Afastamento temporário do cotidiano das redes me fez sentir, ler, ver e ouvir apenas ecos da balbúrdia digital. Em compensação, fiquei livre de coisas como o ‘morango do amor’ e bizarrices afins.

Dia desses, tomando café numa padaria em São Paulo, soube da febre do ‘morango do amor’. Sei, obviamente, que é uma iguaria criada com o morango. O assunto morreu aqui para mim: não tive curiosidade, não provei, não sei o gosto, nunca vi o produto e nem quero ver. Esta e tantas outras pautas se perderam pelo caminho nos últimos dois meses em que me afastei, por questões pessoais, do universo digital – aqui do Substack e das demais redes por onde circulo regularmente para falar dos meus livros, das leituras habituais, além de gravar comentários, postar conteúdos ou interagir com o pessoal que me segue ou com aqueles que sigo. As coisas do mundo online, nesse período, viraram meros ecos da confusão existente nas redes.

Ocupado com coisas reais durante esse detox forçado – e necessário -, desgrudei os olhos de telas, sumi das postagens, abandonei as leituras, não comentei sobre quaisquer assuntos durante dias a fio, não vi praticamente nada na TV e raramente acessei conteúdos na internet. Os noticiários minguaram diante do meu olhar, embora isso não tenha me deixado completamente alheio. É quase impossível pegar o celular para responder a uma demanda pessoal, de casa ou do trabalho, sem ser bombardeado por alguma informação que vaga aos zilhões pelo mundo das redes. Os ecos, barulhos e a confusão estavam ali o tempo todo. Eu não estava, mas sabia de muita coisa que acontecia e aconteceu nessa etapa. Ruins e boas. Principalmente as piores.

As bizarrices políticas que ecoaram de Brasília a Washington. De São Paulo aos lugares mais profundos do Brasil. Nem que fossem apenas títulos avistados rapidamente numa consulta rápida ao celular para acessar um sistema de pagamentos de banco, por exemplo. Ou na hora de apagar a enxurrada diária de mensagens, promessas, ofertas e absurdos que entopem as caixas de email. Ou, ainda, entrar no carro, pegar o Metrô, o trem ou um ônibus e acabar tropeçando em algum conteúdo que alguém estava lendo ou ouvindo. Impossível não ver manchetes de jornal ou destaques da mídia em estações de transporte público. Nem que seja aquele tipo de coisa que dura ali uns 30 segundos e some.

Sem tempo para parar e ouvir uma boa playlist ou podcast no Spotify ou, ainda, acompanhar alguns dos programas favoritos em canais no Youtube, fiquei meio por fora de muita coisa. E isso me fez bem. Por necessidade do momento e por precisar limpar um pouco a mente de tanta coisa. Não consegui escrever textos e nem gravar os podcasts, inclusive o Rádio de Bolso – pelo que peço desculpas a leitores, leitoras e demais ouvintes das minhas parcas considerações online que costumo postar. Em breve, é certo, retomo a rotina da produção por aqui e nos demais canais.

Uma constatação, mera constatação: ninguém morre de ‘inanição informativa’. E um pouco de ‘alienação’ pode fazer bem – pelo menos é o que sinto nessa fase da experiência que estou sendo obrigado a viver por compromissos pessoais atualmente. O foco mental é redirecionado. Você tende a aprender outras coisas. Vive coisas muito práticas e precisa usar seu tempo para conduzir esse novo momento, esses processos que exigem mais concentração, tempo, dedicação e paciência. É um exercício que mistura tempo, novidades e aprendizagens – ou mesmo a volta a coisas mais primárias do cotidiano de uma casa, só para ilustrar. Quase sempre, pela correria diária, não temos tempo de pensar muito em atividades caseiras. E isso passou a ser minha ocupação principal durante esse período, além de tratos com o trabalho regular.

Aqui não cabem reclamações. O setor de choramingos foi fechado temporariamente. Ter muito o que fazer, na lida diária entre trabalho regular e uma casa, tira seu foco de futilidades e ocupações típicas de quando se tem tempo para tudo. O dia é curto para muita coisa. E você escolhe melhor as prioridades. Isso tem sido outro aprendizado. 

Ainda estou em meio a esse processo de mudanças repentinas para cuidados maiores com o cotidiano caseiro e menos com a produção, consumo e distribuição de informações. Ou mesmo com o peso excessivo do trabalho. As coisas estão se encaixando aos poucos e me sobrou tempo para refletir sobre essa condição temporária e nova. Que me apraz e me faz ver horizontes que antes estavam meio turvos pela barulheira digital à qual estava exposto a maior parte dos dias e até em finais de semana. Tem mais diálogo do que leituras, vídeos e produções. Tem mais coisas pulsando na vida cotidiana. E o olhar fica mais atento, menos disperso. Talvez ainda mais crítico – consigo e com os que o cercam.

É certo que cada pessoa que foi ou está sendo obrigada a passar algum tempo fora das redes tem sua experiência para contar, caso queira. A minha tem sido de mudanças, compreensão mais apurada da vida e do convívio pessoal. Tem me ajudado bastante a entrar e sair das redes sem me preocupar com o fim do tempos. Pelo menos era isso que se imaginava, no geral, quando se falava em “sair das redes”. Você pode sair e voltar quando quiser e nada estará destruído. Pelo menos por aqui.

Abraços e obrigado pela compreensão de todos e todas!

Nos veremos com mais regularidade, em breve!

Djair Galvão

3 respostas para “Sobraram os ecos das redes”.

  1. Prezado Djair, bom saber que você ultrapassou esse período e que, apesar das situações de cunho particular, serviu para novas reflexões.

    Como sempre, seus textos são muito bem escritos , com clareza e uma gramática perfeita.

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  2. Avatar de Marlene G. G. Antonelli
    Marlene G. G. Antonelli

    Boa noite Djair. Bom saber que você ultrapassou esse período e que, apesar das situações de cunho particular , serviu para novas reflexões. Como sempre, seus textos são muito bem escritos, com clareza e uma gramática perfeita. Super agradável de ler.

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    1. Oi, Marlene! Muito obrigado pelo seu comentário! Grato por acompanhar!

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