O mundo das crianças e jovens a partir dos reflexos simbólicos da violência em casa, na escola e na vida

Foto por Pixabay em Pexels.com

É consenso que a violência parece algo incorporado à estrutura social brasileira, com seus simbolismos, dados reais e formas de agir e pensar de autoridades, forças policiais e do mundo do crime, diante da inação das principais estruturas de controle nas mãos do Estado. Basta passar diante de uma tevê ligada em qualquer programa dito ‘policial’, nos finais de tarde e início da noite, que isso ganha as formas mais banais em sua retratação na tela, nos comentários dos apresentadores e de muitos repórteres que cobrem a área.

Quando transportadas para a realidade dos jovens e das crianças, as manifestações simbólicas da violência produzem efeitos diversos, os quais podem redundar em problemas reais – na escola, em casa, nos relacionamentos interpessoais e na formação e consolidação da personalidade, principalmente dos pequenos e pequenas. É nesse sentido que se torna importante a parceria entre as famílias e a escola, que funcionaria como uma espécie de para-choque para impedir impactos ainda mais danosos ao futuro das crianças e ao encaminhamento dos jovens à vida adulta. Mas qual seria a parceria correta e produtiva nesse sentido? Vamos, ao longo do texto, refletir sobre alguns dos caminhos possíveis e entraves à sua realização.

Um primeiro ponto é que especialistas em educação estão de olho numa mudança de postura, em particular no universo familiar, que pode interferir – negativamente – no combate aos efeitos da violência real existente na sociedade na vida infanto-juvenil. Indo direto ao ponto: a ‘ação política´ coordenada, via grupos de WhatsApp, de muitos pais e mães, baseada no ‘monitoramento’ de aulas, conteúdos, interpretações, livros, filmes, jogos e diversas atividades didático-pedagógicas a cargo de professores. Com um viés ideológico que miraria professores e professoras supostamente identificados com a ‘esquerda’. A intenção seria criar ‘filtros’ políticos, os quais seriam usados adiante para “denunciar o comunismo” ou algo que o valha.

Essa postura autoritária, ilegal e deletéria de muitas famílias atende a apelos partidários e se expande no contexto da polarização política que o Brasil experimenta, notadamente desde os idos de 2016, no bojo das manifestações que levaram ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff. A mistura entre ações político-partidárias e visão ideológica – não importa sua direção – termina por contaminar um ambiente que é vital para a formação cidadã e para a produção, discussão e geração do conhecimento. A escola é, por excelência, esse ambiente onde não cabe esse tipo de filtragem, inclusive por ferir regramentos legais, propostas curriculares e a autonomia inerente ao exercício do magistério, dentre outra questões.

Outro ponto é que essa exacerbação de cunho ideológico, quando levada ao extremismo, produz um clima de medo, intimidação e desvirtuamento da atividade pedagógica. Transforma o espaço escolar, a partir do que os pais “gostariam” de proporcionar aos filhos, num campo de batalha política, interfere indevidamente na escola, na vida dos estudantes, extrapola os papéis de “educadores primários” de pais e mães, visto que se passa a ter uma preocupação em ditar normas, regras, conteúdos, interpretações e visões de mundo – justo num lugar onde isso deve ser plural e amplo, como é o caso das unidades escolares. Em suma, em nada contribui para a formação daqueles a quem se destina a educação formal.

Nesse sentido, a relação entre pais, mães e escola torna-se tóxica, quando os primeiros resolvem “ditar” ao mundo da pedagogia e do ensino os caminhos que estes julgariam “bons” e aqueles que seu pensamento político-ideológico teria como “ruins” – não importando os rótulos utilizados nos grupos familiares ou afins. E, dessa forma, criam-se travas a uma relação saudável que deveria existir entre as famílias e a escola. Na prática, é também uma forma de violência.

Do ponto de vista simbólico, o clima de medo e de perseguição ideológica que muitas famílias pretendem imprimir na relação com o ambiente escolar pode levar a reflexos danosos na vida escolar dos seus filhos, pois isso termina gerando discussões perigosas nos relacionamentos entre crianças e jovens ainda em formação, que poderiam ver nos colegas potenciais “inimigos” – reproduzindo o comportamento hoje visto na sociedade como os confrontos nas ruas, nas redes e na vida cotidiana. Todo mundo acompanha esse clima que mistura ódio, enfrentamento físico, xingamentos, brigas de rua e até mortes nascidas a partir do universo simbólico da política. Sabemos que isso não é um bom caminho e simboliza o adoecimento de parte da sociedade, independente das ideologias que cada pessoa professa, admira e tem o direito sagrado de defender.

Todavia, quando setores da sociedade partem para o extremismo, a confrontação e intenção de tratar como “inimigos” aqueles que seriam seus “adversários” políticos, a história nos mostra que o resultado será trágico. E será ainda pior quando isso for levado de casa para a escola, desta para as ruas e, por fim, à vida real de quem está no ambiente escolar para “aprender” e não para “fazer política”. A prática política, claro, é diretamente ligada à cidadania, aos direitos fundamentais e ao exercício das liberdades preconizadas pelas leis e consagradas na Constituição nas democracias liberais modernas. Mas isso é feito em lugares específicos e em períodos da vida diferentes daqueles da escola, mesmo que o papel da educação preveja, naturalmente, processos de formação cidadã e noções de política, estruturas de Estado, economia, história etc. No caso da escola, isso só acontece de forma saudável e didática se for no sentido plural, e não como algumas famílias gostariam que fosse – sob “monitoramento” e denúncias.

Trata-se, portanto, de mais uma forma de violência que muitas famílias abraçaram no contexto político dos últimos anos. E que, certamente, prejudicará, em muito, as futuras gerações, caso não haja uma reflexão séria e consistente que altere seus rumos e devolva cada coisa ao seu lugar. À família, suas responsabilidades e limites na formação cidadã; à escola, o pluralismo na formação e autonomia de professores e professoras para ministrar conteúdos, interpretar e exercitar o senso crítico em sala de aula. E ao Estado, no caso, o poder de moderar essa relação, como prevê a legislação de referência.

Fora disso, sabemos, teremos crianças e jovens violentos – que podem vir a ser os adultos violentos e frustrados do futuro.

Ou alguém acha que violência é apenas o que se vê na TV, nas ruas e nas redes sociais?

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