Conto “Soledade Amanhecida”

Foto por David Besh em Pexels.com

Este conto foi escrito em parceria com a poeta, professora e pesquisadora mineira Fábia Alvim nos idos de 2005. À época, fizemos um desafio mútuo para a produção de um texto a quatro mãos, tendo sido a ideia original, inclusive o título, criação dela. Fábia também escreveu o texto central, que teve finalização minha. O resultado foi esse conto que passo à apreciação de leitores e leitoras do site como um registro histórico ficcional.

Eis que de tanto olhar o tempo passar pela janela, Soledade alimentou-se do dia e fez tudo virar noite.

Na casa da menina, coisas, gentes e vazios tornaram-se, todos eles, desaparecidos. O desaparecimento, então, foi tomando conta dos outros cheios e vazios, com fome de escuridão que nunca antes engoliu mundos. Soledade não mais teve fomes e sedes, saciada pelas chuvas que não tiveram tempo de cair quando ainda estavam do lado de fora. Soledade não mais tinha fome por preencher-se de dia.

O medo das gentes de casa e do lugar não era nem do escuro – era que Soledade se alimentasse do dia de tal forma que ele não pudesse mais voltar a existir. Nunca mais seria possível libertar da menina a luz. A mãe vinha pedir-lhe que chorasse, ou cuspisse, ou que gritasse pequenos fragmentos de claridade. A menina, no entanto, mais e mais se clareava, mais e mais se calava. Amanhecida assim, Soledade anoiteceu as coisas fora dela, devagar. Amanheceu-se com calma da sua ingenuidade. Uns feixes de luz escapavam só por alguns pequenos tempos de riso involuntário, uns momentos rápidos de choro infantil e uns curtos períodos de soluções cheios de luz.

Soledade, entretanto, à medida que mais amanhecia escurecendo o lado de fora, ia calando-se e fechando-se no seu dia que já bastava. Nela nasciam sonhos escuros, cheios de antítese. A casa, além de escurecida, triste ia ficando com o ir-se lento da menina clareada. Os cabelos da pequena, antes entardecidamente vermelhos, iam-se enchendo de sol com o passar dos dias inexistentes. A família começou a contar o tempo independente da vinda da luz. Tratavam a menina das febres solares e dos resfriados, que vinham por causa das brisas frias. Soledade engravidara-se da luz? A menina ia parir o dia? Dar à luz a luz.

Os irmãos – menores ainda que ela – riam-se do encolhimento da menina na cama. Soledade só não sentia frio, mas encolhia-se. Passavam-se os meses e a barriguinha da criança ia crescendo. Esperavam todos pelo dia da devolução da luz roubada. Os vizinhos reclamavam da eternização da noite… Aglomeravam-se na porta da casa pequena, uns com rezas e outros com pedras. Soledade, cada vez mais, ia ver o dia dentro dela. Cada dia mais se chorava por fora, encolhendo-se como quem quisesse interiorizar-se inteira.

Não esperava, no entanto, que algo ainda mais estranho acontecesse diante dos seus olhos-dia: o aparecimento de um satélite muito semelhante à Lua no quintal de casa. Este brotara num frondoso galho de laranjeira sem que ninguém notasse durante noites e noites, principalmente em face da escuridão dominante. A velha laranjeira começava a ficar irreconhecível. Seus frutos em nada lembravam as laranjas, nem mesmo na coloração das cascas. Oscilavam entre o cinza e a cor do pó característico das areias dos desertos quando estes perdem a areia de suas dunas em tempestades.

Um misto de pavor e admiração tomava conta de Soledade quando, sozinha, foi ao quintal contemplar o fenômeno pela primeira noite. Não sabia se era um sinal ou algo ameaçador.

Teria a Lua, trezentos e oitenta e quatro mil quilômetros de distância dali, resolvido se vingar da menina que roubara a claridade do astro-rei? E, pior, a vingança lunar teria a ver com o fato de Soledade apresentar-se, ou pelo menos sugerir a todos, como mãe da claridade futura e, por extensão, geradora do que o luar teria para apresentar a toda a Terra? Os ciúmes da Lua, decerto, não chegariam a tanto, imaginou a menina, pondo-se a acariciar a barriga onde carregava a tristeza, a luz esperada por todos e a possibilidade de perder seu dia para sempre quando este se libertasse do seu ventre.

Soledade sentiu um desejo dos que se atribuem às grávidas e resolveu provar uma das laranjas lunares. Ao tirar-lhe a casca, dela se desprenderam gomos em nada semelhantes aos da fruta cítrica. Eram bolhas de fogo. Queimavam-lhe as mãos; grudavam nos dedos. Tomada de pavor ao não conseguir desvencilhar-se de tamanha dor, resolveu lamber os dedos, inclusive porque seu desejo de provar daquilo não passara nem mesmo com o calor que lhe consumia os dedos. Lambeu os dedos em carne, sentindo um gosto semelhante ao do sangue do corte de um dedo. E notou que a dor passava a cada lambida. Não tardou a abrir outras laranjas lunares e tirar-lhes as cascas, em seguida passando os gomos esquisitos nos dedos. Novamente sentia dor e lambia todos.

Não sentira qualquer efeito aparente A não ser um incômodo na base do estômago. E, de forma surpreendente, este se transformou numa sequência de dores como as que dizem ser do parto. Gemidos, gritos, berros e contorções tomaram conta dela. Vizinhos vieram acudir-lhe, tamanho era o barulho que emitia.

Não tardou a vomitar uma espécie de caldo arenoso que, no contato com o solo escurecido do mundo escuro mudava para tons diversos, sumindo em seguida como se fosse por um processo de evaporação. E os espasmos de Soledade foram tantos e tão contundentes que esta não resistiu fisicamente, vindo a cair por terra. Seu corpo ficou preso aos resquícios do que vomitara.

Enquanto estavam presos à tarefa elementar de libertação do corpo da menina, ninguém percebia como a Lua voltara a reinar, sinalizando, no seu silêncio, que os dias haviam voltado, e que Soledade havia sido um desses sinais da sua eternização.

E que dias, noites, tempos, saudades, rios, luas, sóis, mares – tudo isso não podia ter tempo – e sim espaço onde pudessem repousar para que as civilizações pudessem construir suas ilusões meramente humanas de que se poderiam dominar forças que não requerem tempo para existir.

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