A magia e a divina comédia humana em Pinóquio de Del Toro

Divulgação/Netflix

O cineasta mexicano Guillermo del Toro levou quase uma década e meia para realizar um sonho: reinventar Pinóquio, um boneco de madeira mentiroso que todo mundo conhece a partir da história criada pelo italiano Carlo Collodi. Sua obsessão era dar nova vida ao personagem, um dos mais manjados e populares da literatura infanto-juvenil de todos os tempos. Somente após uma via-sacra, mudanças, adaptações e a grana farta da plataforma Netflix, ele conseguiu a proeza de “criar” seu próprio menino de pinho italiano, mas de forma mágica e com ares de uma divina comédia humana.

Conhecido por inúmeros sucessos do cinema, Del Toro bolou um roteiro que, a despeito de respeitar pontualmente traços originais das aventuras do Pinóquio de Collodi, transporta os acontecimentos para terrenos que giram entre o existencialismo e o mundo palpável, enquanto dá uma rasteira em crenças do ideário fascista. Seus truques na condução do filme – a começar pela escolha da brilhante criação em stop-motion – fazem qualquer pessoa minimamente dotada de sentimentos se emocionar. É um filme para adultos e crianças. Tem um humanismo profundo, com pitadas de ingenuidade e realismo que somente o cinema é capaz de produzir.

Alegria, companheirismo, guerra, morte, dor, sofrimento, mentira, verdade e uma gama de conceitos morais, políticos, ideológicos e comportamentais povoam o universo de um carpinteiro maltrapilho chamado Gepetto, cujo drama prende o espectador quando o velho senhor do vilarejo italiano dos tempos da Segunda Guerra Mundial perde o filho Carlo (referência a Collodi). Seu mundo desmorona, sua vida perde o sentido e ele passa a beber compulsivamente, até criar um boneco, entre goladas de álcool e acessos de fúria. Essa “pimenta” introduzida por Del Toro no seu Pinóquio marca os caminhos que serão mostrados ao longo de toda a produção. Mexe com a consciência – que segue sendo um Grilo Falante pensado pelo criador original da novela – e produz teias de discussões em ritmo de ir e vir o tempo todo.

O menino de madeira a quem uma fada deu vida (animação, fala e movimentos) e a irmã desta, a morte, quer perto de si para controlar a existência daquele personagem, ganha muito mais do que a capacidade de andar e aprontar, como quis Del Toro. A mentira e a consciência vão lado a lado, construindo uma espécie de personalidade torta no novo Pinóquio. Os conflitos existenciais não tardam a atormentar a criatura, vista como aberração pela comunidade onde surge e passa a circular, cercada pelos horrores da guerra e por figuras que retratam o fascismo em caricaturas realistas. Pontos intencionais do diretor e roteirista para trabalhar seus dramas pessoais com o existencialismo, sua teimosia em realizar o filme e fazer com que fosse o mais trabalhoso possível, a ponto de envolver equipes gigantescas de animadores do México, dos EUA e produtores de arte de vários pontos. Pinóquio, pensou ele, deveria ser convincente.

Tão realista quantos os demais personagens que lhe aparecem ao longo do caminho: o Conde Volpe, dono de circo, trapaceiro, golpista e salafrário profissional; o macaco Spazzatura, espécie de malvado que fomos um dia; o cruel oficial fascista que massacra o filho; o vigário com aspectos grotescos e, claro um simpático e, até determinado ponto, “arrogante” Grilo Falante, batizado como Sebastian, o Grilo, por Del Toro. Sebastian, a figura que narra os acontecimentos e deles faz parte, queria ser escritor, contar aventuras mirabolantes, mas acaba tragado pela existência simples e pelos dramas que envolvem Gepetto e o produto dos seus devaneios e tristezas, o boneco sem vergonha que surge da madeira e das lágrimas do seu criador. Tem dedo humano o tempo todo na história, e essa é a marca do cineasta que fica clara desde o começo.

Quem imaginaria um menino com esse comportamento, que quer entender as coisas, o mundo, mas se envolve em suas próprias mentiras e quase põe tudo a perder, inclusive o amor que conquistara do “pai postiço” que se torna Gepetto? Carlo Collodi fez isso ao longo do tempo em que construía seu Pinóquio e o publicava em formato de novela nos periódicos italianos do século XIX, mas Del Toro fez o possível e o impossível para dramatizar – e até piorar – a vida do boneco falante e animado. A pequena criatura precisava morrer e voltar, quantas vezes fosse necessário, para compreender que a vida humana é exatamente como conhecemos: frágil, curta e que termina quando chega a um ponto. E que isso é a condição para nossa existência. Todos vão morrer, mesmo que Pinóquio não saiba o que fazer com isso e nem tenha condições de alterar nada, nem mesmo compreender essa dimensão. A capacidade de gerar esse tipo de discussão, para quem assiste ao filme com esse olhar mais de lupa, deve ser creditada ao recriador do Pinóquio, em cuja bagagem cinematográfica estão A Forma da Água e O Labirinto do Fauno, dentre outras produções de peso do cinema.

Morrer, reviver algumas vezes e ganhar a vida eterna, no caso, tem um custo, mesmo sendo uma necessidade que o roteirista impôs ao seu boneco desengonçado. Pode ser até um modo de ensinar, mas é difícil crer que ele usou Pinóquio para ensinar àquele pedaço de pinho em formato de menino o que era “ser humano”. É mais provável que Del Toro tenha trabalhado uma espécie de terapia, um acerto de contas pessoais e dado voltas em sua personalidade do que tentado fazer isso com o personagem. Não chegaria a tanto, suponho, após ver e rever o filme. São farrapos de aprendizado para nós, humanos, e não para um ser que Carlo Collodi criou sem imaginar que ganharia tanta popularidade e o mundo todo.

Por fim, minha dica é: todo adulto, professor, pai, criança, amigo, família ou grupo de estudos deveria olhar mais para essa criaturinha tão parecida conosco que é o Pinóquio. E esse de Del Toro, seguramente, nos fará pensar ainda mais como nossa cara de pessoas de carne e osso pode ter vindo do pó, mas poderia ser de madeira, de qualquer material descartável, manipulável e, por fim, que será reintegrado à natureza, mais dia, menos dia.

Com choro, com emoção, como perda e como forma de mostrar o tamanho de todos nós. No máximo, somos do tamanho do Grilo Falante.

2 comentários sobre “A magia e a divina comédia humana em Pinóquio de Del Toro

  1. Muito bom o texto, Djair! O filme é incrível mesmo! É sensacional observar o crescimento do Pinóquio dentro de um corpo imutável, feito de “pinho e lágrimas”, sem que, ao contrário da gente, tenha sofrido o tolhimento da sua essência. Ele é o menino que não seguiu as regras do mundo porque simplesmente não pôde deixar de ser quem era. A ausência de humanidade garantiu a ele exatamente a ausência do Ego que muitas vezes nos embaça os olhos. Vale muito a pena assistir, também, o especial “Pinóquio, por Guillermo Del Toro: cinema feito à mão”, com imagens de bastidores e detalhes e curiosidades dessa produção primorosa e emocionante. Beijo!

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    • Boa noite, Helga!

      Realmente, o cuidado plástico da produção e o fio que desenrola a história revelam uma forma de cinema que prende os espectadores, sejam adultos ou crianças. Some-se a isso o personagem de conhecimento amplo no mundo inteiro, embora Del Toro tenha recriado o Pinóquio nesse longa. A propósito, excelente a sua lembrança dos bastidores da produção, com o documentário no qual Del Toro e equipes falam como foi tudo tão pensado e realizado para dar uma cara especial a essa versão do menino de madeira. O stop-motion com bonecos e uma animação que enche os olhos. Grato pelo comentário e pelas observações!

      Djair

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