O que Muirakytan fazia ali?

O homem se esquece de que é um morto que conversa com os mortos” (Jorge Luís Borges, em O livro de areia)

Este não é um texto filosófico e nem se atreve a se imaginar existencialista ou coisa que o valha. É um punhado de letras, sem coordenação temporal, sem linha ou pretensão de estabelecer uma proximidade que o autor não chegou a desfrutar daquele a quem dirigirá as palavras daqui por diante.

       Muirakytan, eu sei e você sabe que o tempo e o espaço geográfico foram duas fronteiras entre nós. Vivemos e crescemos com idades muito próximas, mas as realidades nos fizeram caminhar por outras paragens.

          Talvez você não saiba, mas nos cruzamos, eu e você, dois mirrados moleques, por corredores escolares numa Caicó ainda bucólica, nos anos 1970. Esta, sinceramente, é a lembrança mais antiga – diria praticamente a única – que tenho daqueles tempos, e confesso que guardo uma curiosa visão de quem seria aquele menino tímido, sempre grudado a algo escrito em papel.

          Passaram-se muitos anos e nos avistamos pouco. Sei quase nada a seu respeito. Claro, sei do que você criou, escreveu, pesquisou, pintou, rabiscou, pichou, poetizou, gargalhou, gravou, galhofou e transformou em coisas imateriais. Obviamente, essas informações são aquelas colhidas a granel em redes, ouvidas de bocas, de amigos, conhecidos, admiradores e pessoas que tiveram o prazer de sua convivência.

          Mas não é de coisas palpáveis que falarei, mas daquilo que seu espírito conseguiu reunir em poucos e profícuos tempos de existência. E não conseguirei me ater ao seu trabalho intelectual porque acho que eu seria desonesto se fizesse de conta que estou aqui produzindo alfarrábios de uma biografia sua. Isso o fará quem sabe e quem realmente o conheceu. Eu me recolho ao meu tempo e à minha parca imaginação para fazê-lo.

          Recorro à saga dos Buendía, do romance clássico do Gabriel García Márquez, para imaginar que você poderia ter sido levado a um pelotão de fuzilamento numa Macondo imaginária do Seridó que tanto escarafunchou em seus delírios de pesquisador. Pelo que ousou recolher das memórias desses povos cuja existência, como alguém disse, teria sido inventada se não existisse.

          Parecia sempre com sede e febre de buscar nos personagens regionais do Rio Grande do Norte e dos grandes sertões o seu encontro com um passado de famílias, gentes, currais, gados, cheiro de estrume, cercas de pedra, arames farpados, casarios, casarões, igrejas e casas de pedra. Noutro momento, via desfilar pelas vilas e arraiais pobres que davam guarida a um povo em formação os seus padres, seus vigários, seus nomes pomposos, suas concubinas, filhos bastardos, títulos de glórias terrenas e suas letras, rezas e histórias. Podia traduzir seu latim para uma língua que qualquer pessoa simples entenderia, uma vez que não lidava com história de personagens, mas de gentes.

          Soube de ouvir dizer que, em dado momento, atreveu-se a reduzir plantas, ao se encantar com a arte dos bonsais, como quem pega coroas-de-frade e as mantém minúsculas. O mesmo que fez José Arcádio Buendía, ao receber dos ciganos as últimas novidades das terras distantes, criar manuais da guerra solar, revelar aos pequenos o gelo e a esfericidade da Terra, dentre outras novidades.

          Fosse essa a sua única mania de distorcer as coisas, vá lá, mas as coisas pioraram muito para melhorarem em seu mundo imaginário, meu caro Muirakytan. Quem acreditaria que alguém seria capaz de “esculpir” em couros de tamboretes? E o melhor: a audácia de deixar de lado a suposta pompa e circunstância de professor e intelectual reconhecido para se referir a um prosaico orifício anal esculpido no meio da peça popular de sentar a bunda.

          Os tamboretes esculpidos foram uma de suas tantas passagens pelo mundo de Salvador Dali, dali mesmo do seu mundo envolto em livros, pássaros e outros seres animados, com seus cantos, miados e chiados. Posso também imaginar que muitas vezes você teve os ouvidos soprados pelo bafo do Pablo Picasso ao distorcer coisas, criações alheias, como se fizesse isso fitando os bigodes do Dali, seu mundo fora de esquadro.

          Não se trata, por óbvio, de dizer que ‘distorcia’ figuras, palavras, textos, criações, livros ou outras obras, mas passou a cultivar a mania – e os bonsais eram seu melhor desvio de agricultor de minifúndio – de reinventar e reinterpretar a imaginação alheia nas letras e interpretações. Afinal, como se explicaria sua tentação nunca controlada de “pichar” os livros que comia e marcava? Sim, não os leu, certamente, mas os devorou, comeu página a página, como García Márquez fez a pobre menina Rebeca comer areia e cal de paredes em Cem Anos de Solidão.

          Quem olha até hoje para aquelas figuras coloridas, em formas de caracóis, lagartas, pessoas disformes, monstrinhos simpáticos, terrenos, marinhos, de riachos, ruas, esquinas e olhos esbugalhados pensa que você outrora transitou por terras médias seridoenses. Que nada, penso, foi só algum espírito surrealista que lhe soprou de leve: “Distorce, Muirakytan, distorce! Eles não querem ser apenas isso que são nos livros”.

          Assim, você libertava criaturas que antes estavam presas a letras e seguiam, em muitos casos, padrões binários de existência e sumiço ao serem lidas e guardadas em estantes e bibliotecas. Era, de certa forma, uma mania aprendida, suponho, por sua convivência – que não sei afirmar ao certo como teria ocorrido – com ninguém menos do que Manoel de Barros, o poeta do Pantanal, celebrado no Mato Grosso do Sul, mas que vive na memória de quem gosta de pequenas coisas.

          Mesmo que não fosse poesia, esse seu hábito de perseguir lagartas, seguir os movimentos das esperanças e cavalos-de-pau, se interessar por pássaros e formigas tinha, sim, um certo ar de “manoelismo”. Pelo simples fato de que Manoel de Barros não fez poesias, mas representou as coisas sem importância. Deu materialidade a coisas mortas, deu vida a um alicate (um alicate “cremoso”), fez formigas donas de si, viajou nas folhas que não paravam de cair e fez do mundo das criaturas rastejantes sua razão de ser e de criar jogos de palavras.

          Sua inquietude certamente não assustava quem sabia que tipo de criatura habitou seu corpo por esses anos. Seria estranho não sentir que estava se movendo. Que não tinha uma nova mania, um novo problema a ser pensado, mas não com a intenção de criar uma teoria, demonstrar aos humanos isso ou aquilo. Sua voz não permitia ter arroubos de vaidade e nem seu tempo e seu jeito de expressar o que descobria o levavam a veleidades.

          Ora se entretia com mosquitos, lagartixas, seres minúsculos e plantas. Noutras, com cantos de pássaros. Daí mais um tempo, tinha toda uma estrada histórica para percorrer, em busca do tempo perdido – como um Proust sem preocupação com pedigree intelectual que muitos tentam ostentar.

          Poderia ser um mundo como o da Física, da Matemática, da Filosofia, das cosmogonias… Seu campo era ali, o da história, do que ninguém, de vários lugares, estaria interessado em pesquisar. E lá estava o domador de bonsais, de ancinho em mão, livros e papeis, notas e rabiscos, destrinchando mais uma fase da história, do passado, da composição familiar ou da ocupação dos grupos que representaram o poder temporal no universo potiguar.

          Entre um livro e outro, e tome novos desenhos, contornos, retornos, composições e linhas coloridas para representações do que havia lido, lá estava você envolvido nos desafios de pintar o que havia sido deixado numa parede de igreja do sertão, numa porta torta, numa fechadura imunda e enferrujada da casinha da beira de estrada, naqueles facheiros solitários no ‘desertão’, como quem não se contentou nunca com o que diziam que havia sido. Esse foi outro modo seu de encarar o mundo ao seu redor e ao redor daqueles para quem escreveu: não existe um mundo só, mas mundos que se entrecruzam e se refazem com o tempo.

          O Seridó do seu imaginário e das suas pesquisas, prezado Muirakytan, pelo pouco que pude entender, vai muito além de um rio e de uma história de pessoas, de posses, de cabedais rústicos, de porteiras, gado, suor, gibão, couro, berros, capatazes, criadores, coronéis, mandantes, doutores, fazendeiros, ruas empoeiradas, estradinhas de terra batida, ventos que sopram e cegam os passantes, das missas de gente morta, de crianças mortas cedo, de fome, de doenças, de famílias inteiras de retirantes, de secas, de falta de letras.

          Essa região que habitou o seu regionalismo multitudinário foi um construído com as lentes diuturnas da pesquisa, da atenção a coisas pequenas, a detalhes imperceptíveis aos que olhavam os bustos das figuras do passado e se contentavam com aquilo. Você queria o olhar da Dona Severiana, do Seu Tibúrcio ou quaisquer pessoas que não estavam escrevendo histórias, mas vivendo em algum lugar. A cor da sua pele era o que lhe interessava, as marcas do tempo davam o tom daquilo que pesquisava.

          Claro, os documentos que consultava, mesmo que não os redesenhasse pelos lados, não tinham motivo para serem lidos e levados pelo preço de face. Eram sempre passados por um olho mágico de louco que tinha no bolso esquerdo da calça e, após um minucioso rastreio, devolvidos aos seus lugares – fossem eles conhecidos ou não. O seu ancinho de ‘bonsaicultor’ sempre estava ali para cavoucar novos documentos.

          Quando já estava cansado de tanto não fazer nada, ler, reler, olhar, perder a paciência e rolar nos pensamentos, vinha um menestrel de não se sabe onde e lhe soprava coisas que deveria gravar e declamar. Foi sua língua uma parte desse ritual de fazer o que imaginava ser poesia, pois sua companheira de tantos anos era a poesia que estava sempre rindo e pronunciando coisas com um canto mavioso, matreiro, fora de esquadros poéticos.

          E o Zé Limeira do Seridó desembestava a criar coisas que não se assimilavam aos absurdos do poeta paraibano, mas não ficavam atrás na falta de sentidos que adorava dar ao universo das letras em formato de poesia. “Não faz sentido isso ter algum sentido”, imagino que tenha dito. Se não disse, pelo menos poderia ter pensado, e aqui fica a licença imaginária para me supor que poderia ter dito, e fica o dito pelo não dito.

          Como me socorri no início da magistral criação do Gabriel García Márquez para iniciar um trecho dessas pequenas considerações, não me causa espanto que seu mundo tenha muito a ver com o mundo do que lia, pensava e escrevia. E, acredito, também deveria conter submundos, vividos ou não.           Tinha um Borges na sua cabeceira, um Saramago, um Otávio Lamartine, um Padre Guerra, um Jorge (Amado), uma Clarice Lispector, um trompete do Louis Armstrong, seus duetos com Ella Fitzgerald. Certamente uma Nina Simone, ao lado dos maestros de bandinhas do Seridó, das fanfarras, das noites, das Festas de Santana, do Rosário, dos carnavais do passado, dos Negros do Rosário, das ruas de calçamento de Caicó, dos cheiros de capital de Natal, do lodo das praias, Areias Pretas, Pontas Negras, Tibaus, Potengis e a luz solar implacável das terras locais.

          Uma carranca deve proteger seu presente, seu passado e suas criaturas. Um grupo de pessoas que amou e pelas quais foi amado terá a tarefa de saber falar de coisas que eu nunca tive condições de saber a seu respeito, pois vivi longe, não tive o prazer de desfrutar desses seus mundos e submundos. Apenas me atrevi a abrir essa picada na mata escura para que não ficasse morta a árvore que plantou, que deixou lá, em busca do que se chamou de o eterno retorno dos seres.

          Aquele punhado de terra que você jogou e deu frutos no quintal estará lá, como testemunha de que suas falas aos bichos com quem conversou estarão eternizadas. As promessas que fez serão cumpridas, as palavras serão honradas e seus propósitos se farão propósitos de todos os que souberam da sua existência, deram nacos do seu tempo ao seu cabedal ímpar.

          Cada vez que você publicou algo, rabiscou, costurou, pinçou uma palavra que fosse, sua marca já ficou lá. Seu respiro se fez no ar e ficou suspenso. Sua forma de pronunciar frases, a cadência dos gestos e a postura de homem simples o fará sempre uma figura humana que não precisará de nome de rua para ser lembrada para a posteridade.

          Porque a posteridade o acompanhará por muito tempo. Vai saber quem foi Muirakytan Kennedy de Macêdo. Saberá por uma razão muito simples: basta olhar para o seu sorriso, para o que disse e fez como professor, pesquisador, orientador, poeta e ser falante da língua de um povo.

          E, por fim, como questiona o título destas linhas: “O que Muirakytan fazia ali?”. Ali é um lugar ocupado por ele. O que fazia era o que deveria ter feito. Fez e soube os motivos pelos quais fazia. Fazia aquele que um espírito manda, desenha e traça. Não se sentia amarrado ao tronco que abraçava, mas parte dele.

          Grato, amigo, por me permitir deixar palavras simples para quem soube transformar a vida de muita gente em poesia, conhecimento e simplicidade.

Um comentário sobre “O que Muirakytan fazia ali?

  1. Pingback: Principiando a historiografia cinematográfica de Muirakytan Macêdo | Djair Galvão

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