O Homem que Matou Dom Quixote e a nova tentativa do cinema de fazer as pazes com Miguel de Cervantes

Ator Jonathan Pryce em cena de O Homem que Matou Dom Quixote/Divulgação

Dom Quixote, a mais importante obra da literatura universal, nunca se encaixou como o cinema gostaria porque sempre teimou em ser o que imaginou seu autor, o espanhol Miguel de Cervantes: uma novela que não acaba nunca e não obedece a um roteiro lógico, pois foi feita com o propósito de provocar inquietações.

Dentre as diversas tentativas de adaptação da obra para o cinema, a mais recente (de 2019), do diretor inglês Terry Gilliam, tem o curioso título de O Homem que Matou Dom Quixote. Pode ser mais um esforço dos produtores da telona para se render aos encantos do Cavaleiro da Triste Figura e ao seu criador. A começar pelo tempo que levou para que se tornasse realidade: a película de Gilliam consumiu 20 anos para ganhar vida.

Descontados o tempo, a dificuldade de se contar a história criada por Cervantes em seu esplendor e os riscos de apenas repetir a saga do cavaleiro andante e seu escudeiro, o filme de Gilliam tem a chance de ser bem-sucedido na tarefa de redenção da sétima arte ante a grandeza da obra. Por vários motivos:

  1. Traz elementos que se aproximam das loucuras vividas pela dupla composta pelo fidalgo Alonso Quijano (Dom Quixote) e pelo camponês Sancho Pança, num enredo que simula o universo quixotesco das alucinações e da fuga da realidade;
  2. Os personagens centrais não são parecidos entre si, pois um é um arrogante diretor de cinema (vivido por Adam Driver) e o outro é um senhor com cara de Dom Quixote (papel do ator Jonathan Pryce);
  3. Os tempos da narrativa se misturam, se entrecortam, em meio aos lugares que parecem as terras de outrora da narrativa original, enquanto simula os perrengues da produção e se multiplicam as ironias sobre os erros do cinema para fazer algo próximo do que seria a obra de Cervantes;
  4. Apela para toda sorte de mistura entre o real e o imaginário, com um ritmo que prende o espectador o tempo inteiro, pois não se preocupa em contar a história criada por Cervantes, mas simulações do universo quixotesco.

A trama usa e abusa dos delírios, e isso é um ponto positivo para o filme de Terry Gilliam. Os atores cabem muito bem no que foi roteirizado, embora o início seja um pouco chato por conta das repetições de cenas já vistas em outros filmes que mostram os diretores arrogantes de sempre sapateando de raiva e com excessos de estrelismo.

O filme é uma homenagem aos leitores de Dom Quixote ao se propor a misturar coisas de folhetim e de cinema. Também quando coloca o espectador em dúvida sobre o real e o imaginário, tentando fazer o transporte deste para o mundo dos cavaleiros errantes. Os cenários escolhidos ajudam.

Se você ainda não viu (está disponível na plataforma Netflix), reserve um tempo para acompanhar a saga imaginária de Gilliam para a imaginação de Cervantes. A única garantia é que não haverá arrependimento, mesmo que a sensação, ao final, seja a de que Miguel de Cervantes sempre terá um diretor de cinema tentando fazer o mesmo que Terry Gilliam fez. E os demais que tentaram antes, incluindo o genial Orson Welles, cujo filme nunca foi terminado, entram na conta para fazer história – e deixar que a saga de Dom Quixote permaneça no seu lugar como uma das mais belas criações literárias de todos os tempos.

A obra, no fundo, foi feita para sonhar. E também para perturbar todo mundo que imagina viver no mundo ideal, perfeito, com todas as coisas previsíveis e em seus lugares. Ou que imagina Dom Quixote como louco varrido e se acha dono do seu destino e das suas faculdades mentais.

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