção própria de brasilidade que desenvolveu para pensar o futuro. Pensa e discorre sobre angústias e como encara a proximidade com seu fim físico, da sua existência terrena. Não passa pela sua cabeça uma presença do seu nome e das suas composições como elemento marcante da vida nacional quando se for. Entende sua finitude e aceita isso com uma naturalidade que impressionaria quem o vê de fora e o admira em profundidade.

Numa sociedade marcada pela necessidade angustiante e opressora de aparecer, demarcar território, mostrar o que faz e o que não faz, Gilberto Gil aos 80 anos gargalha e sorri quando colocado como esse ser excepcional que não encontra em si – mesmo que isso não signifique desconhecer seu papel humano e criador na área em que se fez historicamente.

Lázaro Ramos se perde e se encanta com o astro com quem conversa e busca entrevistar, e encontra ali um admirador, um parceiro, pai, avô, observador atento do cenário cultural e político nacional e internacional, construído na simplicidade e no prazer comum. Que quer mais ser uma referência para os seus, as gerações de Gils que se forma e toma a dianteira poética e musical familiar, orgulhoso por dividir essa tarefa com a companheira Flora.

A principal reflexão dele que pude capturar tem a ver com a necessidade de nos vemos com menos importância do que achamos que temos para o mundo e para as demais pessoas. Circulamos, de fato, em curtos espaços, por um tempo, por uma existência. Isso ele diz com todas as letras, repetidamente, como fez questão de frisar ser esse o seu compasso existencial. Tanto que, no final da entrevista, ele revela ter aderido à composição meramente instrumental – “por ter pouco a dizer”. Ou, noutros termos, ter quase nenhuma novidade a anunciar ao mundo, coisa que revela seu caráter humano, sincero e dotado de grande espírito, mesmo que isso aparente entrar em choque com o gênio humano visto de fora.

Prepare-se para ver um Gilberto Gil que saiu do universo poético e vestiu sua capa de gente. Que já foi o Super-Homem, na canção, quando tinha que ser, e voltou ao ´normal´ que sempre foi. Que genial!

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