Por que tememos os lobos?

Foto: David Dirga/ Shutterstock.com

Todo mundo morre de medo dos lobos, principalmente eu você, que nunca avistamos um de perto.

A figura do lobo está no imaginário humano muito mais do que as de outros predadores maiores e mais fortes, como baleias, tubarões e jacarés, dentre as grandes criaturas marinhas e terrestres que ocupam os principais lugares da cadeia alimentar.

Sobre alguns animais de maior porte na natureza, uma matéria do site Gizmodo, de 2012, trouxe explicações e fartos exemplos de como determinadas espécies sobrevivem, caçam, controlam outras e auxiliam na manutenção do equilíbrio ambiental. E, claro, dedica um trecho para falar da importância dos lobos.  Acesse a reportagem aqui.

Os lobos foram dados como praticamente extintos na Europa, entre o final dos anos 1800 e as primeiras décadas do século 20. A caçada implacável, registrada também nos EUA, Canadá e em outros pontos do mundo, teve como motivo central o fato destes serem predadores naturais do gado, das ovelhas e demais animais criados pelo homem, além dos riscos que representariam para o cotidiano das cidades que conservam florestas em suas bordas.

No entanto, notícias recentes dão conta do reaparecimento de várias espécies de lobos em países da Europa. Um bom relato sobre o assunto pode ser encontrado no site Conexão Planeta, em reportagem publicada em 2017 (veja aqui) . Outro aspecto é que existem experiências em curso nos EUA baseadas na “reintrodução” de lobos na natureza para controlar o crescimento de espécies das quais o animal é predador natural, como os cervos. A iniciativa está em curso no Parque Nacional Yellowstone e já teve como resultados a diminuição dos cervos e o aumento da vegetação naquela área de conservação ambiental dos EUA.

Deixando momentaneamente de lado a questão ambiental, uma pergunta: estaríamos preparados para aceitar o crescimento da população de lobos e para o que eles representam para os seres humanos? O ponto central não é responder “sim” ou “não”, mas pensar na sua representação para o nosso universo.

Presentes nas lendas, contos de fadas, histórias, contos fantásticos e em relatos registrados em praticamente todas as culturas desde longa data, os lobos atiçam a curiosidade humana e são repositório de medos coletivos há séculos. Esses animais sempre foram associados ao risco à vida das pessoas. Sem esquecer da sua incorporação lendária na transformação do homem em uma “criatura metade homem, metade lobo”, o Lobisomem. As narrativas a esse respeito misturam morte, terror, escuridão, jogos de poder e manipulações religiosas e sexuais.

Incorporamos a figura do lobo como uma criatura má – encarnada no conto de fadas mais conhecido de todos, que traz uma menina indefesa acossada por um “lobo mau”. Temos isso no conto da Chapeuzinho Vermelho e em diversas histórias medievais que foram sendo contadas e recontadas ao longo dos séculos.

Da análise comportamental psicanalítica, resumidamente, extrai-se que a figura do “lobo mau” seria uma referência ao sexo masculino “predador” – e que caberia à mulher “tomar cuidado” com essas criaturas à solta nos lugares por onde anda, principalmente aqueles em que “não tem ninguém por perto para protegê-la”. A cantiga clássica do conto Chapeuzinho Vermelho, nas animações de cinema e montagens teatrais, traz isso claramente: “Pela estrada afora/Eu vou tão sozinha/Levar esses doces para a vovozinha/A estrada é longa e o caminho é deserto/E o lobo mau pode estar por perto”.

A qual lobo se refere, efetivamente, a música, o teatro infantil ou o desenho animado que tanto admiramos? À criatura mítica do lobo (predador) encarnada na pele do homem ou ao animal propriamente dito? Fica a questão para mais tarde.

A propósito, já adiantei aqui em postagens anteriores (veja aqui e aqui) que preparo o meu terceiro livro tendo como base as figuras centrais da menininha do capuz vermelho e do lobo. O título será Chapeuzinho Vermelho volta à floresta, mas a linha de abordagem fica para quando estiver mais perto do livro sair.

Estudo de personagens feito pelo ilustrador Altemar Domingos para novo livro

De volta aos questionamentos: será que os lobos são tão perigosos quanto apontam o nosso imaginário, as lendas e as histórias a seu respeito?

Na interpretação da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, em sua obra Mulheres que correm com os lobos (Rocco, 2019), o arquétipo da “mulher selvagem” – à semelhança das lobas em estado natural nas alcateias – foi objeto de uma “domesticação” imposta pelo processo civilizatório. Estudiosa desse animais e da sua relação com o comportamento humano, a pesquisadora norte-americana prega a necessidade da reincorporação do espírito das lobas ao modo de viver feminino, numa alusão aos conceitos de liberdade e potencial criativo das mulheres.

Voltando ao universo natural e dos lobos, podemos dizer, grosso modo, que há muito tempo se provou que a existência dessa espécie se relaciona ao controle de determinados animais dos quais ela se alimenta, com destaque para cervos, javalis e alces. No tabuleiro natural da sobrevivência, o homem caça os lobos pelo medo de convivência com a espécie e para proteger seus interesses desde a ‘evolução’ da nossa espécie.

Como não poderia deixar de ser, o que se coloca aqui sequer arranha pontos centrais de estudos que interligam a relação lobo-homem em seus complexos sistemas de interpretação, de convivência ou de julgamentos.

Trata-se de um tema amplo, que não se encerra em contos de fadas, associações, suposições ou devaneios, mas abre frestas para a compreensão do fenômeno que assombrava nossos antepassados remotos, que fugiam ou se protegiam de predadores como os lobos usando seus esconderijos nas cavernas da Pré-História, o fogo e as armas rudimentares de então.

As armas de que dispomos há décadas, capazes de eliminar completamente os lobos ou quaisquer espécies que nos “ameacem” são, ao mesmo tempo, a forma pela qual nos aniquilamos como seres que compõem a cadeia alimentar natural.

Fugimos dela acreditando no poder e nas capacidades humanas quando, no fundo, somos meros animais acossados pela realidade e pelas fragilidades da nossa própria condição.

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