Bezerra da Silva, o ‘Sociólogo do Morro’

Começando pelo fim: o cidadão brasileiro José Bezerra da Silva faleceu num hospital público da cidade do Rio de Janeiro no dia 17 de janeiro de 2005. Um ex-umbandista que virou frequentador da Igreja Universal do Reino de Deus.

Começo: Bezerra da Silva foi uma entidade musical contestadora, sagaz, iluminada, multiartística e irreverente dos morros cariocas, oriunda genuinamente das camadas populares, e que ocupou por quase oito décadas a pele de José Bezerra da Silva, nascido no Recife em 23 de fevereiro de 1927.

Mas o começo, o meio e o fim da história de lutas, rasteiras, trancos, tropeços, reviravoltas e conquistas da sua existência de malandro que não era malandro não conheceu a paz supostamente encontrada na igreja, ocorrida na velhice. Pelo menos diante do sistema social.

É certo que sua vida lhe garantiria, sem margem de erro, o título de ‘Sociólogo do Morro’, espaço urbano onde passou a viver desde que se mudou para o Rio de Janeiro, aos 15 anos. Mal comparando, tudo o que um estudioso das sociedades precisa saber da vida nas comunidades mais pobres do Brasil, Bezerra contou e cantou em seus 28 discos: fez denúncias, relatos, citou fatos do cotidiano, apresentou os principais falares e gírias do morro e do crime, deu mostras da luta pela sobrevivência, sendo ele próprio um sobrevivente que chegou ao Rio com a roupa do corpo, num cargueiro, depois de expulso da Marinha Mercante.

O rei do partido-alto, um tipo de samba que tem parentesco com o pagode e ritmos carregados de ginga, trabalhou como pintor de paredes e na construção civil, mas foi buscar na música seu refúgio e saídas para o que vivia. Disse, certa vez, que usou a música como escape para não morrer – “senão iria acabar como um saco de cimento ou um milheiro de tijolos”.

A vida nos morros cariocas, temática central das composições dele e de parceiros, alguns dos quais com nomes fictícios ou escondidos nos discos por conta da ficha policial, rendeu a Bezerra da Silva o apelido de Embaixador das Favelas do Brasil. Mas não foi algo conquistado com facilidade, pois o sistema não aceitava a forma como descrevia o mundo do ‘asfalto’ em contraposição ao universo do ‘morro’.

Era nitroglicerina pura a relação dele, nas letras das suas canções, com os dois mundos. Bezerra escancarava o preconceito, o tratamento praticamente escravo dos pobres das favelas, o conluio entre polícia e ladrão, os desvios do sistema de Justiça, o alvo pintado na pele negra e as mazelas do cotidiano, muito comum nas telas de tevês do dito noticiário policial. Também fez a caveira de políticos, da aposentadoria de fome do brasileiro, da pobreza gritante e das armas constantemente apontadas para os rostos do mais pobres nas comunidades.

Na política, uma música dele se celebrizou por denunciar um candidato – como fazem muitos em época de campanha – que “subiu o morro sem gravata, dizendo que gostava da raça, foi lá vendinha bebeu cachaça, até bagulho fumou”, seguindo a galhofa com o tal Candidato Caô Caô, que também teria comido numa casa simples usando “uma lata de goiabada como prato” e até “tomado água da chuva”. Tudo para conquistar o voto do pobre e, após eleito, “mandar a polícia prender” (o outrora eleitor).

Também ficaram famosas suas abordagens sobre a chamada “guerra às drogas” nos morros de um modo geral, colocada em inúmeras músicas, com variados personagens, quase sempre mostrando que os ricos, traficantes, policiais, juízes e outros figurões poderiam, na verdade, ser os comandantes da rede que levava a polícia a “subir o morro” constantemente.

Essas e outras passagens, por exemplo, estão na música em que Bezerra pede que o juiz mande prender o ladrão “correto”, quando diz no refrão: “Se vocês estão a fim de prender o ladrão/Podem voltar pelo mesmo caminho/O ladrão está escondido lá embaixo/Atrás da gravata e do colarinho”. Quem não conhece essa analogia?

Em seus muitos discursos musicados, Bezerra da Silva mostrava a relação que o crime mantinha com certos tipos de malandros, ele próprio um “malandro de araque”, pois nunca teve jeito real para a coisa. No caso, as letras denunciavam o que a Operação Lava Jato considerava seu “Bezerro de Ouro”: os “entregadores”, chamados pelos procuradores da operação de “delatores”. Figuras abominadas no universo do crime real, recebiam nas músicas diversos nomes, sendo os mais populares “caguêta” – de alcaguete, “-X-9”, “Coruja” e outros.

Tem até uma canção na qual ele fala de um defunto que era tão viciado em “entregar os irmãos” que no dia do velório o sujeito estava no caixão, mas “o indicador do morto apontava para a polícia” quem era quem na parada. Era a forma de dizer que não se aceitava esse tipo de coisa na vida prisional, que Bezerra também experimentou em algumas ocasiões e tinha, portanto, “conhecimento de causa”.

No mundo dos ditos conservadores, a separação entre crime, estado, polícia, justiça e bandidos parece algo natural, o que não ocorria quando o ‘Sociólogo do morro’ compunha e decidia gravar seu rosário de denúncias nessa linha, quase sempre mostrando que havia sangue nas mãos dos “grandes” – que cometiam os variados crimes e depois saíam engravatados por aí.

Ainda no campo social, Bezerra foi um gozador genial em suas letras e músicas, ao falar da família, de sogra, cunhados, interesses, trapaças e até de pastores picaretas – o que certamente abandonou quando virou crente. Sobrou para todo mundo: a “sogra sequestrada” virou uma assombração que fez os sequestradores pagarem a ele o resgate para “buscar a velha de volta”. Ou na narrativa em que um ladrão vai arrombar um barraco de um pobre e sai de lá tão decepcionado com a situação que pede para ser preso, ao ver que o coitado do morador não tinha nada. E de pastor, claro, falava que o cara entrava na igreja com a roupa do corpo e “saía com um tesouro na mão”.

Não faltaram referências a drogas como maconha e cocaína em suas músicas, mas nenhuma foi mais popular do que A Semente, que remete à história de um vizinho inocente que “jogou uma semente no quintal” e, do nada, viu brotar ali “um tremendo matagal”. Que chamou a atenção da polícia e deu no que deu. Bezerra sabia da polêmica, mas tratava a realidade como ela era, ao escolher composições ou compor, tendo sido o dom musical de pianista seu lado aparentemente obscuro para quem problematizava questões sociais da pobreza com uma vertente do samba.

No fundo, a ‘sociologia experimental’ cantada nos versos dele e de parceiros serviu como pano de fundo para muitas histórias de pessoas comuns, sendo uma coletânea de existências reais que qualquer estudioso, na área acadêmica, encontra nas comunidades onde vai realizar pesquisas, por exemplo.

Figura marcante do cenário musical brasileiro por décadas, Bezerra conheceu o sucesso, chegando a ganhar diversos discos de ouro em sua carreira, o que lhe garantiu até uma moradia na Zona Sul carioca, mas não tirou seu prestígio e nem o fez “abandonar os irmãos do morro”. Seguiu a vida toda indo e voltando, entre os morros Cantagalo, Dona Marta e nos complexos mundos e comunidades populares – do Alemão à Maré, de uma ponta à outra da geografia do Rio.

Bezerra da Silva garantiu seu lugar na história musical brasileira, foi tema de livro, filme e documentário, mas sua passagem por aqui deveria ser estudada de forma mais aprofundada pelos que realmente fazem a Sociologia “acadêmica”. Está tudo lá nas letras, músicas e casos contados por ele, mas o próprio ainda merece um estudo de caso especial quanto ao que representou no fenômeno social dos pobres no Brasil.

Seu célebre ditado “Malandro é malandro e mané é mané” expressa a esperteza dos donos do poder sobre os desvalidos, mesmo que fosse uma referência tirada do mundo da malandragem como um alerta para que o pobre ficasse esperto. Era isso, na real, que ele sempre dizia quando tentava convencer o ouvinte das suas músicas sobre consciência política, ainda na letra de “Candidato Caô, Caô”: “Meu irmão/Se liga no que eu vou lhe dizer/Hoje ele pede seu voto/Amanhã manda a polícia lhe prender”.

É ou não é real isso aqui? E o que mudou? Ficam as perguntas para quem usar as músicas dele como referência.

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