Enigmas ancestrais da música de Sona Jobarteh e toques de sonoridade da América Afro

Abrir os ouvidos a novidades musicais é um longo processo de aprendizagem para quem gosta de música como alimento para a sensibilidade. Nem falo de músicos profissionais, que unem o amor pela sonoridade e vivem das suas criações. Me posto na condição natural de admirador e ouvinte-aprendiz. Até escrevi outro dia aqui sobre o tema (leia aqui).

Numa das inúmeras aberturas recentes a essa busca incessante por novidades, dei de cara com uma joia rara, nascida em Londres, mas com raízes na Gâmbia, um pequeno país da África Ocidental: Sona Jobarteh. Dona de uma voz marcante e de timbre brejeiro, Sona foi a primeira a quebrar uma tradição tribal de 700 anos da terra do seu pai – que não permitia que mulher tocasse o Kora, uma espécie de harpa africana de 21 cordas.

Ela e sua banda, no show que destaco acima, se apresentaram numa universidade da Alemanha, trazendo uma sonoridade ancestral que nos lembra batidas da América Afro. E não é por menos: seu som carrega a tradição dos griôs africanos, responsáveis por transmitir histórias de geração em geração, um lugar após outro.

Impossível não se sentir tentado a mexer o corpo com os solos tirados pela musicista no Kora. E mais difícil ainda não fazer a ligação com o que ouvimos e sabemos das nossas raízes sonoras em vários pontos do continente americano – do Caribe a uma rua qualquer de Salvador, por exemplo. Os músicos que a acompanham nas turnês são a expressão da ginga cubana, brasileira ou africana, numa espécie de mistura da aura de um culto a deuses e animais.

Num dado momento, você pensa estar ouvindo ou vendo uma artista brasileira como Margareth Menezes; noutro, o som e a expressão dela transportam você para um campo ancestral. No geral, fazem seus ouvidos deslizarem em busca das origens daquilo que é tocado – mesmo que seja impossível você dizer que ouviu coisas rigorosamente iguais antes.

Pode parecer com que você já conhece, mas sempre será uma novidade, em particular por conta da genialidade dela nos toques do Kora. As batidas da percussão são um culto particular.

Agora é ver e ouvir a apresentação dela e da banda para entender o que se passa quando estamos dispostos a aprender.

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