Um irmão genial, já falecido, cunhou certa vez uma expressão que resume minha relação com as louças na pia, sempre prontas para serem lavadas: “Quem lava louça não precisa fazer terapia. Basta você pensar que já vai “ter-a-pia” – de louça”, dizia ele, um craque dos trocadilhos. Tirando risadas e outras brincadeiras, o fato é que o tempo me fez converter essa atividade caseira milenar, e que nunca termina, em algo prático. Passei a usar as horas na pia para alimentar meus surtos de criatividade. Este texto, por exemplo, surgiu na lavada mais recente dos produtos de primeira necessidade em casa. Eram poucos. Por isso o texto curto.

Quando assumi o cargo de lavador oficial de louças em casa, principalmente a partir da pandemia de 2020-2021, percebi que o tilintar de talheres que caem, o barulho de um copo que se quebra ou, ainda, o voo de um prato que se vai para sempre me faziam pensar mais – não neles -, reles produtos substituíveis, mas na vida e nas coisas. E fui, de lavada em lavada, maquinando termos, textos, ideias, músicas e até alguns dos artigos que escrevi aqui para o Substack ou para meu site pessoal. Um detalhe: a lavagem de louças é um trabalho que realizo no meu tempo, o que obriga as peças a se amontoarem em vários momentos. Isso faz com que eu leve mais tempo lavando e ainda mais tempo pensando.

Uma frase para o perfil no BlueSky?. Pimba, caiu um copo! Deixar uma panela brilhando, tirar o excesso de gordura e sumir com os vestígios do detergente nela já renderam ideias que usei depois e tasquei no podcast. Até algum roteiro para trabalhar horas depois já surgiu entre uma esfregada de uma pilha de pratos e outra. Os copos, xícaras e canecas são os que rendem mais – e consomem mais tempo – porque o risco de quebrar é maior. Enquanto os lustro e cuido para não despencarem, posso repassar mentalmente uma conversa que tive no trabalho ou em casa. 

Embuto, nesse caso, o processo que eu chamo aqui de “terapêutico”. A pia fica vazia. E a cabeça parece acompanhar esse ritmo enquanto rola a limpeza dos utensílios domésticos cotidianos.

Claro, aqui não vai nenhuma ironia à real necessidade de se fazer acompanhamento psicológico ou psicanalítico por ninguém. Sei que quando eu achar que realmente tenho que lançar mão de ajuda profissional, o farei com certeza.

Mas a minha descoberta de coisas, meus estouros mentais e algumas ideias realmente encontraram na lavagem da louça o momento ideal. Foi sem pensar e nem imaginar que isso rolaria, mas comigo acontece com certa frequência. Tem gente que tem seus surtos e melhores momentos no banho. Outros, jogando paciência no computador ou no celular. Tem gente que se transporta na meditação, na oração ou num retiro. Talvez seja o fato de nos desligarmos das telas em algumas atividades que nos façam pensar mais e melhor. 

Óbvio que ninguém depende de lavar louça para pensar. Essa loucura eu deixo e recomendo apenas a mim mesmo.

Por fim, fiquei curioso a respeito de qual momento de atividade não profissional que cada leitor ou leitora tem para ter suas criações. Quem quiser compartilhar, aguardo com certa ansiedade e bastante interesse.

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