Breves considerações sobre gosto musical

Foto por Pavel Danilyuk em Pexels.com

A história de cada pessoa em matéria de gosto musical é única, embora pesem nesse processo de formação as influências da família, de cada época, dos lugares e de outros grupos de convivência. No mais, nos afeiçoamos a determinados estilos e batidas por nos fazerem dançar, pela sensação de estarmos bem quando esses sons e vozes ecoam ou simplesmente pela graça de quem interpreta. Ou por um conjunto de coisas. Ninguém explica ou precisa explicar isso para ninguém.

Acontece que existem momentos na vida que podem significar uma ‘virada musical’ para muitas pessoas. A sensação de que algo novo foi descoberto. Uma curiosidade e algo nos desviou do caminho que nossos ouvidos sempre trilharam. Comigo, pelo menos, foi assim: conhecia pouco de alguns estilos musicais até ser apresentado a eles, alguns de forma inusitada.

O jazz e o blues, por exemplo, entraram na minha vida de moleque, no começo dos anos 1970, de modo realmente interessante: caminhava por uma rua de paralelepípedos quando chutei, sem querer, uma fita ‘k-7’ com sons de ninguém menos do que Ray Charles. Coloquei o objeto no bolso, corri para casa e ouvi a voz do pianista que até hoje me encanta. E nunca mais fui o mesmo. A música marcante dele foi I Can’t Stop Loving You. Ouço até hoje e relembro como o encontrei na rua. Outro exemplo: fui apresentado ao Elton John também na mesma época, por influência de um irmão e descobri o que era o rock. Esse foi um ponto de virada na vida.

Preciso fazer um esclarecimento antes de prosseguir: meu ouvido musical, até então, era produto do rádio no interior, onde tocava dia e noite tudo o que o Roberto Carlos produzia e gravava. Era o que mais se ouvia em casa, além de Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Francisco Petrônio e bandas daquele tempo, como Os Incríveis, Renato e seus Blue Caps, The Fevers etc. Havia uma limitação natural do tempo e do espaço, eu assim interpreto aquele meu mundo até então.

Essa limitação, pelo que leio do meu universo, foi rompida a partir do contato com o rock, o blues e o jazz. Os sons de guitarras, baterias, pianos e as vozes diferentes soaram como trombetas nos meus ouvidos. E abriram porteiras para a MPB e a Bossa-Nova, além de tudo aquilo que mexeu comigo a partir de então. Não havia mais limites. O fato de muito coisa ser tardia não me tirou do prumo, confesso. E, muito menos, o fato de confessar que demorei muito a ampliar o meu gosto musical. E entender que não haveria mais volta no processo de conhecimento nesse campo. Obviamente, não ultrapasso até hoje o que conhecem muitos curiosos em matéria de formação musical.

Voltando aos processos de mudança pelos quais passei, cada novo cantor, banda ou estilo eram motivo de encanto e de busca. Uma novidade puxava outra. Um nome, outro nome. Teve também a influência da música religiosa católica e a introdução do violão na minha vida. Na etapa seguinte, minha ligação com o rádio profissional, a iniciação no jornalismo e a escolha definitiva por um dos campos de atuação profissional.

As coisas foram se completando e se complementando, somando-se à consolidação do leitor voraz que começara a se formar ainda cedo, mas que a partir de então se impunha e mesclava conhecimentos pessoais, pesquisas, aprendizagem musical (de ouvido), o trabalho no rádio, o jornalismo, os grupos de jovens, as viagens e o acesso e mais e mais meios disponíveis na época.

Minha experiência pessoal diz que podemos mudar bastante nosso gosto musical, lapidar aquilo que gostamos, substituir uns por outros e até aprender a gostar de coisas que antes víamos com certo preconceito. É uma operação pessoal, como disse no começo. Não tem uma fórmula. E nem todo mundo passou ou é obrigado a passar por isso. O meu relato aqui é puramente individual. Tem gente que nunca mudou ou se deixou influenciar por novos ritmos, batidas ou estilos musicais. Tenho amigos e amigas que até hoje ouvem as mesmas coisas de décadas atrás. E não tem nada de errado nisso.

Credito ao processo de leitura e aos grupos de convivência – na escola, na universidade e no trabalho, por exemplo – parte dessas mudanças que narrei, pois não se descobre nada quando se fica parado no tempo se opta por isso. Acontece isso com a música, com o estudo, com a vida e até com as profissões que abraçamos ao longo da vida. A história sobre buscar e achar. O famoso “quem procura, acha” – que também se aplica para outras coisas na nossa existência humana.

A música, quando mesclada ao cinema, à literatura, aos processos de conhecimento das artes, viagens, passeios por outras cidades, mudanças de lugares ou grupos de convivência, pode ser objeto de grandes mudanças na nossa vida pessoal de ouvintes. Imagina quando surgiram essas maravilhas de hoje todas reunidas nos serviços de streaming e demais ferramentas tecnológicas da internet o que não aconteceu na transformação musical de milhões de pessoas.

Entendo essas mudanças como um processo contínuo. Como um vício que não se larga mais. E que bom que fazem parte da nossa vida. São parte do nosso processo de crescimento. E de diversão, no meu caso.

O que a música mudou ou como mudou na vida de vocês, leitores e leitoras?

3 comentários sobre “Breves considerações sobre gosto musical

  1. O tema gosto musical me interessa muito. O quanto a musica nos influencia é imensauravel, pois isso , no meu caso, se renova e acumula constantemente. Valeu, professor.

    Curtir

  2. Pingback: Enigmas ancestrais da música de Sona Jobarteh e toques de sonoridade da América Afro | Djair Galvão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s