A era da dispersão

PENSATA

Foto por Tracy Le Blanc em Pexels.com

Atire o primeiro celular quem nunca se pegou conversando sem prestar atenção na conversa do outro. Ou em variados cenários: estar numa reunião, mas com a cabeça em outro lugar; atender chamada de telefone; consultar redes sociais; ouvir áudios de WhatsApp; “pedir licença pela urgência” e sacar uma das mil desculpas para não parecer descortês. Pode-se argumentar e inventar qualquer coisa, mas vivemos uma era de dispersão, que se mistura aos efeitos da pandemia ainda em curso.

A recente fase de isolamento social – agora em marcha para um liberou geral – serviu e serve de laboratório para especialistas e estudiosos, além de despertar o interesse de curiosos, como eu, sobre a exacerbação de um comportamento social mais egoísta e até antissocial, ao contrário do que muitos apostavam que mudaria. Somos ilhas flutuantes com nossos telefones em mãos.

Virou algo natural amigos ou amigas não se olharem mais durante conversas, pois quase sempre ambos estão grudados nas telas dos seus telefones, consultando sabe-se lá o quê. Existe, ao que parece, um acordo tácito de cinismo: não presto atenção em você e recebo o mesmo em troca. E ninguém acha que está sendo cínico. A grosseria cabe perfeitamente no ditado tosco “chumbo trocado não dói”.

No misterioso mundo dos grupos de WhatsApp (da família, do trabalho, da faculdade, dos amigos e das safadezas em geral) é que a coisa fica feia. O mais comum é a rolagem de centenas de mensagens ao longo de um dia, lidas em horários impróprios, com áudios, piadas, fotos de ursinhos, de crianças, netinhos e netinhas, filhas, irmãos, irmãs, conhecidos e desconhecidos nas mais variadas performances. Sem contar as enfadonhas trocas de mensagens de “bom dia”, “Deus proteja todo mundo”, com ilustrações e frases montadas, falsas, truncadas, com autores que nunca existiram e promessas de toda ordem.

Por conta de um sem-número de coisas recebidas ao longo do dia, os grupo-dependentes prestam pouca ou nenhuma atenção em coisas reais, concretas, mensagens importantes ou coisas simples. A pessoa pede que reenvie o que já foi enviado várias vezes; comenta fotos, vídeos, manda bonequinhos, socos de cumprimentos virtuais (péssima mania que tenho) e grava áudios longos, comenta, xinga, reclama, lamenta, berra, canta e expõe várias coisas do seu universo pessoal. Quase sempre, o foco é o que acontece ao emissário das mensagens, sua vida, seus dramas, necessidades, coisas que viu ou deixou de ver e avaliações até fora de propósito sobre o que acha da vida, do mundo, da política, do universo e das galáxias em geral.

Sim, um desvio natural do ambiente de relacionamentos ocorre quando se descamba para política e paixões diversas, o campo minado das conversas, principalmente em ambientes virtuais – seja nos grupos de WhatsApp ou Telegram ou nas redes mais antigas e tradicionais. Tudo é motivo para uma discussão e uma troca de acusações, transformando a cortesia e os bons tratos em mercadoria em falta. Nem é preciso falar quando essa situação ocorre presencialmente: troca de insultos, repetição de notícias falsas, perda de paciência, brigas, agressões físicas e coisas impublicáveis. Que se transpõem, como num carrossel, do virtual para o dito mundo real – e faz até pensar o que é “real” e o que é “virtual”.

Não sei vocês, mas repito esse exercício diariamente: tento conversar com pessoas em vários lugares e o comportamento se repete indefinidamente. Estamos presos a essa teia de informações que parece não ter fim. Já abordei tema correlato em artigo anterior publicado aqui no site (veja aqui). Na ocasião, o foco era a nossa crescente dependência das redes.

Não se trata, por óbvio, de um estudo que faço com amigos ou amigas, pessoas de convivência diária, mas uma sequência de observações sobre como nosso comportamento está se deixando levar para um caminho que sequer sabemos aonde vai dar. Aquele olho no olho tradicional; aquela parada para pensar, ouvir, esperar o momento certo para opinar, como convém a um papo com o mínimo do que outrora chamávamos de “civilidade”. Esse conceito foi engolido ou está sendo diluído na correria das mensagens que saltam de tela em tela, de mensagem em mensagem, pois o celular é onipresente e seu domínio é inegável nesse processo.

Há que se pensar em efeitos reais do que a pandemia já nos lega nessa fase: a dispersão, como resultado de baques sucessivos que nos deixaram atordoados; as descobertas que fizemos em relação a nós mesmos e a muitos de nossa convivência; o recolhimento cada vez maior ao nosso pequeno universo; a fuga para problemas que se mostraram piores do que eram antes e agora estão expostos ainda mais com a “convivência forçada” de meses a fio; ou nossa entrega a esse mundo individualista como expressão do que pregam os arautos do consumismo acerca da “velocidade” das coisas e do desejo de transformar tudo em produto.

Ninguém sabe ao certo como vamos sair dessa, se é que vamos ou queremos mesmo sair. As fórmulas não existem. No máximo, pistas que colhemos olhando os outros e esquecendo do que fazemos de concreto nesse clima de dispersão geral. Sabemos, no fundo, que estamos errados, estamos na estrada errada e caminhando para um precipício. Apostamos tudo nesse caminho, mesmo sabendo que não pode ser coisa boa, pois gostaríamos de ter, de um modo geral, atenção e prestar atenção nos demais.

Cabe pensar se estamos realmente dispostos a avaliar, passo a passo, o que fazemos e o que poderemos fazer para imprimir alguma mudança. Ou queremos que isso seja o “normal” dos relacionamentos daqui por diante?

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