Passado, presente ou futuro: em qual tempo você vive mais?

Foto por ThisIsEngineering em Pexels.com

Do ponto de vista da filosofia oriental, calcada em princípios não dualistas, o único momento de grande importância na nossa existência é o agora – o presente. O passado é mera experiência e o futuro não passa de uma projeção. Isso dito de modo genérico. Não vou me alongar e nem propor um tratado sobre tema complexo da perspectiva existencial e/ou filosófica. Me proponho apenas a alinhavar um conjunto de pensamentos sobre a importância que cada pessoa dá às suas experiências e vivências, e o ‘tempo’ em que esses acontecimentos poderiam ser enquadrados.

Para começo de conversa, em termos práticos, acredito que todos nós conhecemos pessoas que ‘vivem no passado’, ou seja, passam a impressão de que não têm o que falar do momento presente. Sempre que você as encontra, seja em ambientes de trabalho ou em encontros familiares, os temas recorrentes desse grupo de pessoas remetem a acontecimentos de outrora, de décadas até. “Em 1970 eu fiz isso ou aquilo”; “morei em tais lugares e trabalhei em cidades x, y ou z” quando tinha 18, 30 anos etc etc etc. Será natural você ouvir centenas de vezes as mesmas histórias todas as vezes em que for visitar esses amigos ou parentes que estão no ‘passado’.

Certamente mantivemos ou mantemos contato com muita gente ‘do presente’ – ou aqueles tipos que vivem demais o agora, como se não houvesse amanhã. São os que dão a impressão de que ligam pouco para a vida, para cuidados básicos com saúde e o físico. Ou, num extremo, dedicam tempo demais a atividades do corpo, da beleza e do culto aos atributos físicos, aparentando não demonstrar preocupações com questões da mente e do pensamento. “Viver é agora”, imagino que pensem.

Também existem milhões de pessoas com o olhar voltado para o ‘futuro’, alguns até de forma exagerada, a ponto de preferirem passar por privações hoje para que possam gozar de um ‘futuro melhor e mais seguro’. Isso envolve cuidados em excesso com gastos, custos da vida, viagens, roupas, alimentos, bens de consumo e outros itens – em que quase tudo deve ser evitado ao máximo para não se gastar demais – porque poderão precisar e não ter lá na frente. Alguns variam esse comportamento entre a avareza e até uma vida beirando o que seria o ‘miserável’, a sovinice. São os ‘mãos de vaca’, em termos populares. Guardam hoje para poderem consumir amanhã, na aposentadoria ou na velhice.

Uma rápida passada por três exemplos de tipos de pessoas que conhecemos de algum momento da vida ou da nossa convivência serve, no caso abordado neste artigo, apenas como ilustração do que seria o tempo para cada pessoa ou grupos antes listados, em termos concretos. Claro que a intenção é ir um pouco além de falar de passado, presente e futuro em termo de perspectivas. Falar do que isso poderia representar, filosoficamente e até do aspecto comportamental.

Poderíamos dizer que uma pessoa que “parou no tempo” – que só tem experiências e coisas de antigamente para contar – seria menos feliz do que alguém que “vive intensamente” o presente? Ou que aquela que mira apenas o futuro vive uma fantasia? São questões importantes para pensarmos quando as três hipóteses se cruzam. E fica claro, de imediato, que caberia apenas a cada uma dessas pessoas medir o nível de satisfação, insatisfação ou de frustração que cada experiência lhe trouxe ou proporciona. O juiz de cada pessoa está em seu interior, é bom que se diga e se reafirme. Porque a tentação de julgar os outros é sempre grande, ainda mais numa sociedade onde a fofoca apenas ganhou projeção com as redes e a exposição da vidas de quase todos.

Pode ser que alguém sem grandes novidades passe a ser tratado, em rodinhas de amigos ou parentes, como o chato repetitivo ou o ‘mala’ da família por não acrescentar nada. Pode ser que seja o tipo bonachão, engraçado ou, noutra ponta, o ‘tiozão do pavê’, das piadas sem graça e sem noção, mas que não liga para essa sua característica e sempre estará a postos para repetir seus devaneios e suas sandices. Cada um escolhe o seu caminho. Mas nada garante que o hiperconectado com o presente seja o mais aceito, pois pode irritar muita gente por querer aparecer como o “feliz demais”. Ninguém gosta de gente que se diz feliz o tempo inteiro, isso é fato. E o cidadão do futuro? E se não houver futuro algum e ele/ela morrer antes?

Percebe-se que o terreno das escolhas de cada pessoa torna-se hostil quando colocado sob o crivo dos outros. É natural ninguém gostar de ser avaliado pelo que fez ou deixou de fazer, pois cada um decide o que bem entende da vida. E ninguém tem nada a ver com os caminhos escolhidos ou trilhados. As consequências, sabemos, cada um conhecerá no seu tempo.

Todavia, a ideia central aqui foi justamente pensar que a nossa existência coloca questões como essas – relativas ao tempo em que cada um “vive”. Independente das escolhas, uma coisa é certa: ninguém escapa de se enquadrar num dos três tempos postos no título deste artigo ou, talvez, de se encontrar quase que no meio deles ao mesmo tempo. Tem gente que construiu um “passado”, vive com certa intensidade o “presente” e constrói coisas pensando no “futuro”.

No final das contas, é bom que a gente pense que tudo isso faz parte da existência. E que daqui mais algum tempo, seremos apenas lembranças de tudo aquilo que vivemos, projetamos ou deixamos de fazer. Poucos se lembrarão de nós, grosso modo. A regra é que ninguém vive para sempre. E nunca ficará na memória do mundo e das pessoas para sempre.

Filosoficamente, que fique bem claro, a discussão aqui posta comporta algo mais complexo. Como o tema merece.

2 comentários sobre “Passado, presente ou futuro: em qual tempo você vive mais?

  1. A oportunidade da existência é algo sublime e única , e se compõe de diversos matizes que fazem que a mesma seja bela .
    As experiências passadas ,o viver do presente e as expectativas do futuro fazem que nossa história seja sempre muito especial.

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