A fábrica japonesa de sensibilidade

Mesmo para quem curte regularmente o cinema de animação, talvez seja necessário confessar que poucos saberão identificar o que está por trás de algumas das mais belas produções com a assinatura japonesa. O olhar em retrospectiva nos mostrará que, de uma forma ou de outra, eu, você e todo mundo já vimos algum filme ou fomos levados – via plataformas de streaming – às mais de 21 criações em longa-metragem do Estúdio Ghibli. Pode ser que nunca tenhamos prestado atenção, mas estávamos diante de uma verdadeira ‘fábrica de sensibilidade’. E, suprema ironia, originada em um país com elevado índice de industrialização.

Como tudo que exibe qualidades excepcionais, a afirmação dessa empreitada do diretor Hayao Miyazaki e seus parceiros levou tempo. Teve início ainda no começo dos anos 1980, no mesmo período em que outro gigante se apresentava a esse universo, como foi o caso da Pixar (1986), criada por Steve Jobs e John Lasseter, e hoje no guarda-chuva dominado pela Disney. Sua consolidação ganha o mundo, década após década.

Feito esse pequeno registro histórico, o texto volta ao curso normal para apontar onde estariam os elementos marcantes dos projetos tocados pelo grupo de cineastas, gênios criativos e produtores responsáveis pelo sucesso do Ghibli.

Primeiro ponto: as histórias contadas, com o inconfundível traço nipônico, parecem carregar as tintas espalhadas ao longo de décadas pela sensibilidade do mais consagrado nome do cinema japonês – o diretor Akira Kurosawa. É chover no molhado falar dos filmes e fios tecidos com tanta genialidade por Kurosawa, como Madadayo, Os Sete Samurais, Dersu Uzala e Sonhos, só para citar os mais conhecidos.

Um outro aspecto é a forma como as produções do Ghibli falam de relacionamentos humanos sem afetação, incluindo lembranças do passado, dores, conquistas e saltos entre religiosidade e realidade, como se dirigisse a crianças e adultos o mesmo patamar de expressão. Dosam mensagens de vidas passadas, reencarnações, simplicidade e simbologias que são caras ao processo de formação histórica do Japão e do seu povo.

Numa terceira etapa, pode-se destacar o caráter de personagens que assumem sua infantilidade, seu permanente viço no olhar e uma indisfarçável capacidade de transitar entre mundos. Só para ilustrar esse aspecto, sugiro que vejam dois desses filmes primorosos do estúdio: O Mundo dos Pequeninos (2010) e As memórias de Marnie (2014), disponíveis na Netflix.

Adianto, todavia, que é tarefa difícil indicar filmes do Ghibli que não tenham personalidade, a despeito de estarem colocados por mim no carrossel de ‘sensíveis’ – como prego desde o título deste artigo. Não serão os mesmos gestos e nem serão personagens como a mesma cara. Podem lembrar lugares, olhares, mas nunca serão os mesmos. Os cenários pintados, de certo modo, nos tentarão a imaginar uma repetição, mas é bom lembrar que existe um propósito que margeia essas produções, ao envolver traços culturais japoneses esculpidos por gerações. São verdadeiras marcas daquele povo que circundam os desenhos – também chamados de animes.

A seguir, arrisco reunir alguns filmes numa sequência aleatória no tempo em que foram produzidos para instigar admiradores da animação a voltarem a atenção um pouco mais para o Ghibli: O Conto da Princesa Kaguya (2013), A Viagem de Chihiro (2001), Meu Amigo Totoro (1988) e O Castelo no Céu – este último inaugurou a longa produção oficial da empresa.

As cargas de misticismo presentes nos filmes com a marca de Hayao Miyazaki são leves, mas nunca passam despercebidas. Como na magia de A Viagem de Chihiro, as alegorias utilizadas pelo diretor – entre pessoas e animais – embutem a ligação da natureza com os humanos no campo que desconhece onde começa uma coisa e se inicia a outra. A personalidade desse tipo de cinema é seu charme, seu poder de atração, seu encanto.

GHIBLI NO BRASIL  – O Estúdio Ghibli mantém uma página em português na internet (acesse aqui).

PS – Como citei no primeiro parágrafo, mesmo na condição de espectador incondicional de animações ao logo de anos, confesso que fui apresentado mais diretamente ao Estúdio Ghibli pelos meus filhos Elton e Gustavo, com quem dividi a magia das telas em inúmeras ocasiões durante muito tempo. Aprendi a prestar atenção e não larguei nunca mais.

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