Pollan e a abordagem corajosa acerca dos efeitos, controvérsias e estudos contemporâneos com as substâncias ‘psicodélicas’

Jornalista e escritor Michael Pollan: da comida saudável ao universo psicodélico/Divulgação

O jornalista, escritor, pesquisador e professor Michael Pollan, de 65 anos, realizou, diante das câmeras, diversos experimentos com substâncias psicoativas proibidas ao redor do mundo – as chamadas ´drogas psicodélicas’ -, como LSD, Psilocibina, MDMA (Ecstasy) e Mescalina. Seu roteiro investigativo, desta vez, é parte de uma minissérie na plataforma Netflix, adaptada do seu livro, o best-seller Como Mudar Sua Mente. As considerações que ele faz, o apanhado histórico, as intervenções dos seus entrevistados e os experimentos pessoais mostram uma abordagem corajosa e inteligente do tema em sua complexidade e alcance ao longo do tempo.

Escritor de sucesso, com livros premiados e uma carreira sólida, Pollan é um norte-americano curioso que se move por ambientes acadêmicos com larga desenvoltura. É o que se percebe acompanhando os quatro episódios da série documental protagonizada por ele na plataforma de streaming: perguntas, respostas, novos questionamentos e uma rica ilustração gráfica e documental com o objetivo de desvendar o que está por trás do que se chama “o renascimento dos psicodélicos”. A BBC Brasil publicou, em 2021, uma matéria muito interessante nessa linha, mas que não cita a produção de Pollan na Netflix, que é de 2022 (veja aqui a reportagem da BBC).

Das quatro substâncias acima citadas, Pollan experimenta três e descreve os efeitos de cada uma, além de acompanhar etapas de testes clínicos feitos por cientistas em grupos de pacientes que usam esses psicotrópicos em pesquisas cujo objetivo é atestar seu uso no tratamento de doenças como alcoolismo, depressão, TOC, como suporte a pessoas com câncer terminal, além de diversos transtornos. Ele faz questão de mostrar o poder de alteração mental dessas substâncias não para atrair curiosos ou aumentar a conhecida fama destas, mas alertar que não se pode criminalizar a natureza ou as plantas, como querem os grupos que defendem cegamente a “guerra às drogas” (ver mais adiante do texto).

A cada droga psicodélica testada por ele, ancorada em animações gráficas, a narrativa busca um fio histórico sobre como tal produto foi colocado na lista de proibidos pelas autoridades ao redor do mundo, em particular nos Estados Unidos. As motivações políticas, militares e ideológicas, no geral, se entrelaçam em cada etapa que levou à escalada proibicionista dos psicodélicos.

O cuidado que Michael Pollan toma, e que fica nítido em todos os momentos, diz respeito aos mecanismos cientificamente estudados, desde que muitos desses compostos – produzidos a partir de plantas foram sintetizados – até seu uso medicinal (no princípio), recreativo (a partir dos anos 1960) e laboratorial (em anos recentes).

Para tanto, ele entrevista especialistas, cientistas responsáveis pelos processos de sintetização de drogas como o LSD e o MDMA (Ecstasy), acompanha testes laboratoriais e etapas de uso destas por pacientes em consultórios de psicanalistas. Esses depoimentos ampliam o espectro do tema pesquisado e mostram como o documentário não faz apologia ao uso dessa ou daquela substância, e muito menos se preocupa com o que pensam determinadas autoridades a seu respeito, visto que o proibicionismo – que se fortaleceu nos EUA entre os anos 1960/70 – trouxe forte carga de intervenção estatal por questões comprovadamente ideológicas.

É notória a intenção da minissérie de desmistificar o que se convencionou chamar de “guerra às drogas”, mecanismo que envolve recursos, governos, instituições de Estado e forças de segurança ao redor do mundo, sob patrocínio ou liderança norte-americana. Essa “guerra” visa o “combate sem trégua” ao tráfico, comércio e uso de entorpecentes no mundo inteiro. E isso, por tabela, atingiria o que, no passado, foi um grande avanço científico no tocante ao estudo clínico do uso de certas drogas para fins medicinais. Dessa forma, fica claro que a empreitada de combate ao tráfico e assemelhados teria ofuscado e criminalizado substâncias que poderiam estar salvando vidas ou, no mínimo, servindo de suporte a tratamentos médicos durante décadas em voga em várias partes do planeta.

Fica ao espectador a tarefa de descobrir o fio que liga o passado ao presente desses poderosos componentes capazes de alterar os estados naturais de consciência, seja quando usados de modo experimental por pesquisadores, artistas e intelectuais ou por representantes de culturas milenares, notadamente no México e em países da América Latina, bem como em outros cantos do mundo. Nesse ponto, o destaque do trabalho documental fica por conta da passagem que mostra o culto ao uso religioso – e até recreativo – de diversas variedades de cogumelos e suas interações mentais quando mastigados ou ingeridos em forma de infusões.

A ideia da retomada do debate em torno do uso dos psicodélicos não é que haja uma liberação do seu uso por qualquer um, mas que sejam conduzidas pesquisas que comprovem sua eficácia – ou não – em tratamentos médicos. O uso pessoal ou religioso, como se sabe, proibido ou alvo de tentativas de proibição por vias legais, continuará a existir como sempre foi desde que estes passaram às listas de classificações (proibições) pelas agências de regulação de saúde.

Pollan mostra os esforços tocados por diversos cientistas e ativistas para provar que é possível retomar as pesquisas para fins terapêuticos, dando destaque ao projeto Maps, tocado por Rick Doblin, um dos pioneiros do uso do LSD no começo dos anos 1970.

A organização liderada por Doblin pesquisa, arrecada fundos e realiza estudos que visam liberar os psicodélicos numa atmosfera diferente daquela em que estes surgiram e se tornaram “populares” nos círculos da contracultura. Os estudos, lutas nessa linha e seus passos ainda estão em processo de elaboração. Não sabemos no que darão, mas o documentário Como Mudar Sua Mente dá pistas de que nada será como foi nos idos das conturbadas décadas de 60/70 do século 20.

EM TEMPO – A Netflix também produziu outra série documental inspirada no best-seller anterior de Pollan chamado Cozinhar – Uma História Natural da Transformação. A produção foi ao ar em 2016 na plataforma. Desde sempre, seu norte foi mexer em temas ligados a proibições ou que geram debates acalorados, no mundo acadêmico e na vida real das pessoas pelo mundo afora.

2 comentários sobre “Pollan e a abordagem corajosa acerca dos efeitos, controvérsias e estudos contemporâneos com as substâncias ‘psicodélicas’

    • Caro Oswaldo, obrigado pelo comentário! Faz todo sentido sua observação: precisamos ver investimentos maiores nesse tipo de pesquisa, ao redor do mundo e no Brasil, além de programas públicos e no ambiente corporativo que visem ampliar o debate acerca do uso dessas substâncias como suporte a processos de cura e afins. As proibições históricas às pesquisas e seus usos no plano medicinal, que atenderam a estratégias de governos, precisariam ser revistas, pois não se justifica impedir o uso clínico de substâncias que podem salvar vidas, melhorar a vida das pessoas ou servir de apoio a outros tratamentos. Abraços!

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