O simbolismo e a assombrosa atualidade da dramaturgia ‘mutilada’ de Dias Gomes

O dramaturgo Dias Gomes, um dos mais destacados do país/Foto: reprodução

O baiano Alfredo de Freitas Dias Gomes, que o mundo da dramaturgia conheceu como Dias Gomes, seria aquele garoto-prodígio que começou como contista aos 10 anos e aos 15 já havia escrito sua primeira peça teatral, ganhadora de um prêmio do Serviço Nacional de Teatro e da União Nacional de Estudantes (UNE). Isso diz pouco muito pouco dele, uma personalidade marcante do teatro, da televisão e da política no Brasil – bem antes dos anos que antecederam o golpe militar de 1964 e a partir dos acontecimentos dos anos de chumbo por aqui.

Praticamente tudo o que Dias Gomes produziu teve uma forte carga simbólica que embutiu sua permanente preocupação com a cultura brasileira, uma aparente inesgotável capacidade criativa e a postura do militante político crítico. A temática, seu forte, teve como centro a “tipificação do povo brasileiro”, como ele próprio disse em entrevista ao programa do Espetáculo Carioca, em 1970, ao falar do teatro, dos embates entre seus escritos teatrais e os órgãos de censura e repressão.

Ao mesmo tempo, sua produção tem uma carga de atualidade tão assombrosa que provocaria estranheza apenas em quem toma contato pela primeira vez com sua obra e suas posições políticas, historicamente ligadas aos movimentos populares e da esquerda brasileira. Era, por natureza, um ser político que sabia como ninguém refletir a realidade nacional, nunca descuidando da arte primorosa e do rigor nos textos e nas personagens. Tinha o imaginário político na cabeça, que transpunha para a dramaturgia de forma simples e, ao mesmo tempo, rebuscada. Noutras palavras, sabia temperar o rigor intelectual e o gosto popular.

Dias Gomes não foi somente um dramaturgo, mas um estudioso e recriador da realidade brasileira. E pagou um alto preço por manter sua postura altiva diante das investidas do poder – antes, durante e após a ditadura militar.

A jornalista e pesquisadora Laura Mattos, repórter especial do jornal Folha de S. Paulo, estudou cerca de 2 mil páginas de documentos oficiais produzidos pelos órgãos de censura e repressão do período militar, além do acervo pessoal deixado por ele, que inclui um diário e correspondências trocadas por Gomes com importantes personalidades da esquerda à época como o escritor Jorge Amado e o poeta Ferreira Gullar.

O livro-dissertação de Laura Mattos; texto integral de O Bem-Amado/Reprodução

A pesquisa de Laura Mattos, originalmente sua dissertação de mestrado apresentada à Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), em 2016, foi transformada no livro Herói Mutilado – Roque Santeiro e os bastidores da censura à TV na ditadura (Companhia das Letras, 2019). Trata-se de um rico estudo de caso sobre uma das empreitadas teatrais de Dias Gomes, que sofreu pelo menos três atos de censura, em 1965, 1975 e em 1985 – no caso a peça incialmente intitulada O berço do herói (escrita em 1963). O público brasileiro só acabou vendo a obra na TV Globo (como adaptação, também com cortes e censura) como a novela Roque Santeiro. O intrincado caminho de idas e vindas, sumiços e o reaparecimento do texto – ‘mutilado’ – é mostrado em minúcias no trabalho da repórter e pesquisadora.

Ainda acerca do processo de pesquisa que redundou na dissertação e no seu livro, Laura Mattos faz um passeio pelos aparelhos de censura montados ao longo de décadas no Brasil, dando ao leitor uma perspectiva – com esta e outras obras de Dias Gomes como pano de fundo – das experiências de controle estatal sobre a produção cultural. O controle do conteúdo, mais especificamente, como ocorre em quaisquer ditaduras.

Dias Gomes, de fato, conheceu e entendeu muito cedo como funcionavam os mecanismos de censura, pois seus textos teatrais nunca eram vistos com bons olhos pelos donos do poder ou seus ocupantes de plantão. O próprio autor considerou que sua peça O Bem-Amado, farsa sociopolítico-patológica, de 1962, foi “a que teve vida mais acidentada”. Ou seja, “censurada” inúmeras vezes, como ocorreu a outras produções que apresentava, ora sob olhar contrário dos que iriam financiar sua montagem, ora sob as garras dos censores de sempre.

A editora Bertrand Brasil publicou o texto integral de O Bem-Amado, no qual consta a verdadeira via-crúcis enfrentada pelo autor para ver sua obra encenada e, ao final de tantos e tantos cortes, mutilações e proibições, virar uma novela de 178 capítulos e, anos depois, uma série na TV Globo – onde sua primeira esposa, a novelista Janete Clair, reinou absoluta com produções romanceadas que levaram o folhetim brasileiro ao mundo.

Seguindo o caminho das demais criações dele, a sátira política contida em O Bem-Amado até hoje não perdeu o estilo e nem a contemporaneidade, pois o lugarejo do litoral baiano onde os fatos são ambientados – Sucupira – continua a cara do Brasil profundo, com suas safadezas, truques, desvios de conduta, uso dos bens públicos e do patrimonialismo verde-amarelo. Afinal, quem não conheceu ou não conhece algum político com os traços do consagrado Odorico Paraguaçu?

O ator Paulo Gracindo celebrizou o demagogo Odorico na sátira de Gomes/Reprodução

Mas a história do demagogo Odorico não teve vida fácil na prática, pois o personagem, celebrizado pelo ator Paulo Gracindo na TV, teve 37 capítulos que foram alvo das tesouras da censura, inclusive sendo obrigada a ser encerrada antes do tempo previsto pela emissora, gerando um mal-estar entre militares e os donos da Globo. O corrupto e populista retratado na obra, pela ótica dos militares, era uma ironia às ações dos ocupantes do poder.

Visto pelos militares como um “comunista perigoso”, Gomes angariara fama internacional muito antes do golpe de 1964, pois já em 1962 a adaptação que fez para o cinema da sua O Pagador de Promessas levou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, com direção de Anselmo Duarte.

Quase tudo o que passava pela pena do contista, escritor e dramaturgo ganhava uma espécie de carimbo prévio “poderemos censurar”. A pesquisa já citada de Laura Mattos é farta em exemplos de que nunca precisamos viver uma ditadura clássica para que os censores agissem. Agiram antes, durante e depois de vários períodos ditatoriais pelos quais o país passou.

Enfim, Dias Gomes serve de fonte de pesquisas e seguirá por décadas como um dos grandes criadores dos melhores textos do teatro brasileiro, sendo, ao mesmo tempo, um exemplo de como o Estado não tolera a cultura como livre expressão do pensamento.

A propósito, alguma semelhança com o que vivemos hoje no país? Ou seria “mera coincidência”, como diz o letreiro de abertura de obras adaptadas para o cinema ou a TV com base em fatos reais?

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