Quando a hiperprodutividade e a competição exacerbada nos consomem

Foto por Oliver Petry em Pexels.com

Não é de hoje que o mundo do trabalho, a área de recursos humanos, o ambiente acadêmico, os economistas, os governos e as corporações discutem a temática da produtividade e a necessidade crescente de que siga aumentando. Isso porque esta seria o elemento central dos processos de qualificação/otimização da mão de obra, que agregaria mais valor aos produtos e provocaria impactos significativos nas cadeias de preços, consumo e emprego. Existem fórmulas matemáticas, dados, estatísticas em série e inúmeros argumentos que elevam essa discussão ao nível das mais importantes no universo macroeconômico. A pandemia jogou uma lupa sobre esse debate, ora a corda sendo puxada para um lado, ora para o outro.

Tais premissas, verdadeiras para o campo econômico, tendem a se contrapor aos interesses de quem serão cobradas, em última instância, as maneiras práticas de tornar isso real – as pessoas, os trabalhadores e trabalhadoras, os seres humanos. No caso, estariam sendo desprezadas questões básicas que apontam as cobranças por “maior produtividade” ao aumento das doenças, surgimento de distúrbios ligados ao trabalho excessivo, além de afastamentos por conta de desgastes físico e mental, dentre outros.

Essa contraposição é ancorada em pesquisas, estudos e propostas de especialistas em saúde mental, que apontam a crescente insatisfação pessoal pelo excesso de compromissos laborais, hoje estendidos além da presença física nos locais de trabalho. As pessoas trabalham presencialmente, vivem conectadas em atividades profissionais mesmo estando em casa e existem grupos que dedicam seus finais de semana, feriados ou mesmo parcela das férias – em atividades remotas – ao trabalho. O número de horas e de dias trabalhado torna-se crescente, tendo ocorrido um aumento significativo durante os picos mais graves da pandemia, não cedendo nem mesmo quando a vacinação em massa melhorou as condições de trabalho nas empresas.

Para reforçar a tese do aumento do tempo dedicado ao trabalho – e mostrar que isso nem sempre se reverteu em produtividade maior -, cito de trecho de reportagem da revista Época Negócios (junho de 2021) focado em pesquisa realizada pelo Instituto Becker Friedman, da Universidade de Chicago: os pesquisadores instalaram softwares nos computadores de 10 mil empregados de uma empresa asiática de tecnologia para medir a produtividade destes no período entre abril de 2019 e agosto de 2020. O resultado colhido apontou que o total de horas trabalhadas cresceu 30% em relação ao tempo antes da pandemia, e foi registrado um aumento de 18% nas horas extras. No entanto, a produtividade caiu 20% no período. Mais tempo “trabalhando” e menos tempo “produzindo”, pois as pessoas se concentravam menos, embora ficassem horas e horas conectadas (veja aqui a reportagem).

É possível encontrar inúmeros exemplos de aumento de horas de trabalho e de tempo dedicado a atividades profissionais, em particular durante os picos da pandemia, nos mais diversos ramos, que não redundaram em produtividade maior. Isso porque as pessoas, em geral, passaram a atuar sob uma pressão ainda maior, envoltas em um clima de medo constante acerca do noticiário envolvendo as mortes e perdas causadas pelo coronavírus, além de atuarem em ambiente remoto, com interferências diversas dos ambientes pessoais e familiares etc. O cansaço e o esgotamento físico trabalharam contra o que se pretendia ser um avanço no campo produtivo – embora algumas áreas como os setores ligados ao Judiciário tenham registrado movimentação recorde de processos e atos administrativos.

A combinação de interesses que une elementos como a cobrança por uma produtividade em escala cada vez maior e os investimentos maciços em apelos de consumo é explosiva no sentido do comportamento. Isso estaria por trás do crescimento das doenças mentais, notadamente da depressão e da ansiedade, influenciando na qualidade do sono, na alimentação e na dificuldade de concentração das pessoas. Essas transformações se aplicam ao antes e a esse período em que a pandemia reflui de uma maneira geral.

No tocante aos apelos crescentes pelo consumismo, numa sociedade cansada e hiperconectada como a nossa, o artista gráfico, criador de animações e ilustrador britânico Steve Cutts (veja site do autor) tem obras que viralizaram pelo seu conteúdo impressionante. Ele produziu e produz inúmeras peças que colocam esse modo de vida atual contra a parede. Uma dessas produções usa ratos, no lugar de humanos, em atividades estressantes, espremidos entre transporte público, trabalho, consumo, remédios e promessas de “felicidade”. Não à toa a animação dele recebeu o nome de Happiness (Felicidade, em inglês), cuja reprodução se faz necessária (veja abaixo).

É nítida a crítica feita por ele ao modo de vida que nos consome, enquanto vivemos sob constante pressão por mais “produtividade”, o que levaria a um crescimento de produtos e serviços disponíveis para consumo. Ou seja, um círculo vicioso de mais trabalho, mais cansaço, com a promessa de produtos melhores e mais diversificados para que possamos “aliviar o cansaço”, tudo concorrendo para piorar nossa qualidade de vida. Todo mundo, de uma maneira ou de outra, pode se ver nas figuras curiosas dos ratos mostrados na animação de Cutts, principalmente daquele que, solitariamente, segue carregado entre um apelo e outro do trabalho, do consumo, dos remédios e da angústia.

O multiartista, ator, diretor e criador genial Charles Chaplin foi um dos grandes críticos de tudo isso quando ninguém sequer sonhava com sociedades como a nossa. Ao produzir, dirigir e atuar no clássico Tempos Modernos (1936), o também britânico Chaplin mostrava o homem comum da época – nos tempos do trabalho em série desenhado pelo Fordismo e Taylorismo – sendo tragado pela máquina e pelas crescentes formas de ocupação e produção. A fábrica, as máquinas e o trabalho em série engoliam as pessoas, literalmente. Mudamos das máquinas e do chão de fábrica para as telas de computadores, de certo modo. As cenas daquele filme são hilárias e marcaram o cinema por décadas.

Charles Chaplin em cena de Tempos Modernos (1936) – Reprodução

Os especialistas em saúde mental e muitos estudiosos da Sociologia defendem, ao contrário de tudo isso que passamos na atualidade, que sejam repensadas as estratégias utilizadas para aumentar a produtividade da forma como se prega há algumas décadas. Defendem, inclusive, o chamado “ócio criativo” para que as pessoas possam ter sua mente esvaziada de compromissos laborais e possam se tornar, efetivamente, criativas e se dediquem um pouco mais à sua vida pessoal.

É fato que empresas de tecnologia oferecem, há algum tempo, condições privilegiadas a seus colaboradores em locais de trabalho ou em ambiente remoto, tais como a prática esportiva, dedicação a jogos, cinema, cultura e outras, inclusive nas suas próprias sedes. Todavia, esbarramos no velho dilema: oferecem com uma mão e cobram mais “produtividade” com a outra. E isso tem um custo, inclusive o velho custo de sempre, que é com a saúde mental da maioria.

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