
A vida ofertada – e amplamente vendida – pelos múltiplos canais das redes sociais vem embrulhada num papel de presente que se modifica segundo a segundo, e assume cores cujos nomes ainda carecem de serem inventados. É uma existência fundada no “extraordinário”, algo que é indefinido por sua natureza fútil, fugaz e totalmente inatingível. Talvez esse seja o produto mais procurado atualmente, numa sociedade ansiosa, há muito sequestrada pelos ilusionistas midiáticos do submundo digital.
Esqueça a vida humana normal, com seu curso marcado por planos, tropeços, erros, acertos, fracassos e conquistas: você, dizem eles, precisa ter ambição e se preparar para viver o “extraordinário”. Nada de “passar pela vida” ou simplesmente “viver”. Tudo teria um “propósito”. Com pitadas de “ambição” e diversos elementos tirados de caldeirões mágicos, onde borbulham “poções secretas” que somente alguns acessam, qualquer ser humano “focado” poderá mudar seu estilo de vida e alcançar essa novidade que nunca soubemos que existiria um dia.
Algumas pessoas garantem que a elas foi dado um poder, exclusivo, de transmutar as vidas “comuns” em esplendorosas, magníficas, marcadas por “experiências únicas”. Para surpresa de ninguém, claro, tudo tem um custo e pode ser feito somente através de “mentoria”, curso ou “imersão”. Não seria razoável, argumenta-se, que um conhecimento praticamente divino, reservado, especializado e “secreto” até então fosse desprovido de “valor” (monetário, no caso). Alguns cliques, transferências bancárias ou um simples Pix e o portal é aberto.
Propósito. Legado. Marca. Superação. Garra. Produtividade. Engajamento. Reconhecimento. Inovação. Riqueza. Sucesso. Ambição. O Extraordinário.
Na entrada desse novo mundo, letreiros gigantes, em neon, piscam de forma incessante, mostrando palavras de ordem aleatórias, recauchutadas de velhas práticas das vendas ou do universo religioso. Como as expressões que coloquei em negrito acima, elas se revezam e prometem martelar as consciências dos consumidores de maneira randômica. A intenção é atingir quem passa dias, horas ou mesmo minutos diante das telas de telefones ou nas multiplataformas. O que facilita esse processo é que vivemos numa sociedade consumida e consumista na qual tudo virou propaganda e publicidade. Nenhum espaço, público ou privado, escapa dessa deformação: transportes, comércio, casas, lojas, museus, escolas, universidades, ruas, avenidas, postes, praças, parques, telefones, aparelhos de tevê, roupas, paredes, asfalto e placas de sinalização – a cidade é um grande outdoor.
Escolher uma vida pautada pela simplicidade, sem alarde, virou quase um crime nessa bagunça digital que nos assola. Amigos trazem soluções e fórmulas mágicas que encontram a todo momento numa postagem de quaisquer das redes. Gravam mensagens, reproduzem frases de autoajuda, tentam nos direcionar para essa ou aquela “novidade”. Alguns até juram que estamos perdendo tempo, dinheiro e oportunidades toda vez que não embarcamos ou demostramos desinteresse por aquilo que, garantem, teria o poder de transformar nossas vidas. É de se supor que nos tratarão como fracassados ou fracassadas assim que virarmos a esquina.
E o que seria a tal “vida extraordinária” que muitos vendem, propalam ou tentam nos levar a viver? Na real, seria exatamente um “nada”. Uma miragem que as redes produzem e reproduzem, repaginando ideias surradas, frases readaptadas ou distorcidas, seja da filosofia, da política, da religião ou da publicidade.
Simplesmente porque não existe nada de extraordinário que possamos fazer. Tudo o que fizermos será o comum, o natural, o que deveria, poderia ou foi possível ser feito. Nada vai marcar coisa alguma, além do bem que fazemos e das coisas simples que deixam pessoas que amamos mais felizes e tranquilas. Ninguém se lembrará de mim nem de você daqui a alguns anos ou décadas. Por mais que sejamos tentados a aderir ou tenhamos curiosidade com esse carrossel de bobagens do “extraordinário “.
A simplicidade é a mãe de todas as coisas boas que fazemos. O resto é lorota digital, que continuará a ser oferecida por espertalhões a incautos ou a pessoas extremamente carentes de atenção – essa sim a isca dessa nova era.
Viver é simples. O mais é superficial.





Deixe um comentário