Ecos contemporâneos de Oliver Twist, de Dickens

Publicado pela primeira vez há mais de 180 anos, o romance Oliver Twist, de Charles Dickens, foi lido ao longo do tempo como uma denúncia da infância miserável e da exploração infantil na Inglaterra, no processo de reflexos do sistema de trabalho brutal gestado a partir da primeira Revolução Industrial. Tomado como extensão de análises sociológicas, econômicas e políticas, o texto dele não perdeu atualidade e se mistura ao conjunto de preocupações de diversos organismos multilaterais com o futuro das crianças no mundo todo – em especial desde o começo da pandemia que ainda vivemos.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), por exemplo, fez um balanço assustador a partir de dados coletados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT): nas últimas duas décadas, o trabalho infantil voltou a aumentar e hoje atinge cerca  de 160 milhões de crianças e adolescentes no mundo. Somente no Brasil, mesmo antes da eclosão da pandemia, já havia 1,7 milhão de crianças nessa situação, segundo a instituição.

No mesmo levantamento, a OIT e o UNICEF fazem um alerta que mira o ano de 2022: além dos 160 milhões de crianças e adolescentes já engajados nas fileiras do trabalho, outros 8,9 milhões correm o risco de ingressar precocemente no mundo laboral, como resultado da pandemia de Covid-19. Isso porque houve um grande crescimento de óbitos entre familiares que cuidavam dessas pessoas e elas deverão se tornar “responsáveis” pelo sustento dos seus lares por absoluta falta de condições. No Brasil, por exemplo, estima-se que tenhamos algo em torno de 130 mil crianças colocadas na orfandade, somente entre 2020 e 2021.

Com se sabe, o mundo do trabalho ganhou ares de mudanças profundas desde os tempos em que Dickens narrou as agruras do menino pobre que foi sugado pela máquina do trabalho e do crime muito cedo, em decorrência de interesses múltiplos da sociedade de então. Mas ninguém é ingênuo para imaginar que todos esses novos “trabalhadores mirins” que se habilitaram – e estarão nos postos de trabalho daqui por diante – serão meros “aprendizes”, como prevê a legislação brasileira.

A exploração em minas de carvão, atividades extrativistas, olarias, pequenos comércios, limpeza de residências e até de “cuidadores de outros menores” estão entre os diversos modos de ‘ocupação’ aos quais podem se submeter as nossas crianças e adolescentes. E, claro, o crime organizado, como sempre, a postos para oferecer e aliciar menores para suas atividades em diversas pontos do Brasil e do mundo.

Reproduzo um trecho do relatório da OIT/UNICEF: “O relatório aponta para um aumento significativo no número de crianças de 5 a 11 anos em situação de trabalho infantil, que agora respondem por pouco mais da metade do número total global. Outro alerta é o número de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em trabalhos perigosos – definido como trabalho que pode prejudicar sua saúde, segurança ou moral – chegou a 79 milhões, um aumento de 6,5 milhões de 2016 a 2020”.

Se o universo de Oliver Twist – tantas vezes analisado e adaptado para o cinema e diversos meios de representação (até a Disney fez um desenho com Oliver sendo um gatinho perdido em Nova York) – ainda ecoa entre nós, ele pode ser um sinal forte de que evoluímos pouco, a despeito de mudanças de legislações ao redor do mundo.

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