Coronavírus e Black Mirror na vida real

A personagem Lacie em episódio da terceira temporada da série Black Mirror

Um dos principais temas que ocupam pensadores no mundo inteiro diz respeito ao que pode ou não mudar no planeta como consequência da pandemia de coronavírus. Isso quando houver um controle efetivo sobre a circulação e a letalidade do patógeno que mudou a vida de todos nós desde o começo de 2020 e já matou quase 4,5 milhões de pessoas nos cinco continentes, de acordo com dados de agosto de 2021.

Não existe um consenso, e é possível que o senso comum aponte para a descrença em mudanças de peso no comportamento social, na atuação de governos, empresas e nos hábitos que cultivávamos até a aparição deste vírus entre os humanos.

A revista Superinteressante trouxe uma matéria especial de capa, ainda na sua edição de abril de 2020, que abordou a temática do coronavírus, mas com um viés mais ‘otimista’ do que o que estamos acostumados a ler ou ouvir nos últimos tempos.

Nem por isso, a abordagem da publicação resvalou para a ingenuidade em relação a essas mudanças – que incluem forte incremento da vigilância de governos e empresas sobre as vidas das pessoas em diversas partes do mundo. Clique aqui e leia a edição da Super com a matéria.

A propósito dessa grande mudança que a Superinteressante destacou, no que se refere ao controle ampliado da vida dos cidadãos pelos estados, a série distópica Black Mirror trouxe, em sua 3ª temporada (2016) o episódio Queda Livre, no qual a personagem Lacie (veja aqui um trecho) vive num mundo em que as pessoas estão conectadas por microcâmeras implantadas nos olhos, interligadas a dispositivos móveis como os celulares. Por esse meio são acompanhados todos os passos do dia a dia das pessoas – dos relacionamentos interpessoais ao trabalho.

E o inusitado, para os padrões aos quais estamos acostumados: as pessoas atribuem pontos a cada ato, ‘”certo” ou “errado”, a qualquer um que cruze o seu caminho, o que pode inviabilizar o acesso do ‘mal avaliado’ até a coisas básicas do cotidiano. No caso da série, o processo de pontuação da vida de Lacie e demais personagens ocorre através das redes sociais.

Na reportagem antes citada, a Superinteressante mostrou que, ao redor do mundo, governos de diversas matizes ideológicas utilizam câmeras de vigilância nas ruas, estações de metrô, ônibus e órgãos públicos para monitorar os cidadãos.

No caso da China, apontada como exemplo na matéria, são 200 milhões de câmeras de vigilância, conectadas a sistemas de reconhecimento facial que, como em Black Mirror, atribuem pontos às pessoas, o que pode impactar em atividades diversas.

É importante lembrar que governos e empresas também fazem isso em diversos países, não sendo a China a única nação a operar sistemas de controle dos seus cidadãos ou dos seus colaboradores. No Brasil, a título de exemplo, só a cidade de São Paulo, com mais de 12 milhões de habitantes tem em torno de 1,5 milhão de câmeras espionando quem vai e quem vem pelas suas mais de 80 mil ruas e avenidas durante 24 horas por dia.

Como nem tudo é controle do Estado na abordagem da matéria da revista que inspirou este texto, faz-se necessário destacar que também são listadas mudanças de cunho comportamental que podem começar a vigorar no período pós-pandemia.

Dentre essas alterações que devem advir em período posterior estariam: a adoção natural de medidas de distanciamento social nas relações interpessoais em países como o nosso, onde era regra o abraço, o beijo no rosto e os pertos de mão (até antes do coronavírus) e cuidados maiores com os lugares que frequentamos.

Estima-se que também serão comuns problemas de ordem psicológica, fobias e transtornos causados pelo medo da volta do vírus ou de variantes mais perigosas, algumas já em circulação e em estudo pelos cientistas de vários lugares.

Bom, não vamos sofrer por antecipação, mas é inegável que algumas mudanças virão. Inclusive para pior, ainda mais em se tratando de um vírus que até hoje não se conhece por completo.

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